Porque cantávamos em inglês? — cap.07

professores americanos. vinte e quatro horas por dia.

Se tinha uma coisa que as bandas alternativas daquela época, de Jundiaí e do Brasil, tinham em comum, era o fato de compor em inglês.

Na real: porque queríamos ser ingleses.

Odiava ser brasileiro. Gostávamos do som das palavras, da estética e da temática.

omitido o sotaque piracicabano, somente os mais atentos reconheceriam que o Killing Chainsaw é brasileiro. Mission acomplished!

Havia um movimento de pêndulo. De contrapor a geração anterior, de rock dos anos 80. E não queríamos ser engraçadinhos. Porque banda engraçadinha podia cantar em português na boa.

Eu subia no palco e rebolava como Iggy Pop.

Não era como o Ney Matogrosso. Era como o Iggy Pop.

Os estudiosos da época podem explicar porque nossa geração renegava o Brasil. Nós apenas podemos afirmar: renegávamos o Brasil.

Na época, as bandas de outras cidades começavam a gravar discos em inglês, como os Pin Ups e o Killing Chainsaw.

Para você, que vive em 2.016, vou tentar explicar:

Para uma banda alternativa nos 90, cantar em português era o equivalente a ir num show de rock usando uma pochete e camisa por dentro da bermuda.

Cantar em português era o equivalente a cantar “Ui… Ui Ui… Aiaiaiaiai”…

Cantar em português era cafona como se hoje, num festival de rock, alguem cantasse… em inglês. Ficou fácil agora?
Sob a máscara do humor, dava para fazer boas letras em inglês sem trauma. Como é o caso do e a épica “Puteiro Em João Pessoa”, uma das grandes letras da década.

Tínhamos desculpas na ponta da língua: “O Kraftwerk é alemão e canta em inglês!” ou “queremos falar para o mundo, não só para o Brasil!”.

Na verdade escondíamos a pobreza das letras atrás de uma língua que as pessoas não entendiam (ainda mais com a nossa pronúncia). Nós não tínhamos o que dizer.

Em todo o cenário nacional aliás, haviam raríssimas exceções. Poucas boas letras em inglês, como por exemplo as do Harry, banda de synthpop de Santos… as do DVG, escritas pelo talentoso Alemão(apesar de monotemáticas) e as da tambem jundiaiense Towards the Cathedral, inspiradas em James Joyce.

Ainda assim, as letras eram baseadas nos temas de bandas que gostávamos. Ou falavam de quadrinhos e filmes. Não tratavam de experiências pessoais. Éramos uma geração que não tinha muito do que reclamar. Não apanhávamos da polícia, não passávamos fome. Não fazíamos caridade. Não brigávamos na rua.

Juntando todos os que participaram do lado criativo da época, éramos uma turma de bons meninos, vivendo longe da dor necessária para se criar grandes letras e sem a experiência e o talento para maquiar esta falta de vivências.

foto da banda Burt Reynolds tirada debaixo do viaduto da Vila Graff. O cartaz em inglês foi sobreposto ao original, onde se lia “Vote Chico Poço”.