AJ: Antes do Jardim Elétrico

A Seattle Brasileira Segundo Jota Wagner: Cap 01

Pi, sócio de Nelson Juliatto na lendária Helloween Discos, ponto de encontro dos alternativos em Jundiaí nos anos 80.

Jundiaí, final dos anos 80.

Moleque, comprei discos dos Ramones.

Visitava todo sábado o buxixo da Helloween Discos, na galeria da Sala Gloria Rocha, com seus lançamentos na parede, suas prateleiras cheias de discos bacanérrimos de todos os estilos (Pi, posso ouvir esse?) e os importados a preço de ouro.

Enquanto não tinha grana para os importados, manda gravar fitas dos lançamentos mais quentes e dos piratas mais raros.

Comprei minhas primeiras camisetas na Guisa, ali do lado.

Onde hoje é o Acessa SP ficava a loja da Hellowwen. As “tribos” se juntavam neste espaço aos sábados.

Depois, uma guitarra.

Não bebia nem saia à noite. Era tímido demais e me justificava dizendo que achava a cidade um saco.

A molecada da minha geração aguardava ansiosa a chegada dos finais de semana quando a discoteca do Grêmio CP dominava. Todo mundo estava lá. Até os outsiders, que se juntavam no bar Batata Frita, ali do lado, para tomar sofisticados coqueteis como pinga com groselha, pinga com menta, pinga com guaraná e outros dissolvedores de fígado.

O clube concorrente, o Esportiva, abria seu ginásio para shows que chacoalhavam a cidade. Geralmente raspas da geração de rock nacional dos anos 80. Com exceção do Legião Urbana, acho que todo mundo tocou aqui.

Grinders, Olho Seco, 365 e Ghetto tocaram juntos no Esportiva. O line-up mostrava que havia promoters ligados em trazer bandas mais alternativas para a cidade.

A turma dos malucos se enfiava na Serra do Japi, na época aberta à população, para estourar um baseado em alguma cachoeira. Isso quando não tinha excursão para São Tomé das Letras.

No meio disso tudo crescia uma rapaziada arrogante e antenada. Cansada da caipirice. Cansada de Raul Seixas.

O Will Geraldo (V.A.I.N. , Death By Visitation Of God e outras bandas de nome comprido) me explicou, no ponto de ônibus da rua Messina, que uma guitarra precisava de um pedal de distorção (o unânime Heavy Metal, da Oliver) para ter um som decente. Me ensinou tambem como se fazia o “clichê”, redução de acorde básico do rock’n’roll que ainda hoje move o mundo.

em época de reserva de mercado, sobravam os pedais nacionais. A Oliver imperava. Boss era “pros boy”

Interessado em música, através dele conheci outros personagens da história, todos imersos em projetos de death, thrash, black, speed e outros desgraceiros sub gêneros “do metal”. Estas bandas que tinham logotipos antes da primeira música, criados no caderno da escola com caneta Bic. Os nomes eram sempre em inglês e obrigatoriamente faziam referência a um necrotério, um cemitério ou a alguma parte do corpo humano (morto).

Nunca gostei do som. Minha escola era o punk. Mas tambem não era o punk podre paulistano e nem o pre hardcore californiano. Era o punk 77 inglês mesmo. Mas escutávamos sons juntos, ouvia as demos… Afinal, eram meus amigos.

Toda a minha inspiração para escrever as músicas do Burt Reynolds veio daqui

Do que pude perceber naquela época, Jundiaí era assim. Apesar de haver consumidores para todos os lados do rock alternativo (o acervo da Helloween provava isso), ou a banda era punk de garagem na onda de Olho Seco, Grinders, Cólera, RDP e Inocentes, ou era do metal. Mais rápido, mais lento, mais podre, mais virtuoso, mais farofa, mas sempre o “metal”.

O Secretion, banda dos trutas Will Geraldo, Alemão , Mello e Alfredo. Todos, com exceção do Mello, formaram bandas da Seattle Brasileira. Esta gravação foi encontrada no Youtube.

Em algum dia deste tempo (e fora do meu raio de visão pois eu não conhecia nenhum destes caras), o Vostok fundou a banda Curse Diem (um Wedding Present mal tocado) na Vila Progresso e o Ricardo Alexandre montou Os Cleggs (um Stone Roses mal tocado), na Ponte São João, do outro lado da cidade. Sem que eu soubesse as coisas começavam a mudar.

O Curse Diem se apresentando na frente do bar do Mindú. O vídeo faz parte do canal de youtube Histórias do Underground Jundaiense, mantido pelo Gustavo Almeida (aqui, na bateria do Curse)
Nota de rodapé: Havia certamente, nas garagens da cidade, bandas de rock pop nacional mas estavam totalmente fora do meu radar e daqueles que, como verão adiante, fecundaram a cena da cidade. Como não poderia deixar de ser, bandas intérpretes (ou covers) faziam a trilha sonora dos botecos de então. Alias, fotos, vídeos e contatos dos promoters de shows do Esportiva na época são muito bem vindos!