A Verdadeira História do Jardim Elétrico - cap.02B

Foi assim que aconteceu

Molecada na festinha retratada no videoclipe Dirty Boots, do Sonic Youth

1.994

Tetê (dOs Cleggs, hoje João) e Carlos Primatti, esparramados no quarto de alguém, assistiram ao videoclipe Dirty Boots, dos ícones do guitar rock (e porque não pais do grunge) Sonic Youth.

Bateu a ideia. Vamos fazer uma festa assim em Jundiaí.

Vamos fazer uma festa assim na casa de alguém em Jundiaí.

Vamos fazer uma festa assim por semana, durante o ano todo, em diversas casas de alguém… movimentando as bandas da cidade, juntando a galera, tocando um som, pegando umas meninas.

Na cabeça do Tetê o lugar ideal para a primeira festa era a casa do Mobila, na rua dos Bandeirantes, onde o DVG ensaiava.

Trutas inseparáveis, chamaram o Ricardo Alexandre, que já havia deixado Os Cleggs e trabalhava escrevendo sobre novas bandas no Zap, do Estadão. Passava mais tempo em São Paulo do que aqui e já tinha conhecido muita gente no circuito de lá.

Das conversas entre eles, ideias borbulhavam e logo se deram conta de que não ia rolar fazer isso na casa de “alguém”. A coisa foi se desenvolvendo naturalmente. Você sabe… no mundo da lua, tuuudo pode acontecer…

Festa tem de ter “gancho”. Seria o lançamento da primeira edição do fanzine “Os Maiores Perigos do Universo”, uma infrutífera publicação amadora feita por profissionais.

O Tetê espalhou a idéia, que chegou ao Will (Geraldo, DVG), que tinha um primo que trabalhava na Hot Point, do empresário Carlinhos Razé, que começava a prosperar com sua rede de lojas e era um ávido patrocinador de eventos culturais da cidade.

Carlinhos recebeu os moleques, que contaram sua ideia. Para apoiar o evento, ele queria mais. Pediu um projeto, acionou seus contatos pessoais e conseguiu a sede do historicamente elitizado (mas não por isso pouco importante para a cultura local) Clube Jundiaiense. Deu certo.

As bandas que importavam na cidade foram convidadas. Curse Diem, DVG, Charlie Road e Os Cleggs, em sua primeira apresentação sem o Ricardo, com o Tetê de band leader, Alfredo na Guitarra, Michel nos Vocais e baratas na jukebox. Para virar um festival e ter mais peso, o Jardim Elétrico precisava de uns convidados de renome.

O público do Jardim Elétrico ouviu pela primeira vez o novo som dos Cleggs, com letras em inglês e as novas composições do Tetê. Viu tambem um dos últimos shows do Curse Diem.

Neste ponto, segundo o Ricardo, festivais como o Junta Tribo e o Abril pro Rock tomaram o lugar da festinha do Sonic Youth como referência. O plano infalível do Tetê de fortalecer as bandas da cidade colocando as pra tocar nas baladinhas em casas (como as lendárias festas do povo de Americana, que conheceríamos meses depois) deu lugar aos do Ricardo Alexandre, de promove-las através de shows com nomes reconhecidos nacionalmente.

Os Raimundos, sensação do momento com sua inédita junção de hardcore com música nordestina, eram uma opção natural, mas inviável. A banda já estava na lista de desejos de todos os promoters de rock alternativo do país.

Little Quail and The Mad Birds, também de Brasília, eram os “próximos Raimundos” nos planos da gravadora Banguela. Por isso foram os convidados para fazer parte do festival, junto com o Sonic Youth brasileiro no quesito divindade underground, Pin Ups.

O convite da festa era um “sample” dos quadrinhos da Tank Girl, publicado na revista Animal, outro ícone da cultura alternativa dos anos80, mas que reverberou na década seguinte.

Tank Girl, a menina que morava num tanque de guerra, dos britânicos Jamie Hewlett e Alan Martin

O nome escolhido para o festival foi o mais óbvio possível considerando que os organizadores eram fãs de carteirinha dos Mutantes.

No jardim eu me ligo em você. Planto cores, como frutas, levo choques.

Dia 07 de maio de 1.994 aconteceu.

Raimundos decidiram que queriam tocar de última hora, mas ninguém foi buscá-los em São Paulo. O Little Quail trouxe “amigos pra tocar” e como atração surpresa, os conterrâneos do El Kabong se apresentaram, mostrando a Jundiaí o happybeat… movimento de bandas engraçadinhas de rock de Brasília. Por pouco, o Jardim Elétrico teria mais bandas do Distrito Federal do que de Jundiaí no line up.

A molecada apareceu. A festa rolou.

Afinal, juntando Os Mutantes, Sonic Youth, Tank Girl e um bando de jundiaienses… nada poderia dar errado.

Na matéria da MTV , Cris Couto contou como foi “o primeiro Jardim Elétrico”. Vinte e dois anos depois, ainda esperamos pelo segundo!