
A ULTIMA GOTA — ARCO 1: A ESPERANÇA PODE SER TEIMOSA
A.1.Prelúdio
Interior do Brasil, Colônia Portuguesa, 1708 D.C.
Este é um romance de ficção com elementos de fantasia, para maiores de 18 anos. Pode conter cenas fortes. Clique para: ir ao índice; ou introdução da obra.
Agora não havia muito que fazer. Conseguira se rastejar o mais distante possível, se escondendo no meio da mata. Mas então seus sentidos o abandonaram e mergulhara de cabeça na escuridão e no esquecimento.
É difícil tomar qualquer decisão quando se abre os olhos e não enxerga nada. Poderia estar dormindo naquele momento, mesmo sentindo suas pálpebras piscarem.
Poderia estar desmaiado, ou alucinando.
Moveu discretamente a cabeça, tentando esquadrinhar o entorno. Mas a dor foi imediata, como se estivessem abrindo seu crânio à marretadas. Tocou levemente o topo da cabeça e sentiu o sangue empapado em seus cabelos. Limitou-se a ficar deitado. Sua respiração se tranquilizou. As marteladas foram escasseando. Uma calmaria invadiu sua alma e seu corpo foi relaxando, tomado por uma sensação de paz. Formigamentos nas pontas dos dedos das mãos e dos pés. Depois, os braços e pernas dormentes. Cristo! Só queria descansar. Fechar os olhos e dormir um pouco. Se prender no esquecimento. O esforço de lembrar o exauria e agora só ansiava o nada.
Havia uma canção no ar. Uma melodia interessante. O vento a chacoalhar as folhas e galhos. O coaxar dos sapos. Os apitos constantes dos grilos. O rastejar de algum animal. O som de uma arma sendo carregada…
Pelo sangue de Cristo!
Abriu os olhos e girou a cabeça, nem se importando com as marteladas em seu crânio que explodiam com força total. Seus instintos ainda se mostravam úteis, pois não notara em que momento apanhara sua pistola. A escuridão ainda o cercava como uma amante. Forçou-se a esperar, pois poderia ser um de seus camaradas. Um bandeirante ali e viveria mais um dia. Sua mente voltou a trabalhar alucinadamente.
Luz.
Não teve tempo para pensar de onde vinha aquela luz prateada e suave. Parecia que Deus estava lhe protegendo. Agora seus olhos serviriam para alguma coisa. Precisava de seus companheiros. Precisava saber quem estava à espreita.
E precisava conferir sua pistola.
Merda!
Puxou de seu bolso um estojo simplório, colocou uma bala no cano, pegou um refil de pólvora e virou-o na arma, desperdiçando um bom punhado do material precioso. Mas tinha que ser suficiente.
Então, num único instante, ouviu um estouro. Viu as faíscas. Viu o clarão. E sentiu a carne ser rasgada e queimada.
Entretanto, conseguiu disparar seu único tiro. A dor não durou muito, na verdade sumiu no instante seguinte, deixando seu ombro jorrando como uma nascente após um dia intenso de chuva. A visão ficou turva. Sua vida dura de bandeirante se esvaia conforme seu sangue cascateava. O formigamento voltou. Fez a única coisa que podia. Acomodou-se na relva, e ficou olhando o céu estrelado e a lua pálida, sua luz prateada parcialmente bloqueada pelas folhas das árvores.
- No fim, todos desistem não é?
Assustou-se com a aquela voz. Era macia, lhe trazendo uma sensação de segurança. Limitou-se a esperar. Afinal, não tinha mais forças.
- Fiquei imaginando se você valeria à atenção que lhe dei. Mas agora, simplesmente resolve desistir?
- Quem… Quem é você? — pelo amor de Cristo! Será que nem na hora da morte teria paz?
- Seus irmãos foram vencidos. Você tem duas opções. Morrer e se encontrar com eles no inferno, no céu ou onde quer que você acredite que vá. Ou viver e se vingar.
- Viver…? Como…? — Seria Deus que lhe falava? Ou o Diabo que lhe tentava a alma? Lúcifer aproveitando-se de sua situação para terminar de devorar o que sobrou de seu espírito?
- Ricardo. Estou aguardando sua resposta. Sim, ou não?
Agora já podia sentir o hálito quente em seu rosto. A criatura se agachara, e sussurrara a pergunta em seus ouvidos. Sua visão já não lhe servia para mais nada. Um zunido incessante no seu ouvido ganhava cada vez mais força. E o formigamento agora massageava seu corpo por completo.
Cristo, Maria e todos os anjos e santos. Rogo a vos a proteção dos justos. Lutei por ti, ó Pai, contra os adoradores do Diabo. Combati o combate dos homens santos. Abati os índios, criaturas indignas de Tua atenção. Ajudei a limpar esta terra dos negros de Quilombo, aquele filho do Satanás. Perdoe meus erros e meus pecados, mas tudo que fiz foi por amor a Ti.
- Ricardo? Seu tempo está acabando…
- Que sejas Tu… Deus Todo Poderoso… Seu Filho… Cristo, a quem amamos… Me abençoe… Que o Espírito Santo… Me ajude…
Não posso morrer. Não posso morrer.
Não quero morrer.
– Salve-me… — a voz saiu de seus lábios num sopro débil. — Ó Deus, Salve-me…
- Com prazer, Ricardo. Com prazer.
Foi então que sentiu uma pontada em seu pulso e o que restava de sua vida foi sugada de seu corpo.
Então veio o vazio.
Nota do Autor: este projeto trata-se de uma obra de ficção, de modo que as opiniões das personagens não refletem, obrigatoriamente, a opinião do autor.
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