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Escrita e produtividade

A pressão por escritores mais produtivos não produz textos melhores

Escritores só pensam em duas coisas: produzir textos e pagar contas. É a vida.

Na vida louca de produzir cada vez mais aprendemos que escrever é produzir letras agrupadas em palavras e palavras agrupadas em parágrafos e parágrafos agrupados em páginas; e por aí em diante. O buraco é mais embaixo.

Como diria Drummond, há livros feitos apenas para preencher espaços na estante — e há textos feitos apenas para preencher blogs na internet.

Produzir não é a mesma coisa que produzir com qualidade. A internet popularizou a escrita, mas também institucionalizou sua efemeridade . Textos viralizam e somem na velocidade de um virar de páginas ou de mudar de abas. Para os escritores, profissionais ou não, conquistar leitores é como pegar papel na ventania. Não apenas a produção textual se tornou efêmera, mas o leitor se tornou tirano. Muitos autores de sucesso confirmam que escrevem o que seus leitores querem ler, sem tirar nem por. Se matam um personagem o fazem ressurgir num spin-off, se criam um personagem que não agrada, fazem-no morrer antes que a série de livros perca público. Sequer é preciso um autor para fazer um universo literário se manter; as fanfics são provas de que o autor se tornou a parte menos importante do mundo dos leitores.

Produzir mais e mais parece ser o único caminho para poder usar o crachá de escritor. Escritores são seres criativos e seres criativos, em nossa era da informação, precisam criar sem parar. Esqueça a imagem do escritor recluso e contemplativo, esqueça Thoreau e sua cabana isolada do mundo, esqueça Emily Dickinson e seu medo de gente, esqueça Proust e seu quarto isolado do mundo com paredes forradas de cortiças, esqueça Hunter S. Thompson e sua fortaleza longe de tudo e regada a drogas e whisky. O escritor da era da informação precisa da resposta do leitor, precisa de aprovação, precisa provar-se escritor.

Há muita gente produtiva e pouca gente talentosa. Parece assim que quanto mais imaturo mais produtivo o escritor. Não é uma dedução. Escritores maduros sabem o quão penoso é o processo de escrita, o quanto ele demanda de silêncio, concentração e pesquisa. Escrever para manter uma meta produtiva só produz textos ocos pra preencher a cabeça oca de gente oca.

A obsessão dos escritores novatos pela produtividade se dá pelo medo da folha em branco, o pavor da página do Word aberta, o horror do cursor piscando esperando o início de uma narrativa. Nenhum escritor é incentivado a ouvir o silêncio, mas escritores que não sabem lidar com bloqueios, vazios, pausas e hiatos criativos nem deveriam se arriscar a escrever. Escrever é muito mais gerenciar vazios do que empilhar conquistas.

Em tempos de hiperconectividade é importante lembrar que a literatura não pisca, não possui vídeos, não tem link. Ler literatura ainda é um ato de silêncio, concentração e entrega. Literatura ainda é a variação do mesmo tema: letras pretas sobre um fundo branco. A agonia por likes na Internet não serve para nada quando o assunto é colocar uma palavra depois da outra de maneira clara e honesta. Para o escritor viciado em conectividade, produtividade e interação, o texto parece pouco em sua simplicidade. Parece assim que a escrita deva sempre responder a alguma coisa, ou causar algo de imediato, ser popular, polêmica ou revolucionária. Nem sempre. O processo de transformação de uma ideia em texto, de um texto em outra ideia e dessa ideia em ação exige tempo. Se você é um escritor que não tem paciência para isso, mude de profissão e mude já.

Já defendi o discurso do “escreva e não olhe para trás”, mas a experiência me mostrou o contrário. O autor que escreve “para frente” está sempre apontando sua caneta para o futuro, para o sucesso, para mais. Perde-se assim a capacidade reflexiva, fundamental para o exercício da boa literatura, perde-se o olhar para o passado, para o já lido, o conhecido, o vivenciado. A escrita irrefletida é pré-fabricada, feita de fórmula batida — a escrita direcionada para grandes conquistas, feita de avanço sem fim, sem nunca parar. Escrever sem ler o que se escreve para leitores que leem qualquer coisa sem refletir sobre isso.

Refletir significa não apenas repensar, mas revelar-se em outra coisa. A luz que se projeta sobre uma superfície revela a si mesma e a coisa na qual reflete. O grande autor não usa sua obra para aparecer, mas para projetar-se nela e então desaparecer, submergir tão completamente nela que sujeito e coisa se tornam um tema só. E quanto mais o autor mistura-se em seu trabalho, menos o vemos e por isso mesmo mais presente ele fica. É uma contradição, mas a escrita outra coisa não é senão um paradoxo. O autor cria o caminho e o abandona para que outros o possam trilhar.

O mito do escritor criativo

William Faulkner dizia que só começava a escrever depois de se empanturrar de ler. A escrita para ele era um processo de transformação de uma matéria prima (leitura) em outra coisa (livros). A ideia de criação a partir da genialidade pura do criador é a maior mentira moderna, capaz de destruir muita gente promissora em suas carreiras literárias. Fala-se muito em criação e quase nada sobre transformação e formação de uma mente criativa. Nada cria-se do nada. A criação é um processo de síntese, não de mágica. Mentes vazias não podem criar coisas sublimes.

No livro The Psychology of Writing o professor Ronald T. Kellogg aponta alguns mecanismos do processo de escrita. Para escrever precisamos combinar memória e imaginação. Podemos criar textos a partir de nossas experiências, mas a memória sozinha não cria conexões. É preciso uma combinação sutil, uma sintonia fina entre memória (verdade) e imaginação (mentira). Uma sintonia realmente delicada pois nem sempre nossas memórias são verdadeiras e nem sempre nossa imaginação é impossível. Entre o que imaginamos e o que existe de fato há um abismo a ser preenchido pelo senso de realidade. Ler e refletir nos fornece meios de converter a imaginação em realidade, em preencher lacunas, contar histórias, dar sentido a nossa existência e a existência de pessoas que não existem (personagens). A escrita é um ato de significação, de conversão de sentimentos e experiências sem sentido em algo com uma estrutura lógica. Esse processo depende muito mais da reflexão do que da criatividade. Aliás, ser criativo pode ser um problema quando não se possui as habilidades necessárias para transformar impulso em energia. As pessoas deveriam pensar em ser reflexivas muito antes de criativas. Ser criativo sem reflexividade é como comprar um apartamento sem ter dinheiro para paga-lo. A criatividade tem seu preço, gasta energia, tempo, nos expõe aos olhares alheios. Ser criativo pode ser um fardo impossível de carregar se você for incapaz de compreender a complexidade da vida.

Produzir muito nunca significou nada quando o assunto é escrever bem. Harper Lee demorou 65 para lançar seu segundo livro, Margaret Mitchell gastou 10 anos escrevendo E o vento levou e morreu atropelada aos 49 anos sem terminar outro livro. Oscar Wilde, apesar da grande popularidade, escreveu apenas um romance, O retrato de Dorian Gray. J. D. Salinger se contentou com O apanhador no campo de centeio. Giuseppe Tomasi di Lampedusa se contentou com O leopardo. Jose Saramago, que deixou uma obra imensa em todos os sentidos, passou boa parte da vida matutando em como seria um escritor original e só publicou depois dos 40 anos. Bram Stoker e Charles Bukowski só publicaram seus sucessos depois dos 50. John Milton publicou Paraíso perdido com mais de 60 anos. Ou seja, ninguém diz isso, mas escrever um livro realmente bom, se tornar um escritor realmente relevante, pode demandar uma eternidade e você pode sair exausto disso, sem forças para continuar escrevendo mais nada. A criação nem sempre é uma coisa fofinha. Quase sempre não é.

Escreve-se bem quando escreve-se no seu tempo, no seu ritmo, seja muito ou pouco. A grandeza de um texto não se mede pela quantidade de caracteres. De Safo de Lesbos sobraram apenas fragmentos, alguns do tamanho de um tweet, ainda assim mais graciosos que toda a obra de Paulo Coelho. A maioria de nós, escritores, não terá o mesmo destino da poetisa grega de 630 a. C. Nem farrapo sobrará de nossa obra, nossos desejos serão engolidos silenciosamente pela areia movediça do tempo. Então resta escrever o que é bom, verdadeiro, sem egos, sem likes, sem vaidades. Se for bom, será como escreveu Safo num caco de vaso grego:

O que é belo é bom e o que é bom depressa será também belo

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