Do Co.le.ti.vo: empreender a muitas mãos

Por Camila Pinheiro

Mulheres são — por natureza — empreendedoras. Antes desse termo se tornar popular, sempre fomos essencialmente inventivas, criativas, multitarefas e responsáveis por diferentes projetos, mesmo que esses fossem cotidianos e acontecessem dentro de uma estrutura familiar ou doméstica. O empreender natural feminino também é, na maioria das vezes, coletivo, e desempenhado ao lado das principais figuras femininas de nossas relações sociais ou redes de auxílio: mães, filhas, irmãs, vizinhas e companheiras. Somos boas em compartilhar. Mas uma força externa nos foi imposta, de fato, tirando nosso espaço no movimento do empreender. A sociedade nos ensina desde meninas que são os homens quem possuem o poder de realização, sobretudo profissional, e que mercado de trabalho não é nosso lugar.

Tema bastante discutido, sabemos que a sociedade patriarcal e machista é uma realidade que nos persegue há séculos: eles ainda recebem até 30% a mais para realizar as mesmas tarefas que nós e, segundo o Fórum Econômico Mundial, as mulheres só terão igualdade no trabalho em 2095. Dois mil e noventa e cinco. Eu já terei partido, mas será uma vitória se minha filha, caso eu tenha, realmente ver isso acontecer.

Mas é igualmente importante olharmos para os movimentos globais que estão ocorrendo. Hoje, novas condições de trabalho se desenham a partir da evolução das estruturas familiares — crescimento do número de casais não co-habitantes, aumento do número de divórcios, multiplicação dos lares em que a mulher é a chefe de família. Essa evolução é uma manifestação feminina de reduzir as relações de dependência conjugal e, consequentemente, ocupar nossos lugares de direito no trabalho.

Nesse contexto, ainda que olhando — não só — mas em maior escala para a região sudeste e classe média, as mulheres estão empreendendo com suas próprias mãos. Um cenário marcado pela crise na sociedade salarial, profundas transformações nos modos de produção, irrefreáveis inovações tecnológicas, crescimento do desemprego e mais acesso a programas sociais e de educação nas últimas décadas, ajudaram a mulher a se colocar a serviço em um novo, fortalecido e mais flexível formato de trabalho: o empreendedorismo.

foto original: Nappy.co

Então, se eu pudesse aqui oferecer alguns conselhos a nós, mulheres, com o intuito de enfrentarmos a diferença de gênero no empreendedorismo, o segundo deles seria: façamos juntas! Mas o primeiro conselho aborda o mais profundo âmago da questão. Um ponto que vem antes mesmo daquilo que nos impõe esta sociedade que hoje conhecemos.

PRIMEIRO PASSO — EQUILIBRANDO NOSSO LADO DE CÁ

Em primeiro lugar, proponho tentarmos chegar mais perto de nós mesmas para reconhecermos e potencializarmos o feminino e o masculino que existem dentro de cada uma. E esses aspectos não estão relacionados a “gênero” ou aos conceitos biológicos “homem e mulher”.

Já ouviu falar em Yin & Yang? Pois bem, é uma filosofia milenar que nos ajudará a compreender: todo universo funciona por meio do equilíbrio de uma dualidade energética, que pode ser representada por opostos complementares: céu e terra; espírito e corpo; lua e sol; noite e dia; doce e salgado; frio e quente; esquerda e direita; emoção e razão; inspirar e expirar… feminino e masculino.

Yin, ou energia feminina, está ligado à sensibilidade e intuição. Yang, energia masculina, à ação e ao pensamento lógico. Yin é calmo e sábio. Yang é agitado e forte. Yin é fertilidade e recepção. Yang é poder e expansão. Para homens e mulheres, os dois aspectos coexistem em cada ser, têm valor idêntico, se complementam e se necessitam mutuamente. Porém, se a harmonia é perturbada, especialistas apontam que essas energias demonstram um lado destrutivo. Foi aí que a nossa sociedade entrou e deturpou essa dinâmica: transformou a força do aspecto masculino em violência, e transformou a receptividade do aspecto feminino em submissão.

É um interessante e longo estudo, mas trago aqui uma introdução para funcionar como ponto de partida para que nos reconheçamos, mulheres, em primeiro lugar, como absolutamente capazes de integrar todo nosso potencial criador e realizador, porque ele está dentro da gente e nos possibilita explorar um universo gigante no empreendedorismo.

SEGUNDO PASSO — A RECONCILIAÇÃO E CONSTRUÇÃO

Possivelmente um dos nossos maiores medos seja “estar só” nessa aventura. Portanto, o segundo passo, é atar nossas mãos a de outras mulheres e juntas potencializarmos nossa atuação nessa grande ciranda.

Nesse momento, o desafio é fazer as pazes entre nós: mulheres. Também fomos educadas com base na competição, insegurança e territorialismo. Precisamos exercitar a verdadeira sororidade, perdoar todos os momentos em que não fomos aceitas, e pedir perdão por quando julgamos, ameaçamos ou bloqueamos outra mulher. O sucesso de empreender coletivamente entre mulheres muito depende da não concorrência interna. Precisamos nos responsabilizar pela cura de nossas relações com todas as mulheres e pela retomada da confiança feminina. Não foi nossa culpa!

NA PRÁTICA

Há muitos modelos de empreendimentos coletivos femininos. Minha experiência com o MÃOS: Movimento de Artesãs e Ofícios — projeto no qual sou idealizadora — me colocou mais perto do associativismo e cooperativismo. Nesse caso, são grupos de mulheres que se unem em detrimento de um saber tradicional comum entre elas, para prestar um determinado serviço ou produzir alguma técnica específica.

O que eu aprendi com elas sobre empreendedorismo coletivo? Tudo, especialmente coragem.

Empreender em um cenário de privilégios já amedronta, não é? Agora imagine vislumbrar um negócio vivendo em situação de vulnerabilidade social ou econômica, em regiões rurais e urbanas com pouco acesso à informação e educação. Isso nos dá a oportunidade de entender que é possível.

A proposta cooperativista é um exemplo a nos inspirar: autogestão, liberdade de associação e dissociação, permanência e prestação de assistência a cooperada são possibilidades efetivas de autonomia e valorização destas trabalhadoras, comparado ao modelo tradicional de trabalho do capitalismo.

Você enxerga, dentro desses modelos assalariados e patriarcais existentes, espaço para você se colocar a serviço da maneira que deseja? Se o mercado não nos oferece o que nos é de direito, então nos juntemos de forma independente para alcançá-lo! E empreender é uma alternativa.

SE JUNTAS JÁ CAUSAM, IMAGINE JUNTAS

Sabemos que empreender não é um caminho fácil, e é essencial olharmos com confiança para possíveis oportunidades de apoio e parcerias. As Bordadeiras do Jardim Conceição, por exemplo, formam um grupo de mais de 30 mulheres na periferia de Osasco, na grande São Paulo, que se uniram para empreender na técnica do bordado e costura, após um primeiro contato básico com os ofícios durante um curso oferecido pela Escola Fundação Bradesco, instituição onde algumas das integrantes tinham seus filhos estudando na época.

Elas souberem estreitar essa relação e muitos frutos foram colhidos desde então. Hoje, formalizadas como Cooperativa, seguem o trabalho em sede própria e aproveitam as tantas outras oportunidades que surgiram pelo trajeto, tais como: desenvolvimento de coleção com grandes marcas, criação de exposição com artistas plásticos na Bienal de Arte de São Paulo, participação em documentários audiovisuais via edital público, e uma porção de outros projetos que, hoje, garantem sua liberdade criativa e autonomia financeira.

“Evoluímos muito nesse tempo. Mas se lá atrás a gente não tivesse começado, mesmo não sabendo bordar direito, ninguém ia estar aqui hoje. O segredo é não buscar a perfeição”, revelou Sônia, presidente do grupo Bordadeiras do Jd. Conceição.

Para aquelas que não enxergaram, ainda, uma parceria imediata de apoio e resistem à aliança com grandes organizações patrocinadoras, apresento a seguir o conceito de ‘Investimento Anjo’: ocorre quando uma pessoa física investe seu capital próprio em negócios nascentes com alto potencial de crescimento, as atuais “startups”. Nesse cenário, mais uma vez o mercado é dominado por homens: um estudo recente feito pela firma de investimento Female Founders Fund mostrou que apenas 8% das startups que receberam investimento no Vale do Silício no ano passado eram lideradas por mulheres. Em 2013, 98% dos investidores-anjo brasileiros eram do sexo masculino. Foi para quebrar essa realidade que a MIA — Mulheres Investidoras Anjo nasceu, projeto brasileiro liderado só por mulheres e que já apareceu pelo Medium da TEAR.

Inclusive, a maioria dos empreendimentos femininos que vemos florescer hoje envolvem: público feminino, serviços femininos ou contextos femininos. Seja nas artes, na comunicação, no direito, na saúde (…) geralmente mulheres estão empreendendo para mulheres e isso é maravilhoso, sim. Mas, e quando nos arriscamos em um universo majoritariamente masculino?

Esse é o desafio diário das Dibradoras — plataforma online esportiva gerida só por mulheres. Conversamos com Renata Mendonça, criadora do projeto, e ela nos relembrou: “O desafio não é só de empreender em um ambiente majoritariamente masculino. O desafio é estar nesse ambiente. A pressão é muito maior. Você não pode errar, você vai ter de sempre conviver com o assédio ou os ataques. Atuar já é um desafio. Empreender é desafiador também, mas a gente está num momento ‘muito bom’, entre aspas, para isso. A gente está num momento bom para ro feminismo. Um momento em que as mulheres estão sendo mais ouvidas e isso torna a receptividade ao nosso trabalho um pouco melhor. ”

Renata sempre quis trabalhar com jornalismo esportivo e quando começou, em 2011, era a única mulher da redação entre quinze caras. Hoje, o Dibradoras conquistou um espaço dentro da plataforma da UOL, e 65% de seu público são mulheres contra 35% homens. É um número interessante, que demonstra que dialogar com eles é fundamental.

Millena, jovem cearense empreendedora, atua colaborando com marcas femininas a contarem suas histórias através de criação de conteúdo e storytelling, além de organizar a Feira Mana a Mana — um espaço de divulgação e comercialização para artistas mulheres. Ela apontou a diferença que enxerga entre o empreendedorismo coletivo feminino e o empreendedorismo materno, ao relembrar situações onde mães expositoras não conseguiram comparecer à feira por, “simplesmente”, não ter com quem deixar o filho que ficou doente. Na última edição do evento, especial de dia das mães, Millena garantiu uma rede de apoio às empreendedoras: um espaço onde “mulheres não mães” cuidaram dos filhos das expositoras e das visitantes. Uma iniciativa tão simples quanto inspiradora e poderosa!

Produtoras da feira Mana a Mana

VAMOS JUNTAS?

A Casa Tear está nascendo e queremos construí-la de mãos dadas: um espaço colaborativo para mulheres que sonham concretizar e protagonizar suas narrativas. O projeto — conector de pontos para empreendedoras — tece pontes sólidas para o fomento, prosperidade e conexão de coletivos femininos com uma grade que contemplará cursos, grupos de estudo, programas de aceleração, mentoria e redes de apoio.

Além disso, a Casa Tear será dividida em pilares de atuação nos quais esses coletivos poderão se envolver e colaborar efetivamente. Empreendedorismo, Cuidado, Maternidade e Gastronomia são alguns exemplos dos pilares que serão abordados, e o objetivo do projeto é conectar as iniciativas, focadas em cada um desses temas, formando rede e estabelecendo parcerias reais para uma atuação coletiva. Chega mais perto e se conecta com a gente!

E lembremo-nos: empreender significa “decidir realizar”. Uma vez que propagamos o trabalho de outras mulheres, também estamos colaborando diretamente com esse empreendimento.

É bom falar com quem nos entende, não é? Melhor ainda, é construir um ambiente onde poassamos atuar excluindo de cara os principais problemas que lidamos fora deste ambiente desejado: opressão, assédio, julgamento, preconceito, violência e desigualdade. Chega.

Vamos nos acolher e cocriar nossa realidade, mulheres?


Camila Pinheiro, criadora sensível à identidade brasileira. Formada em Comunicação, hoje divide sua atuação profissional em três pilares inter-
relacionados: a pesquisa cultural, o desenvolvimento social e a economia criativa. Idealizadora do projeto MÃOS — Movimento de Artesãs e Ofícios, Camila percorre comunidades rurais e urbanas que possuem o artesanato de tradição como patrimônio material e imaterial.