High Five
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Nov 12, 2018 · 7 min read

Era uma sexta-feira em algum lugar de abril de 2013, às 17hs o sol começa a dar um descanso para a Rua São Bento em Araraquara, mas ainda está lá, afinal não é atoa que a cidade dele é chamada de morada do sol.

De segunda a sexta ele saía do técnico e ia pra faculdade, rotina um tanto quanto puxada, mas as sextas eram especialmente tranquilas, já que só 80 minutos de viagem e a aula de Experimental A (leia 4hs numa bancada de laboratório) o separava da tão amada sexta à noite, mas não hoje.

Não hoje.

São 120 metros entre o ponto de pegar a van pra faculdade e o salgado que ele comia, todas as tardes, entre uma porrada de aula e outra. Geralmente o caminho é monótono e chato: ter aula é suave, o que mata é o tempo na van e todo mundo que ia de van concorda com isso, mas naquela sexta a tarde o tempo parou, inexplicavelmente, em algum ponto do caminho dele.

O cérebro humano leva cerca de um quinto de segundo pra se apaixonar, mas eu sinceramente aposto em menos. Ela tinha um get back stare digno da letra de Are you gonna be my girl e tudo o que ele mais quis naquele momento foi ser o garoto dela de alguma forma, em alguma realidade. Era o amor da vida dele, ali, do outro lado da rua, de alguma forma ele simplesmente soube, tava na cara dele: era ímpar, nunca sentiu nada como aquilo, não naquela magnitude, um choque, o tempo seguia devagar e toda coragem de nosso herói se resumiu em atravessar a rua para o lado dela, passar em frente à garota e atravessar de volta pra “seguir seu caminho” assim que o semáforo permitiu.

Seguir o caminho aparece propositalmente entre aspas porque pra ele, seguir o caminho era estar do lado dela, e isso era questão de vida ou morte agora.

Entrou na van pra faculdade e era só ela, riu, brincou, falou dela pros amigos a aula toda, foi zoado pela paixonite e começou uma odisseia: Os próximos dias foram de busca, em todos os perfis de amigos, em todas as redes sociais que tinha, pelas ruas, imaginando se naquele dia iria vê-la de novo, perguntando pra quem quer que fosse: era Scott Pilgrim e ela Ramona Flowers, tudo o que tinha era um punhado de amigos e uma descrição vazia da moça de vermelho. Não vou me estender nos pormenores aqui, não teve notícia, ela se foi com tudo o que ele tinha. Nem sinal da gata.

Em junho vieram as festas juninas e num sábado (precisamente oito de junho) foi com uns amigos, estavam em uns dez. A festa junina do interior do estado de São Paulo tem um jeito diferente de arrancar seu dinheiro, a cerveja estupidamente gelada chega a ser difícil de tomar visto que sempre está frio nessa época, o que te faz misturar cerveja e quentão ou vinho quente, pra espantar o frio entre uma quadrilha e outra, fazer descer o pastel de feira frito por alguma beata, te acalentar ao pé da fogueira. Mas não hoje.

Não hoje.

Novamente o tempo para. Fazia tempo que não tinha aquela sensação, desde que viu ela pela primeira vez, e, como num filme dos anos 80, a multidão se abre devagar… Sentada num banco estava quem? Ela mesma. Maravilhosamente linda com os olhos castanhos escuros mais maravilhosos que ele já viu, estrategicamente posicionados no rosto mais bonito que ele já viu, acompanhados do corpo mais fantástico que os olhos dele já tiveram o prazer de contemplar em seu campo de visão. A roupa vermelha saiu pra dar lugar a uma calça camuflada perigosamente justa e desleal. Todas as meninas presentes perderam a graça instantaneamente:

Your love is like a studded leather headlock

Your kiss it could put creases in the rain

You’re rarer than a can of Dandelion

And Burdock

And those other girls

Are just postmix lemonade

Juntou o time, apontou a moça e toda galera concordou: quando ele a descreveu contando as palavras pra usar os adjetivos mais preciosos possíveis, não mentiu. Ela era tudo isso mesmo, tudo isso e ainda mais. Uma das amigas com ele conhecia a moça, mas daquele jeito né? Conhecia de longe, nunca tinha conversado, disse que ela namorava e que era bom ficar meio longe por enquanto. Se contentou em descobrir o nome, adicionar em meia dúzia de redes sociais e esperar, pacientemente, que ela terminasse o namoro com quem quer que fosse.

Mais tempo passa, mais moças, rolos, aulas, ela solteira, ele esperançoso. Tentou contato com ela algumas vezes online, não conseguiu liga, é especialmente difícil conversar com alguém que você considera uma deusa grega, acontece, mas é pra isso que servem os amigos.

Em algum momento ali por julho (4 meses de penumbra desde que viu a moça) o melhor amigo dele deu um jeito: chamou a moça, conversou pela madrugada, apresentou os dois em uma quinta feira a tarde já com um apelido pra ela: Cherry. Combinava com os cabelos vermelhos que ela tinha na época, combinava com o fato de que tudo aquilo que é doce e especial tem uma cereja em cima, de bolos a milk-shakes, de milk-shakes a histórias de amor.

Saíram pela primeira vez no dia 21/07/2013, em quatro, ele, ela e dois amigos. O tempo passa rápido quando a gente se diverte, ficaram amigos ali, ela viu que se der corda o papo dele era interessante e daí pra frente era todo o fim de semana, as vezes na casa de um, as vezes na casa do outro, as vezes pela rua. Daquele amor surgiu um respeito muito grande entre os dois, até o momento cada um do seu lado, cada um com seus rolinhos, casais, problemas, mas sempre juntos.

Adolescência traz consigo uma inexperiência misturada com afobação que é difícil de lidar. Você confunde coisas, toma algumas atitudes meio merdas, faz coisas difíceis de controlar, mas que no fim, são as que mais te ensinam, e dá saudade delas depois, de quando todos os seus erros se resumiam a coisas que agora você sabe como funcionam, aquela vontade de voltar pro passado e dar aulas e conselhos pro seu eu juvenil.

É claro que ele se declarou pra moça por mensagem, é claro que tomou um fora tanto quanto é claro que ela sumiu depois do fora dado, mas “Como levar um fora” e “Como levar sua vida depois” são assunto pra outros textos, isso acontece diariamente e nada de novo sob o sol, mas nossa história vai ignorar alguns acontecimentos e detalhes pelo mero fato de que eu, como escritor, quis assim. Houve outras histórias de amor dos dois lados, outros nomes, outros acontecimentos, a vida não cabe em sua totalidade em um texto assim como seria inútil tentar abraçar tudo e contar todas as histórias de uma só vez. Segue o baile.

Pessoas se afastam e pessoas voltam, eles voltaram, mas disso você já sabia, senão isso tudo seria uma história de amor. Foram melhores amigos durante todo tempo, viajaram juntos, enfrentaram algumas pressões, até que saiu o beijo no fim de 2015, e essa parte merece foco mais que especial.

Em setembro de 2015 ele já era figura mais que fácil na casa dela, já conhecia a família toda, eram íntimos. Ele vinha de um término onde terminar foi a melhor escolha possível, e vinha pintando um clima entre eles. Geralmente eles ficavam juntos até tarde, viam filme, conversavam, bebiam, mas bem… Não hoje.

Não hoje.

Aqui o caro leitor já conhece o padrão que acompanha todos os momentos cruciais da minha vida, do primeiro beijo ao primeiro tombo de moto. Do primeiro solo de guitarra em frente ao publico ao primeiro beijo na mulher da minha vida, na data aproximada de 02/10/2015.

O tempo parou.

A técnica dos 80–20 era piada pra distancia entre eles naquele momento. Pra ele, ela é alguém mais que tudo. Alguém que ele soube que era importantíssima desde que colocou os olhos nela literalmente, e num segundo de vacilação dele (que deve ter parecido um dia pra ela) o beijo. Partiu dela, com uma certeza que só ela tinha. Era obvio que ele tava na dela, mas não era tão óbvio pra ele que ela também estava, dali pra frente eu durmo todas as noites sob um céu estralado que começou lá atrás, com o big-bang do meu coração numa tarde se sexta-feira, em abril de 2013.

Obs.:

1) O dia 27/07/13 merece uma menção honrosa. Estávamos na casa de um amigo meu pra uma noite de videogame, ela decidiu não virar a noite com a gente e fui levar ela a pé pra casa, depois voltei pros jogos. Foi o dia da minha vida em que mais gente perguntou se a gente tinha se beijado pelo caminho.

2) O segundo dia que mais me perguntaram se a gente tinha se beijado foi no réveillon de 2014 pra 2015. Ela de vestido rosa e eu de camisa branca: é uma das fotos nossas que ela tem pelo quarto.

A trilha

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