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Capítulo VII: Desamparo

Brasil, Litoral Paulista, Cidade de Águas Rasas. Tempos atuais.

Este é um romance de ficção com elementos de fantasia, para maiores de 18 anos. Pode conter cenas fortes. Clique para: ir ao índice; ou introdução da obra.

Chegaram ao apartamento por volta das 11:00 da manhã. Carla optou (contra a sua vontade) por aproveitar a carona e ficar na sua casa.

- Vou preparar algo para a gente comer — disse Rodrigo, largando as chaves no móvel da TV. — Alguma preferência?

- Não… — Lucia foi direto para o quarto. — Pode fazer qualquer coisa. Vou deitar um pouco.

- Tudo bem — Rodrigo foi para a cozinha. — Te chamo assim que ficar pronto.

Ele procurou nos armários da despensa, sob a pia, e achou um pacote de macarrão. Abriu o congelador: precisavam fazer uma visita ao açougue.

Apanhou duas panelas no armário, acima da pia, e uma colher e um garfo comprido numa gaveta. E sal.

- Macarrão a alho e óleo — disse, percorrendo os olhos pela cozinha. Foi até a fruteira na mesa redonda de jantar. — Aqui o alho… Falta o óleo, claro. — Abaixou na dispensa novamente, pegando um frasco de óleo de soja.

Deixou tudo organizado na pia, então parou. Abriu a geladeira e pegou uma lata de cerveja.

Virou longos goles.

- Merda… — a bebida não estava gelada. Colocou quatro latas no congelador.

Deixou a água fervendo na panela e foi para o quarto, tirar a roupa social e por um short.

O curto corredor do apartamento saía do canto da sala de estar e era flanqueado por três portas: à direita o quarto da Lucia, à esquerda o banheiro e no meio o seu quarto. Todas as portas estavam abertas.

Rodrigo entrou no seu quarto, desvencilhou-se da calça e da camisa social, vestiu um short vermelho e ficou descalço. Sua mente ainda não processara tudo o que aconteceu naquela manhã.

Parou na porta do quarto de Lucia. Ela estava encolhida na cama, tirara apenas as sandálias. Soluçava baixinho, num esforço inútil de abafar o choro.

- Lu, vou fazer macarrão a alho e óleo, tudo bem? — precisou de todo o seu controle para não consolá-la. Ela, claramente, não queria tratar do assunto. Ainda não.

- Aham…

- Por que não vai tomar um banho, enquanto isso?

- Aham…

Rodrigo voltou para a cozinha. Espremeu o alho na segunda panela. O macarrão já estava se soltando, então precisava ser rápido.

Parou, pensando em como poderia melhorar a refeição.

- Vamos de ovo… Cozido ou mexido? — pegou seis ovos na geladeira, e avistou uns tomates. — Vamos incrementar esse macarrão…

Como se fosse uma sonâmbula, Lucia foi até o banheiro (deixando a porta aberta), tirou suas roupas, entrou debaixo do chuveiro e girou o registro, despejando uma forte coluna d’água sobre sua cabeça.

Antes de lavar o cabelo, pegou sua macia esponja de banho. Espalhou o sabonete líquido e esfregou o corpo inteiro. A primeira parte a ser lavada foi entre suas pernas. Passou uma, duas, três vezes.

Só então começou a lavar o cabelo. E percebeu que ainda chorava. As lágrimas lhe banhavam, e, de algum modo, ela se viu sentada, ainda se esfregando, na ânsia de lavar sua própria alma e sua mente. O que mais lhe angustiava era não saber, exatamente, o que acontecera.

Não fazia ideia de quanto tempo estava ali, recebendo a água nas costas.

Os fios negros caiam-lhe sobre o rosto, barrando sua visão. O mundo era escuro.

Escuro e desolador.

Repentinamente, notou que não chorava mais.

- Cansei de ser a vítima… — resmungou. — Devia ter feito um B.O…

Mas não fiz. Então foda-se… Foi a ultima vez.

Lembrou-se que já tinha feito aquela promessa antes. Vai ser a ultima vez. E sorriu, contendo uma risada histérica. As memórias pipocaram na sua mente, e tudo o que queria era sua antiga vida de volta.

Mas não imaginava sua vida sem Rodrigo.

Não mais…

Ou imaginava?

- Lucia! — a voz dele invadiu seus pensamentos, como se respondesse à pergunta que acabara de fazer. — A comida está pronta!

- Estou acabando o banho! Já estou indo! — sua voz lhe surpreendeu. Soou forte e segura, como sempre fora (ou quase sempre). Por um momento duvidou dos acontecimentos recentes.

Levantou-se, pegou o shampoo e massageou os cabelos.

Na verdade, ela não estava com paciência para o seu cabelo. Deveria aplicar ainda mais um produto, e deixa-lo fazer efeito, mas resolveu sair do banho e se enxugar.

O calor de Dezembro era terrível, e Lucia entrou no seu pijama preto — um conjuntinho simples de short e regata, sem estampas. Enrolou a toalha no cabelo e saiu do banheiro.

- Está ótimo — ela atacava a comida com a voracidade de um faminto.

- Está mesmo — Rodrigo abriu mais uma latinha de cerveja. — Hum… Se você gostou, posso fazer sempre assim. O tomate e o ovo mexido fizeram toda a diferença.

- Fizeram mesmo. Posso te pedir outro favor?

- Fala.

- Pega uma cerveja pra mim.

- Estive pensando… — Rodrigo foi até o congelador. — Tem bastante filme legal no cinema. Principalmente de super-heróis, que você tanto gosta. Toma.

- Obrigada — o som da latinha sendo aberta preencheu a cozinha. Lucia virou dois longos goles. — Gostava.

- Gostava? Não gosta mais?

- Até gosto… Hum… Esse macarrão está muito bom, Rô!

- Gosta ou não gosta? Pensei que podíamos dar uma volta. Um cinema e depois comer um sanduiche, sei lá…

- Eu gosto, mas faz tempo que não me ligo mais nisso — Lucia deu de ombros. — Assistia mais por causa dos meus irmãos.

- Lucia.

- Oi?

- Você mente muito mau — Rodrigo forçou um sorriso. Ele sabia o que estava havendo. Negação. Lucia se comportava como se estivesse tudo bem. Isso o preocupava, mas não sabia como ajuda-la, então seguiria as regras dela.

- Já falamos sobre isso, Rô. Não sei se ainda estou pronta pra voltar aos velhos hábitos. Acho que nunca vou voltar.

- Não precisa… É só que… — Rodrigo engoliu a última porção de macarrão que havia no seu prato e tomou um gole da cerveja, depois se esforçou (e rezou) para sua voz soar sem julgamentos. — Você pode voltar a fazer o que gosta. Não precisa se sentir culpada. Aliás, você já fala dos seus irmãos com certa tranquilidade.

- Eu sei…

- Então, aposto que eles gostariam de saber que você manteve com as atividades que fazia com eles. Ler gibis…

- HQs.

- Mesma merda. Ver filmes, e jogar videogame. Aliás, tá aí outra coisa para fazer hoje à noite: em vez de cinema, podemos pedir comida e jogar alguma coisa.

Lucia fez uma careta.

- Não está com vontade de jogar nada?

- Vamos fazer o seguinte — Lucia tomou mais um pouco de sua cerveja. — Você pega mais macarrão pra mim e eu prometo que penso no assunto.

- Você diz que não sabe se volta aos antigos hábitos — Rodrigo colocava mais um pouco de comida no prato dela. — Mas você sabe que é mentira. A prova disso é que você lê todo tipo de artigo e matérias. Tudo relacionado ao universo dos seus irmãos. Toma.

- Obrigada. Estou fazendo jornalismo, leio como maneira de ter um repertório.

- Certo! — Rodrigo bebeu sua cerveja e se apoiou na pia, rindo. — Você não desisti de tentar mentir?

- Hã-hã…

Lucia continuou comendo, enquanto Rodrigo a olhava com a atenção de um pai orgulhoso. Ou de uma pessoa apaixonada que contempla…

- Pare com isso — disse ela, após terminar o macarrão.

- Com o quê?

- De me olhar desse jeito.

- Não estou olhando de jeito nenh…

- Com pena. Eu te conheço Rodrigo, e não gosto quando você faz isso.

- Juro que não foi a inten…

- Não preciso da sua pena! — por um momento, a alma de Lucia revelou todo o desespero que a dilacerava.

- Lucia — Rodrigo se aproximou, sentando e apoiando os cotovelos na mesa. Agarrou uma das mãos dela. — Eu nunca te ofereci pena, sabe disso. Eu fiquei com você e cuidei de você por opção.

Lucia estreitou os olhos. Puxou a mão e sorriu sem alegria.

- Você mente mau, Rodrigo — a voz saiu mais esganiçada do que gostaria.

- Tudo bem… — ele deu de ombros. — Você sabe a verdade. Fiz uma promessa ao seu pai. Mas agora? Depois de dois anos? Eu estou do seu lado, continuo do seu lado, porque eu te amo garota. Pode apostar. Você não vai se ver livre de mim.

Lucia mirou os olhos castanhos nele, num esforço visível para conter as lágrimas. Não estava tão sozinha, afinal…

- Rô…

- Espero que acredite em mim. — ele sustentou o olhar de Lucia com uma seriedade absoluta.

- Eu acredito… — Lucia retirou os pratos e talheres da mesa — Obrigada.

- Deixa que eu lavo a louça, vai descansar — Rodrigo beijou a testa dela. — Quando acordar, espero ter uma resposta do que vai querer fazer: cinema, ou ficar em casa.

- Só temos essas duas opções? Não estou a fim de jogar nada.

- Podemos ver séries então. O que acha?

- Boa… Então acho que hoje à noite você vai comer minha pipoca com muita manteiga e vamos colocar nossas séries em dia. Resolvido?

- Resolvido

- Então vou deitar um pouco.

Nota do Autor: este projeto trata-se de uma obra de ficção, de modo que as opiniões das personagens não refletem, obrigatoriamente, a opinião do autor.
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