Fonte: Unplash.com

10 caminhos no meio do caos

Dez motivos de esperança diante de uma era de mudanças bruscas

Insatisfação criada por governos ineficientes, cansaço provocado por falso conforto espiritual, frustração criada por falso conhecimento, falência criada por falso conceito de sucesso. Estado, Fé, Saber e Capital. O quadrilátero que manteve o mundo em ordem por muito tempo começa a ruir. E a parte boa desta equação é que eu e você coincidimos de estarmos vivos na mesma época. Somos ao mesmo tempo testemunhas, vítimas e agentes modificadores desse processo sem nome, que uns chamam de crise econômica, outros de mudança de valores humanos, neo-globalização, neo-liberalismo ou pós-capitalismo. Esqueça os nomes. A era da informação não nos permite mais o pensamento binário de sim ou não, esquerda ou direita, capitalismo ou comunismo, sucesso ou falência. Estamos na zona de penumbra, entre a luz no fim do túnel e a escuridão completa. Vencem aqueles que conseguem pensar de modo móvel, complexo, adaptável. Os fundamentalistas, de todos os tipos, estão com os dias contados.

Os 10 caminhos

1 — FIM DO CONSUMISMO. O consumismo começa a ser é visto como doença e sua cura é uma combinação de sustentabilidade, economia compartilhada e consciência financeira. Na falta de dinheiro nascem outros modelos de barganha onde o valor de um produto ou serviço passa a ser medido pelo seu impacto / benefício social e não apenas pelo fetiche da compra. O crédito, que alimentou nossas vidas com a filosofia do compre agora, pague depois, é agora o vilão de um mundo que muda para a lei do compre o que pode comprar, pague pelo que é justo pagar.

2 — FIM DA FÉ CEGA. Mais pessoas buscam adaptar a fé à sua vida e não o contrário. Por muito tempo o fiel adequava seu estilo de vida e moralidade aos dogmas. Hoje os dogmas amoleceram e é a fé que deve se curvar diante de seus seguidores, sob o risco de colapsar. O extremismo religioso que assistimos em diversas escalas ao redor do mundo é reflexo dessa mudança. A fé caminha não para o racionalismo puro, mas para a satisfação da tranquilidade. Fé deve oferecer conforto, não limitar a plenitude humana. Os fundamentalistas só se proliferam em tempos de questionamento e a era da informação está criando uma revolução de dogmas paralela apenas à reforma calvinista. Não nascerão novas religiões, mas passaremos a moldar as antigas ao nosso entendimento de felicidade.

3 — DIFERENÇA E IGUALDADE. Diante da mudança da do mercado econômico e do conceito de fé descobrimos que somos humanos, fim de papo. As visões sociais baseadas em família, gênero, raça ou classe são imposições sociais que não se adaptam mais a atual concepção de igualdade. Quando retiramos o poder financeiro e o poder religioso de cima de nossas cabeças, ficamos todos em pé de igualdade. Estamos cada vez mais conectados e isso tende a eliminar barreiras criadas em nome de diferenças. Caminhamos para o terceiro passo da tríplice regra de evolução social baseada, não sem razão, nos ideais franceses. Sociedades em mudança buscam liberdade (de expressão, de locomoção social), igualdade (de direitos e oportunidades) e fraternidade (nossa capacidade de solidarizar com o outro tal qual ele é). O capital nos deu liberdade, a democracia igualdade, entramos agora na era da fraternidade impulsionada pela ação social. O feminismo, as lutas da comunidade LGBT, da comunidade negra, indígena e de todas as chamadas até então “minorias” são parte dessa mudança que não visa mais segmentar pessoas em grupos, mas de fazer da diferença um modelo de igualdade e representação. Quão mais diversa uma sociedade é, mais justa ela se tornará no futuro.

4 — FIM DA OBSESSÃO PELO TRABALHO E PRODUTIVIDADE. Ainda se fala muito em produtividade, mas não mais dentro dos modelos tradicionais capitalistas. O novo modelo de produção não exaure nem acumula, ele alivia e beneficia. Produzir significa criar e para criar é preciso pausa, seleção e reflexão. O capitalismo nos manteve em suspensão anímica por muito tempo a ponto de perdermos a noção de valor do tempo. Hoje o tempo é a moeda de troca mais valiosa de nossa sociedade, sem ele não produzimos, apenas reproduzimos. O trabalho segmentado, reduzido, compartilhado tem se tornado a forma mais objetiva de fazer melhor em detrimento do fazer mais.

5 — CONHECIMENTO SELETIVO. Ao contrário do que se diz, conhecimento ocupa espaço sim. A tendência de acumular saber nasceu da prática capitalista de acumular bens, mas saber sem aplicação (soa óbvio) é o mesmo que não saber. Mais do que acumular títulos as pessoas desejam colecionar experiências e abrir chances de aplicabilidade. A realização pessoal não depende mais da contemplação do produto, mas do processo de fazer. Iluminamos nossa cultura e conhecimento com as luzes do savoir faire, saber fazer, que nos leva em direção ao prazer de aprender algo realmente necessário que gerará frutos realmente úteis.

6 — FIM DO SONHO DE RIQUEZA. Ser rico não é mais um objetivo para muitas pessoas. Ricos, super-ricos e mega-ricos estão sob os holofotes da crise mundial como mentores do sistema que destrói a economia e a sanidade de países e pessoas. A sede capitalista começa a perder o seu vapor diante da desaceleração do ritmo de trabalho em nome de uma vida equilibrada entre ter e poder aproveitar o que se tem. Ter mais dinheiro do que o necessário é, pela primeira vez na história do capitalismo, motivo de nojo. Isso muda nossa forma de ver o trabalho e reduz a pressão do sentimento de posse. Possuímos algo enquanto o usamos, algo sem utilidade imediata ou justificada, seja dinheiro ou bem de consumo, não faz mais sentido. Sem a necessidade de ter mais que o necessário outros valores brilham aos nossos olhos.

7 — PREPARE-SE PARA PERDER O SEU EMPREGO. Estabilidade é uma palavra cada vez menos usada em nosso tempo. Diante dessa areia movediça econômica pessoas se preparam cada vez mais para produzir dentro de uma segunda função, adaptável de acordo com suas habilidades. O que antes era motivo de horror, hoje é uma realidade estimulante e necessária. Se por um lado não podemos mais confiar em nossos empregos como fonte de renda a longo prazo, por outro aprendemos a deixar outras cartas na manga, a criar um plano B de vida. “Se nada mais der certo, farei tal coisa.” Carreiras começam com data para acabar. Criamos uma visão de ciclo, onde uma carreira é construída tendo em vista uma segunda opção. Com o fim do emprego ortodoxo, os modelos de patrão e empregado são cambiáveis e as oportunidades nascem para aqueles capazes de mudar sua visão de mundo.

8 — O MUNDO ENCOLHEU E O CIDADÃO CRESCEU. Nenhuma crise é mais apenas local. A globalização quebrou fronteiras e isso abriu portas para o compartilhamento de soluções e também problemas. O que acontece nos outros países influencia diretamente nossa vida. Nossas ações pessoais influenciam a vida de outras pessoas de maneira mais ativa. O pensamento local morreu, hoje pensamos em termos globais. Do lixo doméstico aos projetos de co-working, tudo está conectado, agindo diretamente sobre outros grupos. Esse cenário nos oferece uma sensação de pertencimento ao mundo e não existe mais isenção de ações. Tudo o que fazemos é o fim de uma cadeia que não depende de nós e que irá influir sobre outra pessoa a qual não conhecemos, mas pela qual somos de certo modo responsáveis.

9 — DESCONECTE-SE. Informação é poder, mas só se você souber selecionar o que é de fato relevante. Vivemos a era da informação e começamos a caminhar na direção da era da seleção. A internet é poderosa, mas não soberana, ela não substitui o poder humano de decisão. A super-exposição ao mundo da informação sem limites está nos deixando cansados, confusos, selvagens. Seleção e privacidade são os verdadeiros poderes da rede. Não é mais preciso estar em todos os lugares, nem experimentar todas as formas de comunicação. A euforia da rede começa a decantar em busca de qualidade de conteúdo.

10 — RECONCILIE-SE COM O NATURAL. Alimentação orgânica, busca por hábitos que mantenham sua saúde em dia, escolha criteriosa de produtos realmente benéficos à manutenção da vida humana. Deslumbrados com o mundo moderno nos esquecemos por muito tempo da unidade fundamental do ser, o corpo. Ele é o ponto de partida da nossa experiência no mundo, sem ele toda a modernidade e velocidade não fazem sentido. Começamos a olhar para dentro de nós, física e espiritualmente, e o que vemos não é muito animador. Estamos doentes, depressivos, ansiosos, acima do peso ou obcecados por saúde. Deixando de lado toda a obsessão da geração fitness, ou todo sedentarismo, o que encontramos é um caminho harmonioso entre saúde e bem estar com o corpo e com o mundo. Não é mais questão de beleza ou padrão estético, é uma questão de reunificação com o que temos de mais elementar e precioso, nossa natureza, feita num equilíbrio delicado entre o que comemos, vivemos, sentimos e experimentamos de maneira transcendental. O contato com o natural, seja ele representado por escolhas alimentares saudáveis ou contato direto com a natureza fora do mar de concreto, se tornaram prioridade em nossa vida e não mais um luxo.


Vivemos tempos de mudança. O repuxo que sentimos é o pé da modernidade pisando no freio, brecando uma máquina há muito tempo acostumada a querer mais e mais. Eis o tempo de parar, refletir e reconfigurar sistemas e mentes. Só assim poderemos usufruir de tudo o que o futuro nos separa para logo mais.

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