Que horas são?

Ando medindo o tempo pela idade do filho dos outros. Dia desses a menina tava grávida e lá vai o filho já dando os primeiros passos. Quanto tempo foi que eu passei aqui deitada nesse sofá descendo a barra de rolagem? Me pareciam minutos, mas agora vejo que foram meses. Não encontrei com ela nenhuma vez durante sua gravidez. Quanto tempo faz que eu não saio de casa? O da outra acabou de nascer, mas ontem mesmo ela estava postando, toda feliz, o resultado positivo do teste. Onde foi parar todo esse tempo? Onde eu estava? No sofá? Dormindo? Fico assustada. Me dá um baque assim no peito. Passei mesmo mais de nove meses trancada no meu apartamento? Não tive essa sensação. Tive poucas sensações, na verdade. Sempre penso em adiar mais um tempo a minha volta à sociedade. Sempre acho uma desculpa para não sair e ficar dentro de casa onde é seguro e não tem problema se eu não quiser conversar, ou rir de piadas sem graça, ou dizer os bordões e gírias da moda. Adio um dia, dois, um mês. De repente o filho da menina já tá lá, dando os primeiros passos. O filho daquela outra já aparece até em vídeo fazendo dancinha. O da outra nasceu, o da outra tem 6 meses já. E eu continuo aqui, no meu local seguro, sem entender como o tempo pode passar escondido. Chego a conclusão que ando vivendo pouco e sobrevivendo muito. Tomo a decisão que vou sair de casa, faço planos, ligo pra amigos — aqueles que ainda me toleram — e por um minuto ou dois eu realmente acho que vou mudar a maneira que vivo. Mas vem a tarde e eu começo a duvidar se quero mesmo fazer aquele programa no bar, se quero mesmo me cercar de pessoas alegres e falantes, se quero mesmo arriscar sentir aquela onda de inadequação que só sinto estando cercada de pessoas normais. Chega a noite e a dúvida vira desespero. Não entendo porque fiz planos, não entendo porque combinei de sair. Fico buscando um milhão de desculpas convincentes para dizer que não vou mais. Acabo dando uma desculpa qualquer que tanto eles como eu sabemos que é mentira. Às vezes eles não conseguem esconder a decepção, e estão certos. Muito foda lidar com alguém que não consegue cumprir nem com a própria palavra. Devem reclamar entre si. Imagino todas as conversas possíveis que devem ter sobre como eu sou uma pessoa horrível. Talvez isso só aconteça na minha cabeça. Os amigos de verdade no fundo entendem. Os outros já se afastaram faz um tempo. Me sinto uma sacana com todos, e não sei como me desculpar. Ao mesmo tempo sinto que lhes estou fazendo um favor, minha companhia nesses dias não é muito boa. Continuo nesse ciclo. Perco o nascimento de mais uns cinco bebês deitada no meu sofá. Acordo pro tempo e tento me redimir, mas no meio do caminho adormeço de novo.

Foto: Pedro Andrade