Medo

“Um dos seus medos se realizará”. Esse era sem dúvida o pior biscoito da sorte de todos os tempos. Não era só porque o sabor estava estranho mas afinal, que tipo de sorte é essa? Isso parece mais uma praga jogada por uma cigana. Uma reviravolta em um tarô. Uma macumba especificamente direcionada. Tentou ser racional, calculista. Coisas que sempre havia colocado no currículo mas que nunca funcionaram na vida real. É apenas uma mensagem aleatória em um biscoito da sorte padrão feito por uma franquia de restaurantes de comida chinesa. Poderia se referir a qualquer coisa e a qualquer pessoa.

Que idiotice. Por um segundo realmente levou essa mensagem a sério. Argh. Vergonha. Porém, por um momento fez uma reflexão interior. Quais eram realmente os seus medos? Dizia por aí, mais especificamente em conversas de bar e confraternizações da firma, que não tinha medo de nada. Da morte talvez, quando chegasse a hora, mas gostava de pensar que ela seria apenas uma passagem. Talvez se fosse uma morte sofrida. Um câncer. Um tumor. Aí sim teria medo. Não da morte em si mas da dor e do sofrimento. Afinal, quem quer esse tipo de coisa na vida? É normal temer isso. Perfeitamente racional e aceitável. Sabia que estava tudo bem. Ia fazer apenas alguns exames. Cortaria o sal da dieta e faria mais exercícios. Tranquilizou-se.

Mas então pensou no que chamaria do seu receio em relação aos palhaços, que de acordo com seu terapeuta era apenas um reflexo das humilhações que sofrera na infância misturados a uma festa de aniversário frustrada. Mas como esse medo poderia se tornar real? Palhaços já existiam. Isso significava que ele se tornaria um? Que bobagem. Ok. Talvez um palhaço assassino. Ou um palhaço que o deixasse inválido e doente. Melhor evitar festas de criança por um tempo. E circos. E ações beneficentes. Afastou esse pensamento rapidamente, voltando-se para um medo de altura controlado que era percebido apenas em sonhos assustadores onde finalmente pulava de bungee jump e a corda se rompia, acarretando a uma morte violenta. Tudo bem. Nada de saltos. Nunca foi mesmo fã de esportes radicais. Nem de escaladas. Evitaria prédios muito altos e escadarias. Começou a suar frio.

Fechou as janelas, apenas para evitar a possibilidade de um ar frio repleto de bactérias entrar em casa, ou de um pássaro violento bicar seus olhos. Mas calma. E se o problema fosse a sua carreira? Havia acabado de receber uma promoção, ganhou um salário considerável e muitos elogios dos chefes. Mas, se tudo aquilo fosse um prelúdio para um fracasso sem volta? Era isso, não era?! A sua vida toda iria acabar daqui a alguns momentos. A carreira fracassaria, perderia o emprego, ficaria sem dinheiro, teria que entregar o apartamentos, teria que viver na rua, procurando comida no lixo até que um dia morreria de uma infecção causada por um ferimento feito por um palhaço que o havia empurrado do topo de um prédio.

Jogou o biscoito da sorte e todo o resto de comida fora. Ligou para o trabalho e disse que não estava se sentindo bem, faltaria no dia seguinte. Levantou-se e trancou a porta, logo depois de olhar duas vezes pelo olho mágico. Sentou-se muito quieto, quase imóvel, pensando em várias possibilidades, maneiras de se proteger contra seus piores medos. Enquanto isso, do outro lado do mundo, um trabalhador chinês digita vagarosamente em milhares de papeizinhos, escolhendo palavras retiradas de jornais velhos, muito velhos, escolhidos a dedo em uma banca de jornal, pensando no tempo em que ele ainda não tinha medo de germes e conseguia sair de casa.

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