O estado de Suspensão

Em primeira instância, você vai se encontrar com calafrios na barriga, apresentando dores no corpo e manchas roxas de mordidas por todo lugar. Apenas não se assuste: parece o Zika vírus, mas é um sentimento que, de tão bom, não há nada saudável com o que comparar.

Eu explico, venha cá: isso é a Suspensão se manifestando e ela tem esse nome porque lhe puxa pra cima feito um guindaste, faz com que você questione todas as outras pessoas que, de maneira falha, tentou erguer por aí.

É uma via de mão dupla: o V que vai é o V que volta. Não dá pra sentir Suspensão sozinho. Ela é a prima madura da Paixão — ainda nova demais pra ser Amor. Suspensão é o que ainda acontece com as suas pernas quando, lá pelo 50º encontro, você ouve de um certo alguém o clássico “chego já pra lhe buscar”.

A Suspensão bagunça as prateleiras do seu mundo: é euforia contida que a gente tateia à luz do desconhecido. Esses dias mesmo meu celular vibrou com uma mensagem de “saudades suas” e eu achei que ia, de tanto suspiro, infartar. Tem que ter pé firme e cabeça nas nuvens pra se deixar suspensar.

No estado de Suspensão o tempo passa mais gostoso e lento. O coração — preenchido — bate ritmado com o outro e é capaz de amolecer os mais duros e despidos dos sentimentos rotos.

Quem tá suspenso não conta vantagem, não comemora antes do fim do jogo e nem anuncia nas páginas do jornal: possuem a calma de quem tem certeza de que o caminho é longo até o Amor, mas aproveitam o todo como se não soubessem o destino final.

Não carece usar aliança, não tem que trocar status no Facebook, não mendiga por declarações amorosas e buquês de rosas caríssimos: é uma anomalia genética que nasce depois do primeiro beijo, é um sentimento inefável e atemporal que os corajosos permitem aturar.

Um pulo na imensidão do peito do outro. Mergulho no ar sem capacetes ou para-quedas para aparar.

Quando dois suspensos flutuam juntos, não há obrigação e nem culpa: só a vontade de ir, ir, ir, ir sem fim, ir sem cessar. Dois suspensos flutuando juntos, levitando na horizontal do colchão de solteiro, no chão duro, na rede, na cama de casal, no meio do nada num calor de rachar. Dois suspensos indo com calma depois de tantos machucados mas, ainda assim, indo sem amarras pelo estranhamento de tanto gostar.

O estado de Suspensão é livre como um pássaro que canta da mesma árvore todos os dias e mesmo assim não se entedia: sobrevoa outros bairros, outras cidades, experimenta uma nova melodia mas — sempre às cinco da tarde — volta prum galho de lá.

Imagine você: Suspensão é um rio que corre até uma cachoeira e essa cachoeira se encontra com uma correnteza que desemboca a Suspensão no amar.

Foto: Pedro Andrade
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