Bafo na Cena: O fim da Seattle - cap. 12

Burt Reynolds no Hitchcock, nossa segunda casa (e a de tantas outras bandas) em Santa Barbara D´Oeste

Bastou pouco: um fósforo aceso e um barril de pólvora embrulhado em ego, pra explodir a Seattle brasileira.


Minha facilidade em socializar, a vontade tocar do Gustavo e o trabalho diário que fazíamos neste sentido começou a dar resultado.

Tocávamos cada vez mais fora de Jundiaí. Fazíamos cada vez mais amigos.

Trocávamos sons e experiências. Dividíamos camarins, palcos, plateias e quartos. Pegávamos a estrada no Ford Escort do Gustavo.

Eu amava tudo aquilo. Chegar num lugar diferente, conhecer pessoas diferentes, montar e passar o som… dormir no sofá.

Era a minha redenção. A vida era o máximo, afinal.

Cada vez mais alto! A idéia agora era passar finais de semana em outros estados.

…Today Jundiaí, tomorrow world!

…First we take a Itatiba... Then we take Berlin.

Começamos a nos preocupar com a qualidade som. O que chegava na plateia não era bom. A performance era boa mas a música não. Alem de errarmos muito, o competência da banda era para músicas de três acordes.

Mas não éramos uma banda de três acordes. Queríamos compor coisas diferentes. Outros caminhos, outras batidas.

Mas no ensaio, não rolava. Não estávamos conseguindo fazer o prato principal. E ainda faltava a entrada, a sobremesa, a conta e o licorzinho no final.

Chamamos o Will Geraldo para fazer a primeira guitarra. Assim eu ficaria mais livre para rebolar sem comprometer a execução da música. Resolveu a situação de palco, mas ainda estávamos nos limitando. E as bandas de fora iam ficando cada vez melhores. Algumas delas voando no palco.

Precisávamos ensaiar mais, estudar mais, gastar mais dinheiro com equipamento. Além disso queríamos tocar mais.

A família recém formada pesou para o lado do Vostok. Apesar de sermos apenas moleques, entendemos que não dava mais para ele. Não era possível.

A pressão em cima do cara, recém casado e recém pai, era para que assumisse sua nova condição de homem feito responsável e mantenedor da família. Não combinava com a gente.

Eu e o Gustavo éramos “herdeiros”. Trabalhávamos nas microempresas dos pais. Com total liberdade para dizer “amanhã vou chegar meio dia”. E estávamos apenas esperando a hora de dizer “amanhã não venho nem nunca mais. Assinamos com a gravadora!!”.

Eu era um solteirinho deslumbrado com a liberdade de ir para onde quiser, com quem quiser e na hora que quiser. Não se esqueçam de que eu havia saído de um longo e prematuro namoro. Ia tocar e não voltava com a banda. Ficava mais um dia, dois… numa relax, numa tranquila, numa boa.

Mas, além disso, a banda era o projeto mais importante da minha vida. Hoje eu sei que já era, naquela época, um músico profissional.

Não pelo dinheiro que (não) entrava, mas pela seriedade e disciplina com que trabalhamos pelo sucesso do Burt Reynolds.

Existe uma lei soberana em qualquer banda de garagem. O decreto Yoko Ono, de 1.966: as decisões são tomadas internamente e cada um se vira depois com sua namorada, esposa, família, pais e patrões.

Precisávamos, repito, de muito mais: mais ensaios, mais estudo, mais foco.

A iniciativa foi minha. Mas não queria tomar a decisão sozinho. Após semanas de longas conversas com o Gustavo, definimos que não seria possível para o Vostok administrar as duas vidas. Alem disso, era óbvio que não deixaríamos que isso limitasse o Burt Reynolds a uma banda da Vila Progresso.

De comum acordo, fomos até a casa dele, explicamos os porquês da forma mais fofa possível, choramos todos e fomos embora, sendo chamados de maus amigos.

Para eles, a amizade deveria estar acima de tudo. Para mim, não. Amizade era uma coisa, banda era outra. Música era trabalho, carreira (no bom sentido), estudo, atualização musical e técnica.

Entre o amigo e a banda. Primeiro a banda. Foi assim com The Who, Stones, Clash, Ramones… porque não seria para o Burt?

Porem, o que era para ser a resolução de um problema, foi o começo de uma grande confusão. A história da saída do Vostok do Burt foi incendiária.

Assim como um post polêmico do então não gerado facebook, todo mundo, mas todo mundo mesmo, deu sua opinião a respeito.

Rodas de fofoca se formaram em volta de nós. O que chegava aos nossos ouvidos, chegava totalmente bagunçado.

Dois ingredientes foram importantes para este coquetel molotov.

O primeiro e muito óbvio: o ser humano adora uma fofoquinha. Um bafo na cena. Uma treta. Somos animais que, quando nos deparamos com um acidente na estrada, ficamos torcendo em segredo para encontrar um acidentado no chão.

O segundo e mais importante: o Vostok era um fundador da cena. O cara que, segundo o Gustavo, mostrou para a cidade que não havia só metal no mundo. Enquanto solteiro, estava em todos os lugares. Fazia as piadas mais engraçadas, usava o cabelo mais doido. Ensinou os vizinhos a gostar das bandas mais obscuras.

Fundou o Curse Diem. Acabou com o Curse Diem. Fundou o Burt Reynolds. Me mandou entrar para a banda.

O Vostok era um ícone do underground jundiaiense.

Para mim, porem, a decisão de permitir que ele arcasse com a responsabilidade das próprias decisões tomadas era incrivelmente óbvia. Eu achava que estava fazendo um bem.

Não sentia a menor culpa ou aborrecimento. Estava tudo bem.

Até começar a chegar em meus ouvidos, por vias tortas, todas as “notícias” do estrago.

Resumindo bastante, todos ficaram bastante sensibilizados com ele, que também não se conformou em ter sido mandado embora da banda que fundou. Se não me engano, ele foi inclusive imediatamente convidado para integrar o Charlie Road, logo após sua saída.

Todos olharam para o aspecto humano da situação. Inclusive meu parceiro de banda, o Gustavo.

Hoje entendo que a situação foi muito mais pesada para o Gustavo do que para mim. Eu havia acabado de conhecer aquela turma toda. Alem disso, eu me afasto de amigos com a mesma facilidade e rapidez com que faço outros. O Vostok era um amigo e um ídolo para o Gustavo. Para mim, todos eram apenas pessoas legais que tocavam.

Às vezes me pergunto se faltou respeito à cena ou sensibilidade naquela atitude. Meu egoísmo me diz que não.

Mas a verdade é que me senti arrasado com toda esta comoção e os fuxicos. Não entendi esta coisa do “lado humano”. Ora, porque não é possível continuarmos todos grandes amigos enquanto um cuida da família e outro da banda? Cada vida vai para um lado. Não se pode ter tudo.

Fiquei puto. Percebi que o problema era generalizado. Ninguem queria sair da sua zona de conforto. Para todos, estava perfeito daquele jeito. Comecei a entender que o pessoal de Jundiaí jamais faria o que as bandas de outras cidades faziam. O Wry, de Sorocaba, estava indo morar em Londres!!

Percebi, naquele momento, que não havia profissionais.

Isolado por causa deste episódio, me via como um cara de “filme queimado” injustamente. Me vinguei parando de organizar o movimento como um todo.

Desisti do catálogo.

Desci do palanque e me sentei na plateia. Me diminuí a mero Burt Reynolds e tudo o que fiz dali em diante era em prol da minha banda.

Meses depois uma meia dúzia de bandas da cidade havia simplesmente desaparecido, o Vostok havia voltado pra banda mas tudo ficou diferente.

Pelo menos, este é o mundo como eu criei e dele que falo aqui.


Um dos bons momentos do show do Burt eram as macaquices que eu fazia no palco. Fazíamos um show quente. Quebrávamos instrumentos, botamos fogo no palco do Hitchock, corria sobre as mesas dos bares me contorcia e rebolava, sem medo de ser feliz.

Mas isso, obviamente, não ajudava no som.

O Will já era um cara sério, profissional e técnico desde aquela época. Tinha produzido nossas demos, estava sempre com a gente.

Quando o DVG começou a esfriar ele assumiu a guitarra principal do Burt Reynolds. Eu tocaria quando desse.

Após a saída do Vostok, ele foi para o baixo e começamos tudo de novo a três. O som esfriou de novo.

Fizemos alguns shows com este formato. Logística bem mais leve, porem com muito menos peso.

Lembro de pouca coisa desta fase. Mas passado o frenesi que foi a demissão do Vostok, cerca de menos de um ano depois, ele voltou para o baixo.

O Gustavo, que não superou a carga emocional do pé na bunda, trabalhou forte e, depois das famosas “reuniões de banda”, o mito estava de volta. As condições foram claras: estava proibida a influência de qualquer pessoa de fora da banda. Nas viagens, iriam somente os quatro.

A formação clássica em foto de 2.014

Para a felicidade geral da nação e para a melhoria do som que tava fraquinho no palco, o Vostok voltou em um show antológico no Cartoon Bar.

Aaah, o Cartoon….