Esquece-se

Pois eu tenho estado por desse jeito todos os dias, Martina, muitas vezes nos últimos anos. Imagino covardemente cada segundo e possibilidade disso aqui, de como isso pode ser, de como deverá ser, o antes o durante, o antes e o durante. Não fico muito no depois. Me dá uma tristeza não arrependida pensar no depois. E você sabe como é uma tristeza não arrependida? É quase um prazer em estar triste, uma convicção do inexorável, do pretendido, absolutamente perfeito e feito. Uma tristeza sem arrependimentos. Mas me dá feito dor, e por não aguentar muito mais do que já tenho sentido, não penso em depois.

Consigo debruçar-me na varanda por horas num dia, nuns vários dias. Há muito tempo que nem saio, mal saio, não tenho mais cor nenhuma, cor de nada, até porque me estendo pela varanda mais nas madrugadas, como se eu me estendesse sobre os silêncios também. E imagino se deveria ser rápido, se deveria pegar algum impulso antes, se deveria ter alguém em casa para que ouvisse quem sabe um baque ou talvez apenas o interfone. Interfone tem barulho de inferno, de notícia ruim, de despertador do sono da tarde. Eu não atendo interfones.

Ainda mantenho os caminhos nos braços os repito, vez em quando, não tanto quanto antes, mas me detenho e fico. Sentir a pele abrindo e ardendo avermelhando e inchando dói menos que muito, dói menos que muita coisa; quanto maior a dor física dói menos aqui dentro, sempre assim, não sei se te contaram. Faço linhas tortas e cruzo, linhas tortas e cruzo, os riscos incham feito arranhão de cachorro pesado; ficam por dias. Alguns sangram de pouco a pouco, eu chupo, sinto arder e repito. De novo me pergunto se poderia ser assim, o antes e o durante, um durante vagaroso, demorado quase eterno. Afundo os sulcos, aumento o que puder fazer doer na pele, às vezes acho que sorrio por dentro, satisfeita com o sucesso de ficar menos quebrada do que já estou bem dentro de mim, completamente rasgada por fora, como me veem.

Por isso as mangas compridas, Martina.

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Mas hoje até que faz frio, e ninguém vê nem pergunta e até aproveitei para afundar mais os caminhos tortos que cruzam, caminhos tortos que cruzam, caminhos tortos que cruzam… Minha pele é mais do que eu — um caminho reto sem cruzamento nenhum. Que de repente terminará. E me pergunto se esse fim vem agora, sem ver como será o depois. Gosto dessa montanha de onde estamos agora, desse frio sem vento e sem sol. Continuo cor de nada e rasgada por fora, ainda mais rasgada, coberta pelas mangas compridas e disposta e terminar de me arrebentar ainda mais — por fora; por dentro já concluiu-se o serviço. Me pergunto como deverá ser esse antes e esse durante, aqui sim, aqui é melhor que haja um impulso, uma força pelos pés e um salto. Não se joga de uma montanha, salta-se, larga-se, esquece-se. Finalmente o antes o durante e o propósito certo: esquece-se. De si, a si, sem pensar em depois, em depois nenhum. Um salto sem demora.

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