A marca do beijo — 7

Nickolas Ranullo
Aug 31, 2018 · 6 min read

— Você… — ela começou a dizer, baixinho, enquanto seguíamos abraçados no meio da sala — Você já…

— O quê? — eu perguntei, me afastando um pouco para que eu a encarasse. Os olhos castanhos carregavam também a vermelhidão de um choro que ela segurava.

— Esquece, é… Idiota.

— Fala…

Nos encaramos de novo. O apartamento estava em silêncio assim como a sala. A noite, lá fora, já se fazia mais do que presente. A cidade que nunca dorme, seguia se apresentando com os barulhos do trânsito e com as luzes que acendiam e apagavam no horizonte.

— Sei lá… Como você acha que é transar com alguém sabendo que aquela vai ser a última vez que vocês vão realmente se ver? — uma lágrima correu pelo seu rosto. Aquilo estava, lentamente, me despedaçando.

— Triste, eu acho — respondi. Nossos olhos não se desviavam — Eu acho que deve ser incrivelmente triste.

— Me faz triste? — ela perguntou, antes de um beijo salgado. As lágrimas começavam a descer pelo rosto dela. Eu sentia o rosto dela ficar quente. As minhas lágrimas correram para encontrar com as dela. Se não ficaríamos juntos, pelo menos o sal do nosso choro se encontraria na mesma água.

Eu acredito que sempre tive uma habilidade especial: a de guardar momentos.

Ali, com ela, não seria diferente. Se não foi diferente em nenhuma de tantas outras vezes, na última é que não falharia.

Meus dedos passavam pela cintura dela, por baixo da minha camisa que ela seguia vestindo, como se eu pudesse, de alguma forma, deixar minhas impressões digitais ali, como uma marca que ela não poderia apagar, nem se quisesse.

As mãos dela passavam pelo meu rosto, não permitindo que nossos lábios se desencontrassem. Tem despedida que dói ainda mais.

Giramos, pela sala, como se o tempo pudesse, ao nosso redor, voltar para tempos mais fáceis.

Ela me empurrou contra a parede. Era uma inversão da última noite. Nos encaramos. Os olhos dela, marejados, carregavam, além das lágrimas, o fogo que ardia sempre com a mesma intensidade. Os beijos dela voltaram a encontrar minha pele. O pescoço recebeu uma mordida firme. Ela também queria deixar marcas com a ilusão de que nada daquilo sumiria depois.

Ela tirou minha camiseta. Os beijos passaram pelo meu peito, mas pararam na altura do coração. Ela encostou a cabeça. Eu olhei pra cima, enquanto a abraçava. Eu podia sentir as batidas do meu coração. Sentia as lágrimas que ela soltava, agora, escorrendo também pelo meu corpo. Eu parei meu olhar em uma das lâmpadas da minha sala. Meus pensamentos pareciam embaralhar o presente com o passado. Eu a abracei ainda mais forte.

Essa não seria nossa última lembrança.

Eu a peguei pela mão e subimos as escadas.

O resto das minhas roupas deixou de me vestir assim que entramos no quarto. Ali, caímos na cama ainda desarrumada pela noite anterior. Ela sorriu quando me viu por cima dela. Eu, como nunca resistia, sorri junto. Nos encaramos mais uma vez. Ela passou a mão na minha barba e fez a menção de falar algo. Botei um dedo sobre seus lábios.

— Eu sei, eu sei. Não fala nada — eu disse, antes de um beijo. O fogo voltava a ganhar forma. A nossa forma.

Meus beijos desceram em seu pescoço. Fui abrindo os botões da camisa conforme meus beijos passavam em cada centímetro do seu corpo.

Eu guardava na minha memória os arrepios que a pele dela sofria conforme minha barba a arranhava devagar. Guardei os gemidos que ela soltou, quando minha boca encontrou seus seios.

Meu caminho seguia descendo pelo corpo dela. A calcinha passou a descer devagar e, em seguida, vinham meus beijos em suas coxas, canelas, pés. O caminho de volta foi com ainda mais vontade do que a ida. Quem sabe essa fosse uma esperança pra outros tempos, que ela voltasse com ainda mais vontade.

Meu rosto parou entre suas pernas. A saudade tem gosto salgado, mas as vontades tem um gosto doce. A vontade dela parecia ainda mais doce. Eu sentia isso com na ponta da língua. As mãos dela mergulharam em meu cabelo, como se pudesse afogar suas vontades.

Os gemidos dela seguiam, ao menos na minha cabeça, uma melodia que artista nenhuma jamais saberia representar.

Meus dedos brincavam com o doce de suas vontades. Ela riu, baixinho, em um momento.

— Como você faz isso? — ela pareceu perguntar, antes de voltar a gemer.

Suas coxas se fechavam, devagar, em volta do meu rosto. Eu entendia tudo como um pedido pra ficar, então eu ficava. Eu saboreava cada segundo.

Senti quando suas pernas começaram a se contrair. Notei quando ela agarrou o lençol. Ouvi quando seus gemidos tornaram-se silêncio quando ela acabou mordendo o travesseiro.

Doce. Esse seria o primeiro gosto de lembrança que eu teria naquela noite.

O corpo dela, relaxado na cama, seguia em brasa. Eu sentia isso quando meus beijos agora subiam por ele.

Eu a encarei, assim que nossos rostos ficaram na mesma altura. Ela ainda deixava escorrer uma ou outra lágrima, mas um sorriso já habitava seus lábios. Encostamos nossas cabeças e nossos corpos, devagar, encaixavam mais uma vez. Ela gemeu quando estávamos completamente encaixados e sorriu de novo. Nossos lábios se reencontraram.

As mãos passeavam pelos corpos. As minhas ainda carregando carinho, nostalgia. Eu lembrava de tantas outras vezes que percorri aquelas curvas. Ela, com as unhas em minhas costas, parecia assinar meu corpo, como se eu fosse sua propriedade. Eu nunca realmente seria. Os meus melhores desejos, porém, talvez fossem dela desde a primeira vez que se nos olhamos.

Rodei na cama, a colocando por cima. Ela riu e balançou a cabeça negativamente. Eu podia ler seus pensamentos.

Suas mãos apoiaram em meu peito enquanto ela fazia uma das coisas que fazia melhor. Os movimentos eram lentos, como ela sabia que eu gostava. Ela jogou a cabeça pra trás. Eu guardava a cor dos cabelos vermelhos. Eu guardava a forma que a minha camisa xadrez, aberta, revelava seu corpo pra mim.

Minhas mãos passeavam em suas coxas, em seu quadril, em sua cintura, em seus seios. Ela inclinou-se mais uma vez. Nossos lábios matavam uma saudade de minutos. Minhas mãos foram até seu quadril. Apesar dela estar por cima, ela entregava o controle pra mim. Nós sabíamos como realmente gostávamos das coisas.

Eu a puxei para ir fundo mais uma vez. Suas pernas se fecharam perto de mim. Nossas testas encostadas. Silêncio. Tudo o que se ouvia no quarto era nossa respiração, sincronizada. Arrisco a dizer que até as batidas do coração, por algum tempo, uniram-se.

Um beijo. Mais um beijo. Outro beijo. Ela sorria. Eu sorria. Sorríamos quando, mesmo com a relutância de nossos corpos, nos desencaixamos e ela caiu ao meu lado na cama.

O silêncio permaneceu, conforme eu fazia carinhos em seu cabelo e ela se aconchegava em meu peito. Ela talvez falasse, mais uma vez, sobre como meu coração batia com força. Eu talvez escondesse, mais uma vez, como eu sabia que ele batia ainda mais forte quando era ela quem o estava ouvindo. Ela caiu no sono, com a minha camisa xadrez. Eu pensei que aguentaria até a hora que ela acordasse pra se despedir, mas… Fechei os olhos, depois de inspirar mais uma vez.

Acordei horas depois. Passei a mão pelo lado em que ela estava antes na cama. Ela já não estava mais lá. Esfreguei o rosto, com um resto de esperança de que o dia anterior foi, na verdade, um sonho. Não foi. Me sentei na cama. A minha camisa xadrez estava dobrada na ponta da cama. Eu a peguei e senti o cheiro dela. Um bilhete caiu.

“Eu levantei antes que o sol mesmo se levantasse. Eu não ia me despedir de você de outro jeito depois do que vivemos ontem. Eu espero que você me perdoe por tudo e que não se esqueça de nada. Eu, pelo menos, jamais esquecerei.

Pensei, sinceramente, que te encontrar uma última vez seria mais fácil, mas foi a coisa mais difícil que eu já fiz. Vou te carregar sempre comigo. Pelas palavras, pela arte, pelo toque, pelo gosto e… Pelas batidas do coração. Até o dia em que ele pare de bater.

Te deixei um último presente, espero que não se importe.

Com amor,

Aline”

Olhei ao redor, procurando algo que ela tivesse deixado. Não encontrei. Levantei da cama, vesti a cueca e comecei a descer as escadas. Não terminei. Assim que olhei para o balcão, vi uma das minhas telas ali.

Um beijo estava registrado ali com o batom vermelho que ela usava.

Uma última marca de uma noite que ficaria, pra sempre, marcada na memória, na alma e em cada batida do meu coração.

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A marca do beijo

Um romance que parece que acaba. Mas só parece que acaba. Será que só parece?

Nickolas Ranullo

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"Não digam a minha mãe que sou jornalista, prefiro que continue acreditando que toco piano num bordel".

A marca do beijo

Um romance que parece que acaba. Mas só parece que acaba. Será que só parece?

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