
Ela Não Te Ama
Números Mágicos
– Não liga, porra.
O Nissim falou. Eu acatei, a princípio, mas não vou falsear e dizer que a mente não valsou com o argumento, num filhadaputíssimo pas-de-deux, fazendo o "não liga" do Nissim facilmente virar um "não liga agora, enquanto estamos bebendo no bar e eu estou aqui, te impedindo, liga depois". Contando com isso, repousei o celular na mesa suja do Osvaldo's Bar e continuei com a minha eloquente argumentação.
– Mas eu gosto dela. Eu gosto muito da Bia, porra. O signo dela até combina com o meu, velho. Não é possível que isso não vai virar nada!
Eu tinha uma coisa com signos, na época.
– Você conheceu ela tem UM MÊS, catso! — o Nissim tinha dessas, de falar italiano quando tava com raiva de mim.
– Sabe quando até os números do aniversário batem? Eu sou de sete de janeiro e ela de primeiro de julho!
Nissim virou os olhos pra cima, fazendo contas.
– Porra, e vai falar que esses números são magia? Que é sinal do universo pra vocês ficarem junto? Tá maluco?
– Uai, mas a química bateu, irmão!
– Não me chama de irmão, brother.
Caímos na risada. O Nissim aproveitou o interlúdio pra chamar o Pimenta, garçom fiel.
– Ô Pimenta, traz mais um litrão e uma cachaça de laranja pro dodói aqui!
– Vá pá puta que o pariu, Nissim!
– Eu vou, mas tu vai junto.
Rimos de novo. Quando o Pimenta cessou de servir o litrão e a minha cachaça curtida em laranja, resolvi retomar a argumentação, como advogado teimoso em causa perdida.
– Seguinte, eu conheci ela tem só três ou quatro semanas, beleza, mas ela é o meu número certinho, moleque. Ela gosta de tudo que eu gosto, vai para os mesmos lugares que eu e, porra, ela até queria conhecer o Osvaldo’s!
– Não traz ela no Osvaldo's.
– Por quê?
— O bar do Osvaldo é solo sagrado, só entra aqui quem vai ficar. Olha bem, o melhor churrasquinho da região combinado com o litro de cerveja mais barato, sem contar com essa porra dessa cachaça de laranja que é gostosa pa caraio. Se você trouxer alguém aqui, a pessoa vai se apaixonar. E vai trazer mais gente, aí começam a estragar o nosso bar que nem fizeram com o Bar do Aranha! E se vocês não derem certo e ela continuar por aqui?
Saudoso Bar do Aranha.
– Tá, mas você entendeu.
Nisso, o Nissim vira sua cerveja, já servindo-se de outro copo, me obrigando a fazer o mesmo.
– Porra nenhuma. A mina não te quer, pô. Tem que respeitar ela. Beleza que ela foi na tua casa, te deu um trato e o escambau, mas isso não significa que ela tá querendo uma parada mais séria.
– Como assim? Ela terminou — opa, terminou é um termo pesado — ela parou de ficar comigo por conta do dia que eu não atendi ela!
Nissim começa a balançar a cabeça. Esse merda sabe ler os outros.
– Olha, eu vou falar uma coisa, mas não fica com raiva de mim. Ela usou isso de desculpa para terminar. Não tá na hora dela namorar, parceiro. Cada um sabe seu momento. Não deu pra sacar? Ela quer ter outras experiências, transar com outros caras…
Percebendo minha cara de raiva, Nissim se propôs a consertar:
–…ou minas!
Não adiantou, claro. Terminamos as cervejas e brindamos a todas as coisas da vida. Bebi minha dose estúpida de cachaça de laranja, que de dose não tinha nada: era um copo americano transbordante.
– Bom, chegou a minha hora, rapaz.
– Vou ficar pra tomar a última.
– Ê rapaz — foi tudo o que o Nissim disse. Nesse ponto, ele já estava muito bêbado para me dar qualquer sermão e eu muito bêbado para ouvir.
Ni qui o Nissim foi embora, começou a me brotar um desgraçado comichão na parte centro-sul. Era Bia e seu cabelo lilás, aproveitando-se da minha ebriedade para tomar conta de mim.
Depois de pedir mais um litrão para o Pimenta, resolvi que era hora. O momento mágico tomou conta de mim. A maioria dos poucos clientes dessa terça à noite do Osvaldo's já havia partido, até mesmo o Pimenta estava na parte de dentro do restaurante. Era a hora.
Saquei o celular. Número dela estava apagado, como o Nissim me obrigara a fazer algumas horas antes, mas eu confiava na memória.
9. 9. 8. 6. 5. 6. 4. 7. 2.
Telefone tocando.
– Alô?
– Oi!
– Quem é?
– Yuri! Tá acordada, Bia?
– Não é Bia, não.
– Quê?
– Nesse número não tem Bia não, bem.
Olhei para o celular.
9. 9. 8. 6. 5. 6. 4. 7. 2.
Putz, desliguei. Engano.
Se foi praga do Nissim eu não sei, mas os números deram um jeito de se embaralhar na minha cabeça de modo que eu nunca mais lembrei a sequência. Talvez foram mesmo os números que, magicamente, esquivaram-se da sua função, que era me deixar falar com a Bia, implorando para ela voltar pra mim.
Naquela noite, lembro bem, passei alguns minutos tentando reavivar os números na minha cachola, mas não deu. Se a operadora ou os próprios números me indicaram que não era para ligar, eles deveriam saber mais que eu. O certo é que até hoje me vejo abrindo o chat no Facebook dela e ensaiando dizer:
– Topa dar um pulinho ali no Osvaldo's?

