O clovadth

À noite, elas não se calam. Choram, grunhem, arranham as paredes.


Jaime estava com uma vontade, mas não sabia do que era. Inicialmente achava que era o cigarro. Queria fumar, mas não. Já fazia algum tempo que não sentia mais vontade de fumar. Os remédios faziam isso, ouviu um enfermeiro comentar certa vez. Começou a catalogar suas vontades para que não se esquecesse de nenhuma, primeiro pela ordem que apareciam na sua cabeça, depois por ordem de intensidade. Tomar um sorvete. Um uniforme que não cheirasse a naftalina. Um carro. Fazer a barba. Ir ao banheiro. Caminhar descalço na grama. Uma bóia. Sair… não. Não devia colocar essa vontade na lista. Mas já começou a pensar nela. E ela era forte. Prendeu a respiração, para que a urgência de inspirar fosse mais forte. Mas aquela vontade era mais forte do que tudo. Do que respirar. Seu maior desejo era sair daquele manicômio.

No início era uma ilusão que aparecia no canto do olho, fugaz demais para que ele desse conta. Como aquelas coisas que flutuam no ar e seguem o olhar, como se chamam? Aquelas bolhas… Enfim, ele acreditou que fosse alguma ilusão de ótica. “Tudo é racional”, tinha que lembrar, não podia assustar-se. O medo era sinal que a medicação estava falhando. Ele não queria mais remédio. Mas então começou a aparecer mesmo depois que ele movesse os olhos. Por alguns momentos ficava lá, como uma imagem residual, parada, olhando para ele. Ele tinha vontade de chorar.

Cada dia piorava. Com o passar do tempo aparecia no meio de sua vista. Era grande, proporcional como um elefante, até tinha uma tromba, mas tinha braços demais, patas demais. E se movia de forma estranha, membros se dobrando em lugares diferentes, joelhos para trás, a tromba parecia ser articulada. Apesar de estranho era gracioso. Nunca se aproximava dele, apenas andava para os lados, e após alguns segundos, desaparecia. Jaime segurava o pânico, sentia-se orgulhoso disso, não gritava como costumava fazer antes, mas sabia que se falasse isso para o médico, eles dobrariam sua dose.

O problema era outro. Caóticas, altas, elas foram a causa de sua internação. O remédio as silenciou. Trouxe paz, mas o colocou num estupor que atrapalhava o raciocínio. Ele estava tão próximo de sair de lá, o médico disse. Tomar sorvete. “O Sistema não tem mais condições de te manter aqui, então você tem que melhorar.” Ele tinha que melhorar. E ele se concentrou em obedecer, mas quando ele menos esperava, aquela coisa, resiliente à medicação, surgia em algum canto e o encarava.

Era noite, e o hospital estava num silêncio enervante, sem choros ou gritos dos outros pacientes. Jaime acordou, sobressaltado, com aquele colosso a chamar por ele, próximo a ponto de poder tocá-lo. Saltou da cama e se encolheu num canto. Ele não desapareceu como costumava fazer. Ao invés disso, chamou por ele novamente, e Jaime ouviu a voz daquele ser, clara como sua própria ofegante respiração.

“Jaime”.

Jaime fechou os olhos, que arderam e lacrimejaram. Estremeceu. Elas voltaram, pensou. Um vórtice de pavor e confusão o puxou para o momento, o ardor dos olhos o obrigava a abrir as pestanas, mas ele cerrou mais ainda. “Sou chamado de Tandar da casa Clovadth”.

“Não”, respondeu Jaime com a voz embargada. Lembrou que o médico havia dito. Não podia travar diálogo com elas. Elas não existiam. “Eu estou tomando o remédio. Eu quero pisar descalço na grama”, pensou, mas nada disse. Ficou em silêncio.

“Você vai fazer isso, mas para isso você deve se reportar ao benemérito. Você é o meu representante no seu planeta, é uma grande honra”.

O horror invadiu Jaime. Como ele o respondeu? Lembrou-se dos alienígenas que chegaram há anos se anunciaram como beneméritos, mas nunca fizeram contato. Ficaram apenas na órbita do planeta, e até destruíram as sondas que foram enviadas para estudar a nave deles. O mundo continuou, fingindo uma normalidade inexistente. Ninguém nem sabia qual era a aparência das criaturas que estavam dentro daquela nave.

Abriu seus olhos. A criatura estava próxima a ele, não etérea tampouco fantasmagórica, mas real como as paredes do quarto. “Cada espécie viaja da forma que conhece. A minha nunca dominou a tecnologia, mas nossas mentes não conhecem barreiras. Somos exploradores, somos mentores. Não estou aqui, no entanto você consegue me ver, e agora estamos na mesma frequência, você consegue me compreender.” Se aproximou de Jaime, mas o ar não se moveu.

“Você não entende… eu não posso respondê-las, vão aumentar minha medicação”, murmurou. "Eu preciso melhorar".

"Não há o que curar no que não está doente. Você é especial, sim, mas por razões diversas ao que imagina".

Jaime sentiu a força da presença da criatura. Era algo que nunca havia sentido antes, algo imponente e nobre, que o enxergava sem nenhum pudor, mente nua, corpo nu. Via Jaime como ninguém veria nesse mundo, e o aceitava. Não só aceitava, mas celebrava sua beleza.

“Para que o alinhamento funcione, o representante possui uma sensibilidade maior. Poucos na sua espécie são capazes de receber minha transmissão, Jaime.” Sua pele era áspera na aparência, escura, antiga. Seus olhos, negros e melancólicos.

“De onde…” sua voz era chorosa, uma súplica por sentido temente às consequências que a resposta pudesse trazer.

“Sou de uma estrela cujo brilho demora 12 mil anos para chegar onde você está. Sou de uma espécie tão antiga quanto seu planeta. Sou responsável pelo nascimento e pela morte de centenas de civilizações. A sua é a mais recente que presencio o despertar. Se você aceitar ser meu representante, nossas mentes compartilharão experiências presentes e passadas. Você viajará para outros mundos, Jaime, presenciará eventos cósmicos que sua espécie ainda nem descobriu. Mas para isso você deve aceitar. Por favor, seja meu representante”.

Jaime começou a chorar novamente. Mas dessa vez, de júbilo. Ele não precisava dos medicamentos, nunca precisou. Ele sempre esteve certo sobre elas, as vozes caóticas e altas não eram alucinações. Ele não sofria de delírios. "Sim!", gritou. "Sim! Aceito. Eu aceito!”.

Ao fundo do corredor, os sussurros e gemidos dos outros pacientes se faziam audíveis novamente. “Você precisa se reportar ao benemérito imediatamente.” A criatura não parecia entender a situação de Jaime.

“Eu não posso sair daqui. Só depois que o médico me der alta. Preciso manter as aparências, senão eles aumentam meu remédio”.

Foi o que fez até sua consulta. Jaime passou a ser visitado pela criatura frequentemente, o alinhamento entre suas mentes se tornando mais e mais preciso, a ponto de Jaime começar a sentir o que seu visitante sentia, do outro lado da galáxia. Sua mente era inconcebivelmente antiga, complexa, mais vasta que a maior biblioteca que Jaime já tivesse visitado ou sequer imaginado. Jaime lembrou-se de coisas fantásticas, memórias que passaram a ser dele, estrelas pulsares a murmurar a música do universo, uma civilização que cabia na cabeça de um alfinete, anjos de madeira a voar sob uma estrela vermelha, lembranças tão antigas que fizeram Jaime sentir-se fugaz como um piscar dos olhos.

Na entrevista com o médico, Tandar estava do lado de Jaime. Infelizmente só Jaime conseguia vê-lo, e Tandar nada pôde fazer quando o médico leu o relatório de enfermagem. "Esse documento aponta uma piora de seu comportamento, e isso é levado em conta para sua liberação." Jaime não entendia. Havia evitado dar os sinais, se empenhou tanto nisso! O médico prosseguiu. "Sua alta era iminente, mas você não só voltou a imaginar vozes, como se tornou cada vez mais recluso, antissocial e com delírios de grandeza. Temos que tratar isso, Jaime".

Jaime tentou racionalizar com o médico. "Não! Isso não é verdade. Eu preciso sair daqui." Contou a verdade. Do ser alienígena, de como seu diagnóstico foi equivocado, que ele precisava entrar em contato com o benemérito, ele tinha que pisar descalço na grama.

"Jaime, dado seu histórico, o risco de você ter um outro ataque é iminente." Jaime via Tandar do lado do médico, tão sólido que podia sentir a aspereza de sua pele.

Foi com tristeza que o médico recusou o pedido de alta, e receitou medicamentos mais fortes para atenuar os sintomas de psicose. Jaime já estava tão alinhado com o alienígena que conseguia perceber as intenções do médico, que sabia que Jaime não seria liberado tão cedo, não daquele hospital público, tampouco daqueles remédios. Jaime teve decretada uma pena de encarceramento perpétuo, de si mesmo dentro de sua mente.

Também foi com tristeza que Tandar se despediu de Jaime, que tentava chorar, mas o medicamento não permitia. O clovadth precisava descobrir outro representante, antes que um mal maior caísse sobre nosso planeta. Apesar de uma vida humana passar rápido como uma inspiração para ele, o alienígena tinha pressa.

Jaime lembrou do cheiro da grama de milhares de planetas enquanto o alinhamento se desestabilizava sob o forte efeito dos antipsicóticos. Percebeu, no entanto, que não sabia mais qual era o cheiro da grama daqui, da Terra, do lado de fora do manicômio, esquecimento que perdurou mesmo depois da transmissão finalmente ser interrompida. Jaime passou o resto de seus dias com uma vontade, mas não sabia do que era.

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