Um depoimento

‘Qual era a cor da camisa dele?’ O homem perguntou. E eu sei lá, meu Deus!, qual era a cor da camisa dele… O barulho do teclado tec-tec-tec-tec — de repente suspenso — também aguardava a minha resposta. O ventilador girando e girando e girando e eu devia estar com aquela cara abobalhada: parada, os olhos baços encarando o tempo. ‘Qual era a cor da camisa dele, minha senhora?’ Acho que eu movimentei a cabeça, inclinei o rosto, acho que percebi as olheiras dele. E o outro usava camisa?

A sala era apertada e mais aquele ventilador girando na parede e eu sentindo na mão apoiada na mesa aquela vibraçãozinha impertinente. Puxei a mão. O outro homem, o do teclado, me olhava com o vago nos olhos, fitei seus dedos: curtos e finos. Lembrei de ratos. Camundongos rosados que mastigavam aquelas teclas: tec-tec-tec-tec. Eu queria ir embora. As paredes eram finas demais. Do outro lado, um telefone tocando e ninguém atendia nunca. As paredes eram muito finas. E estavam muito perto. E o ventilador, incansavelmente, na parede. E ‘moça, a camisa dele, qual era a cor?’

Que inferno!, eu não queria responder mais nada e não sabia responder nada. Nunca soube, na verdade. O telefone gritando, impertinente, além da parede. O homem do teclado, o de ratos nas mãos, era nítido, ele queria ir embora. Eu também! Do da minha frente eu não sei qual era a cara. Eu via um crachá. E a foto? Um nome comprido. Encolhi-me mais na cadeira de espuma azul e encosto frio, queria agarrar a minha dor. Doía dentro e só eu sabia o peso dela.

Eram dois homens ali na sala. Era um homem antes, um homem grande, sem rosto também. Eu mulher. Eu e minha dor. Procurei uma janela na sala, não tinha. As paredes finas, mas sufocantes. Comecei a suar, senti. ‘Senhora, pela última vez, qual era a cor da camisa dele?’ ‘Vermelha, a camisa era vermelha!!!’, explodi, ‘vermelho sangue!’ O telefone de súbito parou de tocar. Os homens assumiram posturas graves. Acendi os olhos, flamejantes, e senti as paredes do meu útero de fêmea se fragmentando em vermelho sangue — cor da camisa, cor da minha dor e do meu medo.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.