Aposte: o futuro é feminino

Por Itali Collini

Quando se trata do impulsionamento profissional de mulheres e de suas iniciativas, com frequência as pessoas ainda imaginam uma abordagem mais assistencialista e pouco compromissada com a racionalidade, acreditando que tentar fazer ‘o bem’ é suficiente. Não é. Como um investidor responsável faria, nós precisamos entender bem onde, como e por qual motivo é importante olhar para iniciativas femininas com estratégia e pragmatismo.

Se mirarmos, por exemplo, as startups, perceberemos que apenas 2% do total investido por fundos de Venture Capital foram para empresas lideradas por mulheres, de acordo com Pitchbook — embora cerca de 19% das startups sejam fundadas por mulheres, de acordo com o portal TechStars.

Além disso, uma série de estudos para entender quais as dificuldades enfrentadas por mulheres empreendedoras, seja em negócios tradicionais ou em startups, já foram publicados em revistas científicas renomadas, como a Harvard Business Review, e mostraram algumas pistas sobre o quebra cabeça da questão de gênero no empreendedorismo e nos investimentos. De acordo com as publicações, vieses inconscientes e estereótipos de gênero tem papel ativo na visibilidade e confiança (ou falta dela) que aceleradoras e investidores depositam nas empreendedoras.

A questão é complexa e uma ação apenas seria insuficiente para acelerar o surgimento, inclusão, crescimento e financiamento de mulheres empreendedoras. Mas todo desafio complexo só pode ser resolvido se for desmembrado em pontos de entendimento, por isso vamos entender o motivo, e onde e como estimular as iniciativas femininas.

O Motivo

De acordo com a ONU Mulheres, quando elas trabalham chegam a gastar até 90% de sua renda com a família, enquanto que entre os homens o gasto fica em torno de 30 a 40%. Concentrando-se em iniciativas para meninas e mulheres, empresas e organizações inovadoras podemos estimular o progresso econômico, expandir os mercados e melhorar os resultados de saúde e educação para todos. Trata-se, então, não somente de um investimento comum, mas de um investimento de impacto social. E onde essas empresas e organizações deveriam olhar?

O Onde

Investir em iniciativas de mulheres ou em seu desenvolvimento profissional pode ou não ter fins lucrativos, mas sempre será necessário uma análise criteriosa, pois até mesmo doações podem ser feitas de maneira eficiente. Dessa forma, é importante saber que o impacto positivo na questão de gênero pode ser notado em iniciativas que sejam:

  • Lideradas por mulheres
  • Direcionadas para mulheres
  • Com fins lucrativos
  • Sem fins lucrativos

Por exemplo, uma iniciativa como o Instituto Feira Preta, que organiza uma feira anual para afro empreendedores, é liderada por uma mulher, embora não seja exclusivamente para um público feminino, e é uma entidade sem fins lucrativos. Isso significa que essa iniciativa vai demandar um tipo de apoio geralmente sem reembolso, seja capital através de fundo social, seja patrocínio ou parcerias.

Uma iniciativa como a Conta Black, que oferece um cartão de crédito para afro empreendedores, é liderada por uma mulher, não é exclusivamente direcionada a mulheres pois homens também podem usar o serviço e é com fins lucrativos. Isso significa que essa iniciativa tem mais perfil para um tipo de apoio geralmente com reembolso ou retorno em forma de valorização do capital, seja através de empréstimos ou investimentos.

A Programaria, que promove oportunidades e ferramentas para aprendizagem da programação, é liderada por mulheres e direcionada para mulheres, além de ser sem fins lucrativos. Já a B2Mamy, aceleradora para mães empreendedoras, também é liderada por e direcionada para mulheres, no entanto é com fins lucrativos.

Perceba que não há problema em se posicionar com ou sem fins de lucros, mas a decisão acaba direcionando parcialmente o formato de busca por recursos.

O Como

Da mesma forma que há diversos formatos de iniciativas femininas, também há diversas maneiras de apoiá-las, como por exemplo:

  • Criar rede de contatos e fortalecer a troca entre mulheres líderes
  • Realizar treinamentos e capacitações para mulheres se tornarem líderes ou se desenvolverem profissionalmente
  • Expor iniciativas que impactem mulheres ou sejam lideradas por elas para investidores potenciais
  • Doar para iniciativas que impactem mulheres ou sejam lideradas por elas
  • Investir com em iniciativas que impactem mulheres ou sejam lideradas por elas

Há, ainda, poucas iniciativas investindo com lentes de gênero pensando em retornos financeiros. Investir com lentes de gênero significa avaliar as oportunidades com base em como esse investimento apoia a liderança das mulheres, o acesso delas ao capital, a igualdade no local de trabalho, o engajamento de acionistas e o trabalho de políticas relacionados.

Gestores de investimento estrangeiros têm se preocupado cada vez mais com essas questões e o Relatório da Veris Wealth Patners mostrou que as empresas apoiadas por fundos Venture Capital no Vale do Silício e administradas por mulheres tiveram uma receita anual 12% maior do que as administradas por homens.

Um exemplo de fundo de Venture Capital com recorte de gênero é o Golden Seeds, que exige das startups pelo menos uma mulher no C-level (posições de liderança), além critérios tradicionais como escalabilidade do modelo de negócio. Desde 2005 o Golden Seeds já investiu mais US$ 100 milhões em aproximadamente 150 startups no Estados Unidos com tickets entre US$ 250 mil e US$ 2 milhões.

Além disso, empresas da Fortune 500 com três ou mais diretoras superaram aquelas com zero mulheres diretoras em 84% no retorno sobre vendas (ROS), 60% no retorno sobre o capital investido (ROIC) e 46% no retorno sobre o patrimônio líquido (ROE). No entanto, em outubro de 2014, mulheres detinham apenas 19,2% dos assentos no conselho das empresas S&P 500, enquanto 3,6% dessas empresas (em um total de 20) não tinham mulheres em seus conselhos.

Visando investir em grandes empresas que apoiam a liderança feminina, Sallie Krawcheck criou o Pax Ellevate Global Women’s Leadership Fund, primeiro fundo amplamente diversificado que investe nas empresas mais bem avaliadas do mundo para o avanço das mulheres por meio da diversidade de gêneros em seus conselhos e na administração executiva. O fundo superou o índice MSCI World nos últimos três anos, mostrando que investir em empresas que valorizam mulheres na sua liderança traz retornos até maiores que a média.

Essa conclusão não é novidade nas pesquisas, o último levantamento da McKinsey revelou que as companhias com maior diversidade de gênero entre as mil estudadas em mais de 12 países têm 21% mais chances de apresentar resultados acima da média do mercado do que as empresas com menor diversidade do grupo.

No Brasil ainda não há um fundo de investimento que vise retorno financeiro e use lentes de gênero para escolher onde alocar seus recursos em grandes empresas. Além disso, 91% dos investidores anjo são homens, o que contribui para que ainda haja um certo “clube do bolinha” quando se trata das startups buscarem capital.

Os fundos voltados para mulheres geralmente suscitam dúvidas sobre sua necessidade ou mesmo questionamentos sobre um suposto favorecimento ao grupo feminino. No entanto, ao tomar conhecimento do potencial real de ganhos acima da média das iniciativas femininas e de suas barreiras para atingi-lo, fica fácil entender que “favorecimento” é o que ocorre nas condições tradicionais, ainda que não intencionalmente, e que as novas iniciativas somente visam equidade no acesso e permanência das mulheres tanto no empreendedorismo quanto no mundo dos investimentos.

Agora que você sabe que investir em mulheres traz retornos além dos ganhos sociais, fique ligade nas iniciativas que rolam na TEAR e faça parte desse movimento. E aposte: o futuro é feminino!


Itali Collini é economista pela USP, tem experiência no mercado financeiro, projetos de consultoria, finanças sociais e ações de diversidade e inclusão. É co-fundadora de duas iniciativas sociais: o GENERA — Núcleo FEA USP de Pesquisa de Gênero e Raça, focado no ambiente acadêmico; e a Incluser, focada em diversidade no mercado de trabalho. Sua pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro a colocou entre as Mulheres Inspiradoras de 2014, da ONG Think Olga e devido à sua trajetória foi finalista do prêmio McKinsey Next Generation Women Leaders Award 2017.