De Juazeiro para o mundo: Candice Pascoal e a história do Kickante

Acreditando que todo sonho tem futuro, a empresária criou a maior plataforma de crowdfunding do Brasil

Por Amanda Célio

Mercado, inovação, tecnologia e mulheres inspiradoras: se a busca é sobre algum desses assuntos, fica difícil não esbarrar com a menção da empresária Candice Pascoal. Além de seu nome ser um dos mais citados nestes segmentos, Candice foi a única brasileira a ganhar o prêmio Cartier Women’s Initiative Awards (responsável por premiar as importantes iniciativas do empreendedorismo feminino ao redor do mundo). Em seu discurso de premiação, em abril de 2017, dedicou o prêmio a todas as mulheres que, assim como ela, estavam quebrando paradigmas no mercado de trabalho.

A baiana de Juazeiro, de 39 anos, que sorri ao mencionar que nasceu na terra de dois expoentes tão contrastantes como Ivete Sangalo e João Gilberto, se sente mais à vontade voltando às origens para contar sua história no mundo dos negócios.
Candice Pascoal (Foto: Divulgação)

Fundadora e CEO do site de financiamento coletivo Kickante e autora do livro “Seu sonho tem futuro”, Candice Pascoal é reconhecida como uma das dez mulheres mais inovadoras na área de tecnologia. Algo nunca imaginado pela menina do interior da Bahia, que, vinda de uma família de médicos, achava que trilharia o mesmo caminho. “Eu adorava o hospital, mas principalmente como meu pai conduzia a parte administrativa da instituição. Gostava mesmo era daquela faceta empreendedora. Ainda assim, achava que seria médica”.

Dividindo a infância com quatro irmãs e um irmão, sempre ouviu da mãe que ela os criava para que se tornassem independentes e buscassem seus propósitos. Foi assim que largou a ideia de fazer carreira entre bisturis, prontuários e jalecos e foi atrás do que fazia seu coração pulsar. Em Salvador, cursou Administração com ênfase em Comércio Exterior. De lá, a baiana ganhou o mundo: em Nova York, fez estágio no World Trade Center e na gravadora Putamayo World Music, responsável por intensificar seu amor pela música. Em poucos anos, chegou a se tornar vice-presidente do Grupo.

Foram nessas experiências profissionais — e principalmente trabalhando com música — que Candice descobriu sua vocação para o empreendedorismo, financiamento coletivo e negócios de impacto social: “Inserida nessa indústria, via muitos grandes talentos não conseguirem visibilidade por serem pequenos, por não terem recursos de captação. Foi aí que conheci o modelo de crowdfunding e me apaixonei. Entendi que tudo que queria proporcionar estava dentro desse conceito e sabia que no Brasil tal modelo ainda era infantil”.

Já morando na Holanda, onde vive com a família há mais de 10 anos, procurou ajuda de investidores e começou a captar dinheiro para fazer o propósito sair do papel. Com a ajuda de um time de ponta, trabalhando da sede da Kickante no Brasil, lançaram a plataforma em 2013. Dando mais valor a projetos sociais e culturais, tornou-se no País a plataforma mais utilizada pelo terceiro setor. Hoje, a Kickante é conhecida por arrecadar mais de R$ 57 milhões em causas e ONGs na Europa, Ásia e Américas. Médicos sem Fronteiras, Cruz Vermelha, WWF e Anistia Internacional são algumas das iniciativas que já se beneficiaram do modelo de crowdfunding.

Com todos os títulos já alcançados no empreendedorismo, Candice pode ser considerada uma das protagonistas de uma nova geração de empresárixs e investidorxs. Com a visibilidade crescente e a responsabilidade em ser uma mulher inspiradora, seu interesse em questões de equidade de gênero e em projetos que apoiam o empreendedorismo feminino aflorou ainda mais. Por isso, se orgulha em dizer que 50% dos projetos financiados pelo Kickante são de mulheres. Para ela, um feito considerável, mas que não deve ser tomado como suficiente: “Segundo o Fórum Econômico Mundial serão necessários 100 anos para excluir a diferença entre homens e mulheres, mas isso se nós continuarmos a luta pela evolução das mulheres no mercado de trabalho”, completa.

Bons ventos, bons projetos e boas histórias: é possível sonhar

Para a economista e co-fundadora do Núcleo FEA USP de Pesquisa em Gênero e Raça (Genera) Itali Collini, as mulheres estão se envolvendo mais com temas essenciais na transformação da perspectiva de gênero. Nesse cenário, as finanças — tanto pessoais quanto na área de mercado financeiro — despontam como um dos assuntos favoritos. “Ainda não há equidade nesse assunto, mas o importante é a existência de grupos de mulheres falando sobre. Há um movimento crescente de formação de comunidades femininas para discutir finanças, temática considerada quase mística porque é completamente desconhecida para algumas pessoas”, explica.

Ilustração exclusiva de Priscila Barbosa para a TEAR

Ainda de acordo com a economista, as plataformas como Kickante são importantes veículos de transformação e, combinados com outros instrumentos, podem ser úteis para reduzir o abismo de oportunidades entre homens e mulheres: “Fora do Brasil estão nascendo iniciativas com recortes mais claros, como por exemplo o Republic, uma plataforma americana de investimentos online para investidores focados em minorias, como mulheres e imigrantes. Já percebemos que levaria muito tempo para mudar as desigualdades no mercado de trabalho caso deixássemos esse problema apenas a cargo da educação básica, por exemplo”.

Já a plataforma de financiamento coletivo brasileira Juntos, que recebe somente projetos de impacto social e coletivo, tem apostado em um novo modelo de captação de 24 horas e está gerando bons resultados — inclusive em projetos liderados por mulheres, segundo a consultora de projeto Maria Carolina Zemella. “Tivemos no ar a campanha ‘Vote Nelas’, que tinha uma meta de arrecadação de R$ 5 mil e o objetivo de tornar a política mais representativa elegendo mais mulheres. A campanha ficou um dia no ar e elas, que nunca tinham participado de um financiamento coletivo, conseguiram captar mais de R$ 7 mil, mobilizando mais de 70 doadores”, disse.

Para Zemella, as mulheres trabalham bem em rede e quanto mais se aproximarem de formatos como o financiamento coletivo em papéis de líderes, maior será o ganho: “É importante ter o apoio de redes de financiamento coletivo porque esta iniciativa pode ser mais uma ferramenta e forte aliada para aumentar a representatividade da mulher no mercado de trabalho”, afirma.

Apoiar, aliás, mulheres — seja em projetos de financiamento coletivo ou investindo em grandes empresas que defendem a liderança feminina — é um caminho promissor de retornos consideráveis para investidores. Em matéria exclusiva para a TEAR, Itali Collini trouxe o assunto à tona “Aposte: o futuro é feminino”. A publicação aponta, ainda, o levantamento da McKinsey, que revelou que as companhias com maior diversidade de gênero, entre as mil estudadas em mais de 12 países, têm 21% mais chances de apresentar resultados acima da média do mercado do que as empresas com menor diversidade do grupo.

Já no Brasil, segundo Collini, ainda não existe um fundo de investimento que vise o retorno financeiro avaliando as oportunidades com base em como a iniciativa apoia a liderança das mulheres, o acesso delas ao capital, a igualdade no local de trabalho, o engajamento de acionistas e o trabalho de políticas relacionados. Além disso, 91% dos investidores anjo são homens, o que contribui para que ainda haja um certo favoritismo masculino quando se trata das startups buscarem capital.

Estamos, na TEAR, ajudando a abrir novos campos e construir novos cenários. Para quem investe, olhar para os recursos com lente de gênero é uma oportunidade de ouro não só para seus próprios retornos financeiros como para a construção de um futuro mais desejável para as mulheres. Para nós, que estamos empreendendo nossa história, essencial que sigamos de mãos dadas, apoiando umas às outras sempre que possível. Você — investidora ou investidor, empreendedora ou entusiasta do assunto — vem juntx?

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Se você é mulher e está dando os primeiros passos nessa empreitada, fizemos um mini-guia para que saiba como iniciar essa jornada em busca de recursos.

Por onde começar

Confira algumas opções de financiamento para mulheres que estão empreendendo, curadas pela economista Itali Collini.

Crowdfunding: plataforma para atrair doações para sua iniciativa. Você precisa descrever seu projeto, explicar para qual fim utilizará os recursos e definir/engajar sua rede para doar. Além disso, há opção de fazer uma captação pontual, na qual você recebe tudo de uma vez, ou recorrente, na qual você engaja pessoas a doarem uma quantia mensalmente.

Crowdequity: plataforma para atrair investimento para seu negócio. Aqui, as pessoas te emprestarão uma quantia esperando que seu negócio prospere e possa dar lucro no futuro a elas também. Nessa opção você também precisa ter uma boa descrição do seu projeto e uma ótima justificativa para receber o recurso (como investir em tecnologia, equipamentos ou novas contratações), mas é necessário alguns passos a mais: ler as regras e manuais da plataforma — para entender como determinar um valor para a sua empresa - — listar os documentos necessários para receber um investimento e, principalmente, as consequências jurídicas que você precisará seguir para manter os investidores informados, e também para utilizar o recurso apropriadamente.

Investidores anjo: são pessoas com recursos para investir em pequenos e promissores negócios. Para chegar a esses investidores é necessário construir uma rede de relacionamento, indo a eventos, se inscrevendo em sites de investidores anjo e apresentando sua iniciativa para eles. Geralmente, os investidores anjo não aplicam somente capital no negócio, mas também ajudam com contatos e mentorias para alavancar seu negócio — o chamado smart money. Essa modalidade pode ser muito útil para seu negócio, mas é bom ter cautela, ler todas as cláusulas e entender bem as expectativas dos IA para não entrar em uma relação desigual de poder. Chequem bem as informações para não ser colocadas em situações difíceis no futuro.

Incubadoras/Aceleradoras: para iniciativas em estágios iniciais essa modalidade pode ser muito interessante, pois vai te ajudar a testar suas ideias e organizar seu negócio com foco no crescimento. Muitas delas também investem nos negócios ou te ajudam a abordar investidores. Geralmente elas também oferecem espaço físico, mentorias, treinamentos e benefícios com parceiros.


Amanda Célio é jornalista pelo Centro Universitário do Triângulo e feminista. Investigou e publicou uma série sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias de Minas Gerais para a revista AzMina, por meio do concurso de bolsas e reportagens de 2017, do qual foi uma três das vencedoras. Foi palestrante convidada da 13ª edição do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. Atualmente produz pautas para veículos independentes e atua como assessora de comunicação.