Fonte: Natalie Shau

A ULTIMA GOTA — ARCO 1: A ESPERANÇA PODE SER TEIMOSA

A.1.Capítulo III: Isto Não é Um Conto de Fadas

Brasil, Litoral Paulista, Cidade de Águas Rasas. Tempos atuais. Manhã de sábado num motel no centro da cidade.

Este é um romance de ficção com elementos de fantasia, para maiores de 18 anos. Pode conter cenas fortes. Clique para: ir ao índice; ou introdução da obra.

Lucia se esticou toda antes de abrir os olhos. Por um segundo, sua mente estava completamente perdida. Assustada. Amedrontada. Então se deu conta de que fora um pesadelo. Um estranho pesadelo do qual não se recordava de nada. Apenas da sensação de ser perseguida.

E do medo.

Seu coração ainda batia forte no peito.

Piscou mais duas vezes e encheu os pulmões de ar. Reconheceu o quarto que lhe cercava e a tranquilidade voltou. Estava numa cama grande, de motel. E estava nua. E sozinha.

- Pedro…? — a voz saiu rouca, arranhada.

Limpou a garganta, afastou o lençol e tentou outra vez.

- Pedro?

Não obteve resposta. Sentou-se na cama, com a sensação de ouvir o barulho do chuveiro, mas algo a incomodou.

Entre suas pernas.

Apoiou-se numa das nádegas e passou a mão entre as coxas. Sentiu algo estranho. Viscoso.

- Não creio… — seu sussurro foi um misto de pânico e ódio.

Será que…?

Ela puxou a mão e cheirou.

Esperma.

Eu lembro perfeitamente de ter colocado a camisinha nele. Será que…?

Lucia se levantou num salto, como um gato que toma um susto. Agarrou o lençol da cama e passou entre as suas pernas, removendo o máximo que podia. Estava espalhado por entre suas coxas, na vagina e até mesmo no seu cu.

- Filho da… — Lucia ficou congelada, durante uns segundos, assim que terminou de se limpar (da melhor maneira que podia). Percebeu que o esperma não estava seco. O que quer que acontecera com ela, foi recente.

Ela vestiu a calcinha. O coração batendo feito bateria de escola de samba… Não, não era esse tipo de euforia. Não era um carnaval. Ou era? Seu peito estava descompassado. Desritmado. Alucinado. Como o som intimidador de um tambor de guerra. Como estouros na favela, quando não se sabe diferenciar fogos-de-artifício de fuzis e metralhadoras.

A calça jeans foi colocada num salto. Desajeitadamente calçou as sandálias ao mesmo tempo em que vestia sua blusa.

O ruído do chuveiro cessara.

Lucia se precipitou à frente, agarrou a bolsa e caiu.

- Merda…

As alças da sandália se entrelaçaram nos dedos. Meio sentada e meio deitada, ajustou as sandálias e levantou num pulo.

- Lucia…? — a voz de Pedro saiu leve do banheiro. Soou cheia de expectativas. — Lucia? Acordou?

Ela já tinha passado pela porta do banheiro, girando o corpo para descer a escada. Foi quando viu seu celular reluzindo no chão, ao pé da cama.

- Puta merda… — provavelmente caíra da sua bolsa quando tropeçara.

Ela voltou, em saltos. Pegou o celular e o desbloqueou no mesmo instante. Foi nas ultimas chamadas, e discou para o Rodrigo.

Atende Rô. Pelo amor de Deus, atende!!!

- E aê gata, pronta para mais… Lucia?

Lucia sentiu todo o sangue se esvair do corpo. Girou, ficando de frente para um Pedro nu, que secava os cabelos castanhos.

- Quê isso gata? Tá fugindo de quem?

O filho da puta ainda tem as manhas de ficar com esse sorriso cínico…

- Sai da minha frente.

- Gata… o que tá havendo? — Pedro deixou a toalha nos ombros e se aproximou com as mãos erguidas em sinal de rendição. O sorriso nos lábios.

- Pedro, é sério. Sai. Da minha. Frente.

- Só quando você me explicar o que está… Urgh!

Lucia deu uma joelhada entre as pernas dele. O rapaz prostrou-se ajoelhado, as mãos em concha entre as coxas.

Lucia não hesitou. A despeito do pavor que a dominava.

Agarrou a cabeça do rapaz e bateu o rosto dele duas vezes na parede. Depois desceu as escadas correndo, a bolsa ameaçando cair do seu ombro.

Alcançou a porta e…

Trancada.

Claro! A porra da chave!

Pegou o celular da bolsa, e constatou que sua chamada não foi atendida. Discou outra vez para o Rodrigo enquanto foi para o interfone. Espiou a etiqueta colada no aparelho e discou 1 para falar com a recepção.

- Pois não…?

- Oi, estou com uma emergência. Perdemos a chave da suíte e eu preciso sair, é uma emergência.

- Desliga essa merda Lucia! — a voz de Pedro veio do pavimento superior. O rapaz não demoraria para se recuperar. E estava enfurecido.

- Qual a suíte senhora?

- É… Vinte e… — Lucia deu tapinhas na cabeça, na vã tentativa de lembrar.

- Lucia! Desliga essa merda! Não vou falar de novo… — Pedro descia as escadas.

- Algum problema senhora? — o tom de voz do rapaz que estava no outro lado da linha mudou. Ficou tenso. Com sorte, estaria preocupado.

- Sim! Precisamos ir embora! É urgente!

- Entendo senhora, mas qual o número da suíte?

- VINTE E SEIS!!! — Lucia lembrou num estalo.

- Lucia… — chamou Pedro, sua voz rouca soava ameaçadora.

Ela, num instinto sem sentido de sobrevivência, deu as costas para o rapaz, encolhendo-se contra a parede e apertando com força o interfone. Sentiu as mãos pesadas dele apertando seus ombros e forçando-a a se virar.

- Quero falar com você, Lucia. Só isso… Está tudo bem. Shiii

Lucia começou a soluçar. As lágrimas descendo pelas bochechas redondas.

- Olha para mim Lu… — o aperto ficou mais firme, forçando-a a se virar, mas ela ainda resistia. — OLHA PARA MIM!!

Num puxão, Pedro virou Lucia com toda a confiança que sua força e seu ódio lhe davam.

Lucia fez a única coisa que achava possível. Aproveitou o impulso de Pedro e girou o interfone como se fosse um bastão. O objeto explodiu no rosto do rapaz, espalhando teclas e pedacinhos de plástico e de circuito para todos os lados.

Ele recuou dois passos com as mãos erguidas para se proteger. Recuou mais pelo susto do que pela dor.

Lucia correu para a porta, esmurrando-a e gritando. Voltou-se para Pedro.

- Sua puta… Ah, sua puta de merda… Qual o seu problema, porra?

E agora? Deus! E agora?

Lucia estava encolhida contra a porta, chorando compulsivamente. Então ouviu um ruído sair da bolsa.

No instante em que Pedro a alcançou, envolvendo seu pescoço num aperto forte, Lucia pegou o celular dentro da bolsa e pôs no viva voz.

- Lucia? Alô! Lucia, tudo bem? Está aí?

- Rodrigo! Socorr…

- Lucia? Lucia! O que está havendo? Onde você está?

Pedro tapou a boca dela com uma mão, enquanto a outra ainda a enforcava. Então aproximou a boca bem próxima do ouvido dela.

- Shiiiu… Qual é gata? Você me enche de porrada, do nada, e ainda acha que tá certa?

Então surgiu um ruído metálico na porta, e ela foi aberta num rompante.

Os dois perderam o equilíbrio e se esparramaram na soleira.

Ela, vestida, coberta de lágrimas e medo.

Ele, nu, o rosto sangrando, a confiança e o ódio lhe envolvendo numa aura de violência.

- Solta ela rapá! — o rapaz barrigudo da recepção segurava um pedaço de madeira. — Qual é a tua moleque?

- Calma cara, relaxa — Pedro tentava se levantar erguendo as mãos, em sinal de inocência. Ou rendição. Rapidamente seu semblante se transformou em súplica.

O rapaz da recepção estudou Lucia (que se levantava e erguia o celular) e Pedro (com o rosto ensanguentado, provavelmente o nariz quebrado).

- LUCIA! O QUE ESTÁ HAVENDO?

- Rodrigo — respondeu ela, após respirar fundo — Agora está tudo bem. Um rapaz me ajudou. Estou num motel, no centro. Pelo amor de Deus Rodrigo, vem me buscar.

Nota do Autor: este projeto trata-se de uma obra de ficção, de modo que as opiniões das personagens não refletem, obrigatoriamente, a opinião do autor.
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