Maternidade e o poder da vulnerabilidade

Potência e vulnerabilidade são as duas sensações mais constantes na maternidade. Saber usá-las a nosso favor, portanto, faz toda a diferença.

Por Barbara Thomaz

O novo cidadão formava-se no núcleo do meu mundo e na estratosfera um ameaçador deslocamento planetário acontecia em minha órbita. As teorias, ideais e arquétipos da minha nova condição em constante colisão com a minha identidade, o itinerário se desalinhando, o inquietante buraco negro do desemprego que me fitava, o sono retrógrado que se anunciava e meu próprio corpo celeste em combustão se expandindo sem nenhuma timidez.

Aquele fenômeno sequer havia nascido e a constelação de mudanças, adaptações, medos, dúvidas e renúncias já povoavam o céu.

Barbara Thomaz, por Bárbara Waldorf

Aos 27 anos e com sete meses de gestação veio a temida demissão, por e-mail mesmo, enquanto fechava as malas do enxoval que acabava de fazer. O fato é que isso só foi possível porque a lei brasileira não protege as prestadoras de serviço, também conhecidas como PJ. Vale aqui um adendo muito bem-humorado do senhor destino que me fez entrar em trabalho de parto em plena Previdência Social, enquanto aguardava para protocolar o pedido de auxílio-maternidade via INSS.

Theodoro nasceu e cinco meses de grude depois me encontrava em total desespero e com sede de um mundo que já não me via com os mesmos olhos, nem me permitia os mesmos papéis. Eu agora era mãe e, apesar de comunicadora, havia uma inquietante insistência do mercado em me definir única e exclusivamente como tal. Depois de quase um ano resistindo, finalmente surgiu uma oportunidade que não me limitava a esse status e, assim, me recoloquei no mercado.

Ilustração exclusiva de Priscila Barbosa para TEAR

Já empregada, engravidei do Antonio e, novamente, o cenário mudou. Era nítido que a notícia não havia agradado e menos ainda algumas intercorrências da gestação e do filho pequeno que vez ou outra adoecia. Ao retornar da licença maternidade fui, de novo, demitida.

O baque foi tão grande que me rendeu uma depressão — e, no meio da depressão, veio também uma separação. Sem chão, sem rumo, sem rede de apoio e querendo ganhar a vida perto dos pequenos, a saída foi empreender. Foram muitos meses desenvolvendo uma marca infantil, enfrentando burocracias, custos altos, taxas, impostos, fornecedores que só vendiam em grande escala, planilhas intermináveis, contas que não fechavam e uma economia piorando vertiginosamente. Como trilha de fundo, uma sensação latente de que minha real motivação era a de comunicar ideias e novos mundos e não de empreender. Com muito pesar, a marca, juntamente com um ano de trabalho e investimento pessoal, foi direto para a gaveta. Voltei ao mercado de trabalho pronta para desbravar outras vontades represadas — não sem dificuldades, óbvio.

Infelizmente, meu relato não é um caso isolado. De acordo com o estudo da consultoria Robert Half, 27% das trabalhadoras têm dificuldade de reassumir as antigas atividades quando voltam de licença-maternidade. A FGV entrevistou 247 mil mulheres de 25 a 35 anos e 48% das mães desempregadas perderam o emprego até dois anos depois da licença. O Brasil tem 12,7 milhões de desempregados segundo o IBGE e, segundo levantamento da SPC Brasil, a maioria são mulheres com média de 35 anos (59%) e com filhos (58%).

O site Trocando Fraldas revelou que três em cada sete mulheres sentem medo de engravidar e serem demitidas. Uma pesquisa da Catho mostra que, após a chegada dos filhos, as mulheres optam por deixar o emprego cinco vezes mais do que os homens. É também notável a quantidade de mulheres optando pela maternidade tardia em nome da sua estabilidade e autonomia.

O recado é claro: o mercado de trabalho ainda é um ambiente hostil para quem materna.

Os motivos por trás dessa dificuldade apontam uma cultura que não distribui igualmente as responsabilidades domésticas e de cuidados com os filhos, sobrecarregando as mulheres. Com uma rede de apoio que ainda não se sustenta, a falta de acolhimento e compreensão do empregador, os questionamentos sobre sua capacidade de dedicação ao emprego e o sentimento de culpa por não estar com os filhos, a mulher se vê em uma encruzilhada.

Por outro lado, o entrave para a produtividade e autonomia financeira não é associado à paternidade. Perguntas sobre fertilidade e planos familiares, por exemplo, não fazem parte de suas entrevistas, o afastamento do ambiente de trabalho deles é de 20 dias e continuam ganhando mais apesar das mulheres serem mais escolarizadas.

São questões gritantes da disparidade dos gêneros ainda em vigência

Para reverter esse quadro de exclusão e confrontar o mindset opressor, iniciativas têm nascido para reafirmar a maternidade como uma força de propulsão e criatividade. Além da imprescindível rede de apoio, aspectos como generosidade, organização, disciplina e sororidade estão se tornando grandes aliados das mulheres nessa retomada de rédeas.

Projetos como o Contrate uma Mãe, Nuwa, B2Mamy, Maetis, Maternidade nas Empresas, Co.Madre, TEAR — que também acolhe mães e gestantes em suas iniciativas — e o recente Mãe-Solo vêm oferecendo conexões, apoio, capacitação e atuação para gestantes e mães. Para Camila Conti, do Maternativa — uma plataforma para mães empreendedoras — , as redes femininas são um propulsor importante para uma resistência afetuosa e eficaz contra a desigualdade de gênero:

“Quando uma mulher começa a ganhar dinheiro, ela investe nos filhos, na casa, na família, na comunidade. Ela pensa essencialmente no futuro. É comum ver mulheres se ajudando em todos os níveis. A nova onda do feminismo tem fortalecido a forma das mulheres se relacionarem. Cada vez mais mulheres têm compreendido como é importante ‘puxar a outra’. É o que eu gosto de chamar de ‘sisteragem’”.

Após os tremores inerentes à chegada de um filho, a palavra de ordem é ação. A vida é movimento e pulsação, retração e expansão.

Mantenha seu impulso e seu propósito, seja qual for. Recalcular a rota exige resiliência e coragem. Confronte as adversidades, rompa com suas crenças limitantes, revise escolhas, amadureça seus talentos, permita-se errar, a pedir ajuda e a recebê-la. Reconheça seus direitos. Tenha paciência e compaixão com você mesma para reintegrar a própria identidade e resgatar a confiança que podem ter ficado abaladas. Ajude outras mulheres sempre que possível. Ah! Não esqueça de respirar!

Encarar essa renovação como um processo natural na maturação da nossa existência é um caminho edificante na ressignificação das nossas potências e na luta por um mundo mais igualitário.

Primordialmente, saiba que você nunca estará sozinha e que juntas vamos mais longe!

Bora?