Mônica

Na tarde de algum sábado que se perdeu no tempo, eu e Mônica estávamos no meu quarto prestes a ouvir os sons mais gloriosos das nossas vidas. No começo do ano eu havia mudado de cidade, de casa e de escola, tinha apenas oito anos de idade. Mônica foi a primeira amizade que fiz na turma nova e foi uma grande amiga durante alguns anos. Compartilhávamos, além de uma série de grandes diferenças, milhares de coisas de coisas em comum. A maior delas era o Grêmio.

Na minha família ninguém se importava muito com futebol, minha mãe sempre se disse colorada, mais para cornetar o time das filhas do que nutrir uma paixão. Já na família de Mônica, as coisas eram diferentes. Na casa de seus avós, que ficava logo ao lado da sua, um pôster com a imagem do papa da época estampava os dizeres “se Deus é gaúcho, o Papa é gremista”. Se a memória não falha, também me lembro de ver copos com o escudo do time naquela casa. Coisas pequenas e simples, mas era a maneira possível de viver o sentimento de “gremismo”.

Assim como outras crianças da época, nem sempre era fácil poder brincar fora da escola por conta de nossos pais. A mãe de Mônica trabalhava durante a semana inteira, então a maioria dos finais de semana era reservada para passar o tempo com as filhas. De vez em quando conseguíamos “brechas” nesse hábito e ela vinha até a minha casa, ou eu ia à dela. Foi em uma ocasião dessas que, ao vir brincar no meu apartamento, Mônica trouxe consigo seu estojo de CD’s. Naquela época era algo bem comum, ainda se usava bastante CD. Coloquei o rádio no meu quarto, abrimos o estojo e começamos a explorar as opções sonoras disponíveis. No meio da aleatoriedade de discos gravados no computador e gêneros musicais, descobri que Mônica tinha algo que eu jamais sonhara, mas que já queria muito: um CD da Geral.

Agora, um momento explicativo: aquele CD provavelmente fazia parte dos que foram gravados no computador e era, simplesmente, cheio de músicas da Geral do Grêmio. Para nós, duas garotas que moravam no interior, nunca tinham ido ao estádio e eram super fanáticas, aquilo era monumental, nos deixava um pouquinho mais perto daquilo que tanto amávamos. Colocamos o CD para tocar e depois de alguns clichês famosos que conhecíamos bem, estava o Hino do Grêmio. Não me lembro de ligações com o futebol anteriores a 2006, embora eu saiba que já gostava de futebol antes da Copa começar. Entretanto, tentando lembrar agora, acho que foi exatamente naquela ocasião, com a Mônica e o CD da Geral, que ouvi o hino completo do clube pela primeira vez. O refrão mais conhecido eu já sabia de cor, só desconhecia o resto.

Os detalhes do momento se perderam ao longo de uma década de vida que se passou desde o acontecimento, mas com certeza duas coisas coisas ficaram: o estranhamento por “50 anos de glória” e a inquestionável posição como torcedor. Não sabia, lá atrás, em que condições o hino foi escrito, seu autor, nem toda a história do até a pé nós iremos, mesmo assim, os sentimentos envolvidos chegaram até mim e até a Mônica de alguma forma. Pensando agora sobre a vida que a gente tinha na serra e no quanto aquele universo em que a gente se meteu parcialmente ainda era inacessível, “até a pé nós iremos”, assim como para quem caminhava até o estádio, representava que estaríamos juntos, não importa como.

Entretanto, não sabia que o hino envolvia a questão do cinquentenário e achava estranho só 50 anos. Até porque se fossemos falar do TAMANHO DA GLÓRIA, ainda não existiria (e nem existe) MEDIDA para mensurá-la, não importa quantos anos, sabe. Não cabe. E o negócio de “bons torcedores, sem hesitarmos sequer” também entrava no universo de sacríficios, pro que der e vier e qualquer coisa que apareça pra estar com o Grêmio. Não podíamos hesitar, essa era a lei. Para muitos ainda é, mas onde não se hesita não há corneta.

Muita coisa aconteceu depois daquilo, muitas lágrimas foram derramadas e muita dor foi vivida. É bom lembrar este momento tão pequeno, tão perdido, tão trancado nas memórias daquele quarto, daquela casa, do passado abandonado, porque ali éramos duas crianças despretensiosas e cheias de esperança. O Grêmio era tão distante e idealizado, um verdadeiro sonho, assim como sua vitória, assim como conquistar a América, assim como vencer e ser campeão. Nosso amor era puro, não se contaminava por setor de estádio, preço de ingresso, desentendimento de organizada, não se importava com camisa falsa, desbotada, desatualizada. Sobrevivia às derrotas, às críticas e aos que nos incomodavam. Era maior que tudo.