Duas

Eu ando sem saber a diferença entre felicidade e mania. As vezes sinto aquele aquecimento no peito e as explosões que migram do cérebro para o estômago e penso nessas vezes que o mundo é tão incrivelmente aberto, como um prado, e que eu posso simplesmente correr, rápido, forte, em frente sempre e não encontrarei o fim. Nessas horas eu só vejo oportunidades, só vejo verde, só vejo campo, só vejo espaço que precisa ser ocupado por mim. É uma sensação tão poderosa, tão abraçante, tão quente. Aí sinto medo, porque sei que na verdade esse prado aberto está infestado de minas terrestres e eu SEI que eu não posso sair correndo, não assim sem pensar, não assim irresponsavelmente. Eu tenho que andar e calcular e me preocupar mas meu corpo já vai pulando la na frente, elétrico, aquecido, fora de mim. Não consigo interpretar a origem do sentimento porque não sei exatamente os mecanismos da felicidade, do otimismo. É assim? Isso é normal? Será que significa que na verdade estou ficando curada, ou é meu cérebro pregando mais uma peça, me levando às alturas somente pra me jogar dali? As vezes confundo pessimismo com realidade, e tenho muito medo de fazer o oposto. Tenho medo de me iludir, de sair de mim, de perder contato com a realidade que conheço. Tenho um medo imenso da ilusão. Queria viver de verdades, queria ver todas as cores reais das coisas, queria SABER. Mas eu não sei. Não sei se estou perdendo o controle, não sei se finalmente, por um segundo, estou livre. É complicado não saber filtrar o próprio cérebro, não poder confiar sempre no seu processo de pensamento. Estou sendo realista ou pessimista? Estou sendo feliz ou otimista demais? O que me bate a porta, o que me ESMURRA a porta é a pergunta do depois, do até quando. Até quando esse sentimento de oportunidade e campo aberto vai durar? Ele é real? O que é que pode ser considerado real, em se tratando de sentimentos? Não são tangíveis, certamente. Todos ocorrem dentro e dentro ficam e as vezes se expressam mas não tem capacidade de realmente sair do corpo. Como se mede a realidade dos sonhos? Como se diferencia os pensamentos ‘normais’ dos que estão fora da curva? Até que ponto eles me afetam, até que ponto eles me compõem? Sou uma combinação dos meus sentimentos principais? Se sim, quais são eles? Eles podem mudar? Eles correm também no prado? Não sei. Não sei. Não sei. Mil perguntas e minha perna balançando debaixo da mesa e a cabeça correndo de canto em canto da casa como se procurando algo, uma pista, um propósito entre a parede do quarto e a porta do banheiro. Busco maneiras de acalmar a mente, de segurar o coração que pula tanto que parece que quer comandar o corpo a fazer o mesmo.

Aí acendo um baseado e sinto a mente esvaziar. A pressão na cabeça diminui, os pensamentos param de chutar meu crânio e é como se eu estivesse carregando uma melancia enorme e de repente ela caísse e eu sinto a cabeça levantar mais alto e a sensação de vazio onde antes era peso. A perna já treme menos embaixo da mesa, o pensamento está aqui nesse papel e nas letras que agora digito uma por uma para dar sentido ao que me acontece. Meu peito voltou a caber em mim, e eu estou aqui nesse momento. É uma sensação de centralização. Como um saco com água cheio de furos por onde se espalha a água do pensamento pra todos os lados e ao mesmo tempo pra lugar nenhum, fosse reparado milagrosamente e agora se encontrasse inteiro, com toda a água num lugar só, exatamente onde deveria estar. Eu penso se o que descrevo é um vício e no fundo eu sei que é, mas eu sei também o que sinto, porque meus sentimentos me atacam. Não se acomodam suavemente em mim jamais, chegam batendo, quebrando, fazendo barulho. Se fazem notar sempre e com tanta veemência que aprendi a saber deles. E eles civilizam depois do meu beck, eles voltam e ficam sentadinhos esperando a vez de falar e isso por si só é um alívio tão imenso que o único sentimento que permito a fala é o de gratidão a sabe-se lá o que, talvez a Deus por eu ter a oportunidade de sair daquele sentimento terrível e de voltar a mim e de me sentir inteira por dentro minutos depois de estar espalhada em partes pelo chão. Acendo, fumo, penso, escrevo. Nada me agrada tanto quanto a sensação de paz.