A sombra do HIV
Dados mostram que a epidemia tem diminuído, mas índices entre jovens e grupos de risco tem aumentado
*Pseudônimo utilizado para manter a identidade do entrevistado
O laudo do exame já havia sido recebido pela manhã, mas ficou fechado durante horas em cima da estante, pois não tinha se preparado para as consequências. Estava ansioso e com medo, com sensação de frio na barriga que todos sentem ao abrir um resultado — e quando o fez de fato, descobriu que se aliaria aos dois milhões de pessoas pelo mundo que contraem a doença por ano. Vitor Oliveira* era o mais novo HIV positivo.

No início sofreu muito, achou que ia morrer, porque em sua memória estava aquela imagem do início dos anos 1980 quando se morria sem perspectiva, dos heróis como Freddy Mercury e Cazuza. Mas seu médico lhe explicou a diferença entre HIV e AIDS — siglas que se complementam, mas não possuem o mesmo significado. HIV é a sigla em inglês do vírus da imunodeficiência humana, geralmente transmitido pelo sexo sem proteção, por transfusão de sangue, uso de seringas infectadas e por contaminação cruzada no caso das grávidas que passam de mãe para filho.
Já a AIDS é a doença, sigla originada do inglês, que significa Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, que ataca o sistema imunológico devido à destruição dos glóbulos brancos — ou linfócitos TCD4+. A Aids não leva à morte, mas danifica as defesas do corpo humano, permitindo que outras doenças possam infectar o organismo. Como a tuberculose, que segundo o Boletim Informativo da Joint United Nations Program on HIV/AIDS, Unaids, mata uma a cada cinco pessoas relacionadas à AIDS.
Os índices globais mostram que há uma diminuição na contaminação desde que o vírus foi documentado. Porém, existe um grupo de pessoas em que os níveis de transmissão por HIV aumentam progressivamente, ou seja, indo na contramão. Entre eles estão homens gays, homens que fazem sexo com homens (HSH), travestis, transexuais, usuários de drogas injetáveis, encarcerados e profissionais do sexo.
Com exceção aos usuários de drogas injetáveis, os grupos de risco estão muito interligados às práticas sexuais, ou seja, o sexo desprotegido é um dos principais meios de transmissão do vírus. Os passivos, ou seja, aqueles que recebem a penetração é o que está mais em situação de perigo, pois o ânus e o intestino, são revestidos apenas por uma camada de células, sendo facilmente rompida pelo vírus — a pele humana, por exemplo, é constituída de sete camadas. Segundo dados do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a chance é de 138 para 10 mil exposições, considerado altíssimo. O ativo, aquele que penetra, tem uma chance menor de contrair o vírus, a chance cai de 138 para 11, porém não é está totalmente seguro contra a infecção. Ainda assim temos o sexo oral, que tem uma porcentagem bem pequena em relação as outras duas práticas, mas que também transmite o vírus se o esperma for engolido ou se entrar em contato com feridas, cortes e aftas dentro da boca.

Sintomas
Após ser infectado, ocorre um processo chamado janela imunológica, que dura cerca de noventa dias. Durante esses três meses, não é possível detectar a presença do vírus HIV no organismo do indivíduo, porque ele ainda estará se multiplicando no sistema imunológico.
O teste será efetivo quando feito no final dos noventa dias, ou seja, quando essa janela imunológica terminar. Nesse meio tempo, o portador apresentará sinais parecidas com o de uma gripe comum, é a fase inicial onde acontece o ápice da infecção. Os primeiros lugares do corpo afetados são aqueles onde localizam-se os nódulos linfáticos: garganta, axila e virilha além de locais como intestino, onde se encontram 98% das nossas células de defesa. Nesses locais os vírus se escondem, e são chamados de reservatórios, porque é possível encontrar nessas regiões 10 vezes mais HIV que na corrente sanguínea. A ciência hoje tenta desvendar uma maneira de fazer esses vírus saírem desses reservatórios para que voltem a circular e consequentemente serem combatidos.
O vírus se adequa ao corpo e o corpo se adequa ao vírus, dependendo de cada organismo e considerando que esse indivíduo não toma o medicamento, a doença, ou seja, a AIDS, quando as células T4 estão abaixo de duzentos, aparecerá somente depois de alguns anos: três, cinco, oito, dez, às vezes quinze anos. Mas geralmente já é tarde demais para se combater a doença. No estágio da AIDS, alguns sintomas são bem evidentes: como a perda de peso, falta de apetite, febre desconhecida, diarreia e o aumento dos nódulos linfáticos.
O HIV em números

Dados retirados do site oficial do Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais, mostram que no período entre 2000 a 2014, os índices de casos de infectados pelo vírus HIV diminuíram gradualmente na capital paranaense. Em 2000 foram constatados 669 casos de pessoas infectadas pelo vírus HIV, e até o ano de 2006 não houve uma queda tão expressiva nos valores. Porém, os casos remanescentes envolvem apenas a população masculina da cidade. Em 2012, por exemplo, foram registrados 470 casos de AIDS em Curitiba, todos envolvendo apenas o sexo masculino.


Segundo o Boletim da Saúde, somente no ano passado no América Latina foram contabilizadas 1,7 milhão de pessoas convivendo com o vírus HIV. Dessas, 734 mil são brasileiros, ou seja, quase 44% dos casos estão espalhados pelo território nacional. Na região Sul do país, mais de 2 mil pessoas morrem, por ano, por decorrência de complicações do vírus, sendo mais de 500 apenas no estado do Paraná.

Mas esses são número gerais, onde não é possível estimar exatamente a quantidade de homossexuais, somente que os homens são mais infectados que as mulheres, a não precisão ocorre porque nem todo homossexual ou homem que faz sexo com homem revela essa informação. Mas um exemplo de que o índice é alto nesse público, é o gráfico cedido pelo doutor Bernardo Montesanti, que trabalha em um projeto de prevenção e suporte chamado “A hora é agora” exclusivamente voltado para esse público. São 77 testes positivos do grupo de risco somente em abril e desse, 53 são moradores da cidade de Curitiba.

Relato de jovem que trabalha em um projeto de ajuda aos soropositivos de Curitiba
Eu — Gilmar Montargil — entrei no projeto “A hora é agora” em Setembro de 2015. Minha função é praticamente um trabalho de formiga, lento, que vai dando resultado aos poucos — vou em baladas, saunas, cinemas e pontos de prostituição conversar com o público chave sobre o tema, convidando-os a se testarem no Centro de Orientação e Aconselhamento (COA) e tirando dúvidas em geral. Certa vez alguém me perguntou: mas essa história de janela imunológica é verdade mesmo?
Ando sempre com cartões do projeto na mão. Meu intuito é no mínimo fazer com que esse cartão seja guardado na carteira. Uma hora ou outra eu sei que essa pessoa vai precisar. Logo que se entra nas saunas, é possível sentir um cheiro intenso de sabonete, chegando a arder o nariz. Na parte do bar, alguns meninos jovens, angelicais e outros atléticos tentam chamar a atenção dos clientes que ficam ali bebendo. Aqueles que conseguem são levados para os quartos lá em cima ou até mesmo para um motel pela cidade. Muitos desses jovens fazem mais de uma sauna por noite. Foi em uma sauna que fizemos contato com um dos meninos que mandam no ponto de prostituição da Praça Osório, denominado Ricardinho. Com esse contato, temos passe livre para abordar e se aproximar dos garotos de programa que trabalham ali, sempre de roupas curtas como regata ou apertadas para mostrar os músculos para os carrões que ali passam na madrugada. Na Rua Cruz Machado existe um ponto de prostituição de travestis e transexuais bem como na esquina da Rua Riachuello com a Travessa Tobias de Macedo. A maioria é simpática e gostam de conversar, com exceção de algumas que são um pouco mais acuadas e agressivas por estarem sobre efeito de drogas, ou simplesmente por achar que estão sendo atrapalhadas. Já o trabalho que é feito nas baladas sempre é mais calmo, com população jovem, que sempre nos pergunta sobre o assunto. Somos também ouvintes e confidentes. Ouvi de um menino: sabia que sofri muito preconceito só por namorar um soropositivo? E partir deste momento, outros debates a respeito do HIV são feitos.
Formas de prevenção
A camisinha é a principal forma de se proteger, porém, pode ocorrer dela estourar ou furar. Outro problema apontado por quem usa, seria o atrito que ela provoca, ou seja, incomoda na hora do sexo, levando alguns homens a optar pelo não uso. É importante lembrar que a camisinha também protege de doenças como sífilis, gonorreia, entre outras DST’s.
Há outros métodos que pode ajudar esse grupo a se prevenir, como a profilaxia pós exposição (PEP), um remédio que deve ser ingerido de duas há 72 horas a primeira dose e continuar tomando por 28 dias e a profilaxia pré-exposição (Prep) — que não tem no Brasil — que se toma antes, indicado principalmente para profissionais do sexo.
Ainda assim, existem pessoas que têm práticas sexuais onde tem a necessidade de entrar em contato com o esperma — via anal ou oral –, que é indicado que montem um grupo de pessoas que se mantenha constantemente testados onde somente podem ter relações sexuais entre eles.

Usa-se o termo prevenção combinada como melhor opção para frear os índices desse grupo, pois ela consiste no uso estratégico, simultâneo, de diferentes classes, biomédica, comportamental, social, estrutural, geográfica que tem como objetivo responder as necessidades especificas de públicos específicos.
Fazer uso de terapia antirretroviral os medicamentos para tratar a infecção pelo HIV pode reduzir o risco de uma pessoa infectada pelo HIV em transmitir a infecção para outro em até 96%, e uso consistente do preservativo reduz o risco de contrair ou transmitir o HIV em torno de 80%. Com a camisinha e a terapia antirretroviral combinadas, o risco de contrair HIV por meio da exposição sexual, é reduzido em 99,2%.

A UNAIDS pretende até 2030 atingir as suas metas de 90% da população mundial testada, 90% dos que tem HIV identificados e 90% dos identificados em tratamento. Entretanto, pessoas como Vitor, mostram que essa meta não é impossível. O HIV é um problema de todos, porém, para quem tem não significa o fim da vida, apenas o recomeço.
