Depois da primeira vez

Eu ouvia que ia passar, que esperasse, ficasse, aguentasse, que ia passar, sim, iria passar bem logo. Também senti a urgência de outrem de que aquilo acabasse, porque já enchia demais, irritava e se exagerava: no tempo, no modo, no tamanho que aquilo tudo tomava. E toma.

Uma hora vai passar.

E passou: pra voltar de novo. Passou de novo, pra voltar outra vez. E em todas as vezes eu conseguia ser só isso: um peito que parara de arfar pra respirar, sem demoramento, como diz Rosa, mas esperando a próxima agonia. Vai passar, eu pensava. E, em verdade, verdade mesmo, nunca passou, claro está.

E a certeza que também não passa é a de que, depois duma primeira vez que se sucumbe, não se volta pro antes, nem pra um depois melhor. Não se deixa de sucumbir, todas as vezes, mais vezes; depois daquela primeira porrada não dá mais pra ser feliz de verdade, nem esperar que isso vá acontecer. Eu não acredito que vá.

Depois duma primeira vez como aquela, como tantas que se vê por aí, por aqui, debaixo dos narizes da gente, as emoções ficam fracas e frouxas, sem cores boas nem ruins, sem dizerem dor nem alegria alguma. Tudo que acontece, simplesmente é. Nada realmente bom é sentido como realmente bom. Nada realmente ruim é sentido como realmente ruim. As coisas passam a ser elas mesmas, sem nossa verdade com elas: perde-se o sentido dos tudos.

Não dá pra ser realmente feliz de novo. Não dá pra ser realmente triste de novo. Só dá para se contentar com um existir morno, sempre morno, sempre pedra rachada e feia, sempre mormaço (que incomoda, mas acostuma). E a gente vai.

Agora dá pra respirar, dizer que passou, e esperar que venha tudo outra vez. De tempos em tempos, tudo se repete, piora e afunda, o peito também, e o sufocamento desconcertante que ninguém percebe. Mas quem percebe te diz: vai passar.

Foto: Pedro Andrade

Vai, sim. E volta logo. Até que nunca se acabe, ou a gente mesmo acabe com isso.

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