Fonte: Muddy Colors

A ULTIMA GOTA — ARCO 1: A ESPERANÇA PODE SER TEIMOSA

A.1.Capítulo X: Seguindo em Frente

Brasil, Litoral Paulista, Cidade de Águas Rasas. Tempos atuais.

Este é um romance de ficção com elementos de fantasia, para maiores de 18 anos. Pode conter cenas fortes. Clique para: ir ao índice; ou introdução da obra.

Dezembro avançava causando estranhas sensações em Lucia. Ansiedade. Melancolia. Euforia. Ansiedade. Dúvidas. Esperanças. Ansiedade. Medo. Ansiedade.

O estágio não era o suficiente para ocupar sua mente: nem completara um mês e o tédio já lhe dava um abraço bem apertado. As matérias produzidas no site do jornal Agenda de Águas Rasas não eram o que Lucia esperava. Iniciaria o segundo ano do curso de jornalismo no ano seguinte, e sabia que tivera sorte (será?) em conseguir aquele estágio tão rapidamente.

No entanto, montar matérias sobre a situação do comércio local no final de ano, ou sobre os enfeites natalinos; ou ainda, dando dicas sobre como decorar a casa, dar presentes e preparar ceias sem gastar muito (como se faz tudo isso sem gastar muito?). Não… Nada disso era de seu gosto.

Mas, por enquanto, era isso que tinha que fazer. Na verdade, Renato lhe mostrava onde procurar algumas informações. Então, primeiro, ela deveria levantar alguns números, fazer um relatório resumido e então Renato olharia aquilo e organizaria o texto. No entanto… Ele mais revisava do que qualquer outra coisa. Lucia deixava tudo mastigado para ele.

Também não havia trabalho de campo naquele estágio. Ela sentia falta disso.

Aquilo era muito desanimador. Lucia almejava participar de feiras, eventos, entrevistas, conhecer pessoas… Mas, claro, ela era só uma estagiária que ainda iria começar o segundo ano do curso. A imagem de Rodrigo surgiu em sua mente: “Paciência Lucia, ainda há muito caminho pela frente. Controle sua ansiedade, você ainda nem começou”.

Na entrevista houve a pergunta sobre quais áreas gostaria de trabalhar. Ela não hesitou em responder “entretenimento”. Gostava de séries, cinema, livros e games. Isso soou estranho para o entrevistador. Estava acostumada. Então ouviu: “Todo mundo quer falar sobre isso, principalmente os jovens”, dissera o homem barbudo. E forçou: “O que mais te interessa?”.

Lucia se lembrava do nervosismo que a invadiu durante a entrevista. Seu blog pessoal — pessimamente administrado por ela, diga-se de passagem — era só sobre isso. Sobre entretenimento. O blog que ninguém lia, além de seus amigos, talvez…

Mas também havia outras coisas que lhe interessavam. Sabendo que a vaga de estágio estava escapando, Lucia respondeu: “Tenho interesse pelo jornalismo investigativo”. Aquilo surpreendeu o homem, que a encarou do outro lado da mesa com curiosidade renovada. “Tem algo para me mostrar sobre isso? Algum ensaio, opinião sobre profissionais da área? Qualquer coisa?”

Fodeu.

Ela não tinha a menor ideia sobre o que falar. Só sabia que sua vontade de fazer jornalismo nasceu da necessidade em descobrir o motivo de sua família ter sido destroçada. Descobrir a razão de ter sido arremessada num furacão de violência e terrorismo. Já tinha ouvido falar (ou lido em algum lugar) sobre o tal do “jornalismo investigativo”. Abriu a boca para falar, então sua mente lhe trouxe uma informação de última hora.

A imagem do seu professor Renato, durante a aula de Jornalismo no Rádio e na TV, comentando um assunto que nada tinha a ver com a disciplina. Renato, além de lecionar todas as terças-feiras, também era um dos jornalistas responsáveis pelo caderno de economia do jornal Agenda de Águas Rasas e tinha um programa na rádio local, todas as manhãs, de segunda a sexta. E foi ele que lhe indicara a vaga.

- Tem quem acredite que esse termo é só mais um nome bonitinho para os orgulhosos que se consideram mais importantes por fazer o tal do jornalismo sério — os dedos dela fizeram um sinal de aspas no ar. — Eu penso que, independentemente do assunto, todo o jornalismo tem que ser sério. Pois a função social da nossa profissão é informar a sociedade da maneira mais imparcial e completa possível.

Soltara as palavras num instante só. Depois, quando terminou a entrevista, ela se surpreendeu com a velocidade com que achara uma resposta. Por mais clichê que fosse…

Mas aquelas palavras lhe garantiram a vaga.

Mesmo Lucia não acreditando (muito) nelas.

E assim dezembro se arrastava.

Os dias se repetiam.

As semanas passavam.

E o celular da Lucia apitava constantemente.

Luana perguntando o que havia acontecido. Flavia querendo saber por que ela estava tão sumida. Vitor compartilhando alguma informação qualquer. E Lucia não se manifestando. Até que Flavia mandou um áudio extenso.

- Escuta aqui, amiga, não ouse me responder com uma mensagem dizendo que está tudo bem. Pois não acredito nisso, não! Queria contar umas coisas pra você e pra Luana, mas você sumiu! Bem, pra Luana já contei, agora falta você né… Isso se estiver viva. Dá sinal de vida, Lu! Não nos falamos desde o ultimo dia de aula. O que houve? O Gustavo me mandou uma mensagem, falando que cruza com você aí no estágio, as vezes. Ele me disse que você está estranha, calada. Te viu chorando na copa, umas duas vezes. Lucia, o que está havendo? Luana está pirando, me mandando mensagem sem parar. Sem falar que você deletou as fotos do Pedro no Face e no Insta. O que houve? Sério, amiga, fala com a gente. Sério mesmo, pois a Luana está quase indo tirar satisfações com o Pedro, e sabemos que isso não vai prestar. Vocês terminaram, certo? Claro que foi isso… Desabafa com a gente! Bom… Já falei demais. Beijos, Lu!

Lucia ouviu aquele áudio quando já era 11:50. Tinha acabado de almoçar e descia as escadas do prédio. Estava atrasada para o estágio.

Não se preocupou em responder. Pegou sua bicicleta num canto da garagem do térreo e saiu pelo portão.

Realmente, sentia falta de suas amigas, mas algo a bloqueava. Não queria vê-las. Não ainda. Não queria explicar para ninguém porque terminara o namoro com Pedro. Podia mentir, é claro, mas não estava disposta a isso.

Precisava apenas de um tempo. Um tempo longe de todos. Infelizmente (ou não, pois não conseguia se decidir), não conseguia dar um tempo do Rodrigo. Ele sempre estava por perto. Seja de dia, com seus áudios e mensagens, ou à noite, preparando café para eles e conversando sobre seu trabalho. Ele estava até mesmo jogando vídeo game. Tudo para distraí-la.

Pegou-se sorrindo.

Então notou que estava na calçada, andando vagarosamente, com a bicicleta ao lado do corpo. Montou nela. Conferiu se a carteira, o celular e a chave estavam nos bolsos da calça e iniciou sua pedalada para o estágio.

- Lucia!

Caiu da bicicleta.

Levantou-se num salto, tentando se recuperar do susto. Virou-se com olhos arregalados para encarar um Pedro esbaforido e agitado.

- Lucia, precisamos conversar.

- Não temos nada para conversar.

- Temos muita coisa para conversar.

- Vai embora.

- Só depois que você me ouvir.

- Vai embora!

- Eu não fiz nada! — soltou Pedro. — Juro! Foi só uma brincadeira. Não forcei nada, sério Lucia. Você tem que acreditar em mim.

Lucia ficou muda. Todo o seu espírito estava num esforço colossal para continuar inteiro. Queria gritar, feito louca, no meio da rua. Queria arrebentar a cara dele (de novo). Queria sair correndo. Mas, acima de tudo, queria rir.

Apenas rir.

Talvez de desespero. Ou do absurdo que era tudo aquilo.

- Presta atenção — disse Pedro, andando na direção dela.

Lucia recuou, deixando a bicicleta entre eles. Seus olhos estavam dilatados. Suor descendo pela testa. O coração num descompasso só.

- Não vou te fazer mal. Qual é gata?

- Cala a boca. Não me chame de gata. Vai embora.

- Eu vou. Juro que vou. Mas você precisa acreditar em mim. Eu não fiz nada. Juro. Nada. Nunca te forçaria a nada.

Lucia mirou os olhos em Pedro. O rapaz estava todo de social, provavelmente saiu do seu estágio para falar com ela. Transpirava horrores e seu semblante estava distorcido, como se sentisse dor. Ele passou as mãos nos cabelos curtos, umedeceu os lábios e tentou de novo, dando mais dois passos em sua direção.

- Lucia, qual é meu? Por que eu faria uma coisa dessas? Você tem ideia do que você está me acusando?

Ela se retesou. Teve a sensação de ouvir uma ameaça nas últimas palavras. De repente, um pavor a dominou. E se ele a sequestrasse? E se a atacasse? Ela buscou o porteiro que, sentado na guarita, espichava o pescoço olhando desconfiado para Pedro.

Durante a semana, próximo do meio-dia, sua rua ficava (quase) deserta. Mesmo assim teve medo.

- Lucia, eu só quero que você saiba… E que não faça uma besteira. Aquilo que você disse pros policiais e pro Rodrigo… Lucia, eu não te estuprei.

E o que isso significa? Ele acha que isso resolve tudo?

- Lucia…

- Dê mais um passo e eu juro que grito aqui, no meio da rua. E desta vez eu faço um B.O.

- Desta vez? — Pedro não avançou mais. — Então quer dizer que você não fez nada?

- Já se passou duas semanas, seu covarde. Se eu tivesse feito algo, você já saberia.

Um alívio imediato caiu sobre Pedro, que não conseguiu evitar um sorriso.

- Poxa Lucia, ainda bem que…

- Você está pouco se fodendo comigo, né? Está é preocupado com sua reputação. Com seus pais. Com sua vidinha egoísta.

- Claro que não.

- Não se aproxima! Seu monte de lixo!!!

- Calma, calma…

- Você diz que não me estuprou, então o que você fez? Eu acordei toda suja… O que você fez, Pedro? O que você fez?

- Nada… Eu só… — Pedro desviou os olhos, envergonhado. — Foi só uma brincadeira! Eu já disse. Você estava toda gostosa, deitada lá, e eu resolvi me divertir um pouco.

- Você resolveu se divertir um pouco? — agora Lucia berrava. — Deixa eu ver se eu entendi: você resolveu brincar com o meu corpo. Sem eu saber? É isso mesmo, Pedro? E isso não é nada, pra você?

- Calma, gata! Shiiiiu! Não foi nada de mais, Lu. Você sabe disso. Qual é?

- Não me chame de Lu, nem de gata… Aliás, despois de hoje, de agora, não ouse, nunca mais, falar comigo! Entendeu?

- Está me ameaçando?

Lucia viu os olhos de Pedro brilharem. Ele estufou o peito e venceu a distância entre eles com dois passos rápidos. Agarrou a bicicleta com força, mencionando arremessar o objeto longe (o único obstáculo entre eles).

- Está me ameaçando, Lucia?

Lucia sentiu suas pernas vacilarem e os dentes chocaram-se entre si. Um filme passou na sua mente. Pessoas invadindo sua casa. Seu pai sendo baleado. Seus irmãos gritando e chorando. Rodrigo aparecendo com um reforço policial, rechaçando os bandidos. Tiros. Gritos. Choro. Sangue. E morte…

E, de algum lugar, lhe veio a promessa que fez para si.

Vai ser a ultima vez. Não recuarei de novo. Não recuarei nunca mais!

Seus olhos queimaram.

Sua boca crispou-se.

E, num impulso inexplicável, sua mão lançou-se à frente. Um som alto estalou após sua palma chocar-se com a bochecha do rapaz.

- É a ultima vez que eu repito — sussurrou Lucia, o dedo em riste no rosto dele. — Não ouse se aproximar de mim. Finja que eu nunca existi, vai ser melhor para você.

Lucia aproveitou o efeito de sua reação sobre Pedro e puxou a bicicleta, subindo nela.

Precisou de toda a sua força de vontade para pedalar num ritmo “natural”, deixando para trás um Pedro estupefato e em estado de choque. Desta vez os blefes e a imponência do rapaz não funcionaram.

Mas Lucia sentia as mãos geladas e os lábios tremerem.

Lágrimas riscaram suas bochechas.

Sorriu, sentindo o sabor levemente salgado de sua vitória.

Nota do Autor: este projeto trata-se de uma obra de ficção, de modo que as opiniões das personagens não refletem, obrigatoriamente, a opinião do autor.
Fiquem a vontade para comentar sobre o trabalho (por favor, respeito!). Se preferir, mande e-mail para: contato.ultimagota@gmail.com.
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