Prazo

Acordou atrasado, como costuma atrasar. Se olhou no espelho e esmurrou a si próprio com sua imaginação. Queria ficar deitado como todo mundo quer ficar. Odiava a segunda-feira como todo mundo odeia. Sentou no sanitário, pegou o celular e abriu o aplicativo de fotos, como todo mundo faz hoje em dia. Mensagens bonitas, inspiradoras, motivacionais. Estava cagando para isso. Não à toa levava o celular para privada para ver as mesmas pessoas postando as mesmas fotos.
Hoje vai ser igual aos outros dias, pensou. Nem tempo para café da manhã tem, pois está atrasado, e talvez seja demitido por isso. Está nem aí. Sabe de seu potencial. Irá chegar atrasado e terminar sua pauta antes de todos aqueles que tinham chegado cedo. Irá sentar na frente do computador, colocar os fones e produzir. Cuspir mil mentiras descartáveis, escrever três ou quatro matérias pagas cheias de clichês e pronto. Mais um dia, menos um dia.
Escrever era o que te dava mais prazer e o que dava menos prazer também. É a sua profissão. Suas cervejas são pagas com suas matérias, suas viagens, sua internet, sua TV a cabo, sua vida regada a inutilidades digitais, tudo.
Que se foda, pensava sempre, mas escrevia nunca.
Sete horas depois arrumou suas coisas e voltou para casa. Tinha escrito um texto em terceira pessoa. Publicou em seu blog, sem revisões.
Fez algo para comer, pegou um livro fingindo a si mesmo que iria ler, mas ficou no celular, vendo novas fotos das mesmas pessoas, vendo suas opiniões, seus rostos, seus excessos cheios de nada.
Deixou o texto incompleto. Ninguém vai ler isso mesmo.