O oduji

Apesar de não saber seu sexo, sentiu-se confortável ao imaginá-lo como macho.


Abriu a pequena caixa. Lá estava ele, encolhido, numa posição fetal, a pele rosa e translúcida mostrando órgãos pulsando suavemente, uma peristalse quase imperceptível. Seus olhos estavam fechados, ele ainda estava sob efeito de tranquilizantes. Finas veias cobriam suas pálpebras semitransparentes, que cobriam gigantescos olhos negros. Ele respirava tranquilamente e moveu a cabeça na direção dela, sonolento. Ela fechou a caixa, suas mãos tremiam, suor brotava frio na sua palma ao perceber que não tinha mais como desistir. Era um contrabando que atravessou oito sistemas estelares até chegar em suas mãos. Pegou o trem central, rumo a uma clínica de modificação clandestina e fez o implante.

Meses depois ela estava em uma galeria de arte, expondo um gigantesco tanque onde suas bactérias geneticamente alteradas convertiam lentamente matéria fecal num tubarão. Ela estava magnífica. Desfilava com um séquito de assistentes pelo salão escuro, iluminado apenas pela verde luz no tanque, enquanto dava entrevistas entre um gole e outro de uma rara bebida fermentada a anos-luz dali. O oduji se moveu na sua nuca, rejeitando o álcool que ela ingeria, fazendo-a perder o equilíbrio momentaneamente.

"Não aqui", ela pensou. Se sua farsa fosse descoberta, seria executada. Incinerada e despossuída. Essa era a pena por quem traficava e implantava formas de vida de além da fronteira com a ultrópole. Mas Otto, seu agente, a convenceu de que esse era o melhor caminho para a carreira dela. E ele estava certo. Ações de Yanna estouraram na bolsa como uma supernova depois dela ter infectado o templo Saachi de Belo Horizonte com uma colônia de organismos miméticos que demorou semanas para ser detectada e expurgada. Em troca da prisão, o museu ofereceu a ela uma oportunidade, que ela prontamente aceitou. Uma marca, Yanna. Um canal de transmissão 24 horas dedicado exclusivamente a ela. Perfumes, roupas, sapatos, até mesmo enxertos genéticos com sua assinatura. Seu valor de mercado era imenso.

Ela estava obcecada com suas próprias ideias. Não sabia se vinham dela ou do parasita oduji. Yanna acordou da cirurgia fluente em Inter6, uma língua alienígena que nunca estudou, febril de um sonho que se desdobrava mesmo quando ela estava desperta. Destruiu todas pinturas que havia feito desde que aprendeu a pegar num lápis e passou a recodificar ferozmente genomas de todo tipo. Seu último produto estava no tanque opaco que ocupava a sala. Já era possível ver órgãos internos e cartilagens coalescendo.

Dispensou seus assistentes, em busca de um lugar para repousar o copo que quase deixou cair. Tropeçou ao encostar num balcão. Otto a segurou pelo braço. "Está tudo bem?" Seus olhos denunciavam sua preocupação em manter as aparências. Ele parecia tão diferente de antes. Yanna o via como um homem ambicioso, disposto a tudo para fazer sucesso. Mas agora ela o enxergava como um roedor medroso e furtivo. Ele evitava olhá-la nos olhos depois da cirurgia, enquanto ela encarava as pessoas de uma forma agressiva.

"Sim, está tudo bem. Bebi um pouco além, apenas", mentiu. Não estava tudo bem. Aquela não era a sua criação. Eram delírios de um verme alienígena que estava devorando sua medula espinhal. Mas ela era famosa, e Otto estava feliz. O que era aquele vazio que ela sentia? A cavidade que o oduji escavou em seu crânio? De que tamanho ele estaria agora? Otto se aproximou dela. Ela sentia o cheiro da carne apodrecida entre seus dentes, encoberto pelo álcool do vinho caro. Os oduji ampliavam a percepção sensorial de seu hospedeiro. “Eles fazem tudo para nos agradar, sabe?" sussurrou no seu ouvido. "Foi o que o marchand me disse. Essas coisinhas, elas são obcecadas em nos satisfazer depois que são...”

Ela esquivou-se das mãos suadas do agente para posar do lado do tanque. Sua equipe pessoal de filmagens se voltou para ela. A colônia de bactérias reagia às luzes e flashes, como se estivesse com medo. Se alimentava de restos orgânicos de um verdadeiro tubarão, de uma obra de mais de cem anos que apodreceu naquele meio aquoso. Yanna conseguiria sentir o cheiro de dentro do tanque, se fizesse esforço. Mas já sabia, lá dentro só havia uma podridão que ela trazia lentamente de volta à vida.

Sentiu um agradável aroma próximo, notas de madeira por cima de tons de latex e couro e feromônios de grife. Jornalista, jovem. Humana. Ela se aproximou de Yanna, fez perguntas criativas, que a cativaram. Trocaram sorrisos. Depois da entrevista passou a conversar com ela sobre assuntos mais amenos, sondando se ela estava sozinha. “Com tantos assistentes deve ser difícil ter momentos realmente para si”, insinuou. Por um momento sentiu-se desejada, e imaginou seus corpos úmidos se entrelaçando. Ela tocou seu braço de leve, o suficiente para ambas sentirem a eletricidade percorrer seus sistemas nervosos. Flertou com a jornalista. Uma onda de repulsa inundou sua mente, que irrompeu num grito, uma frase que sua interlocutora visivelmente não compreendeu.

"Desculpe, não falo Inter6. Isso que você disse, foi Inter6?" Ela estava claramente perturbada. Todos na galeria olhavam para as duas. Yanna instintivamente pôs a mão na nuca. O calombo era imperceptível, ainda mais disfarçado pela maquiagem. Sentiu que todo seu corpo estava tenso e rígido. Seu sorriso não era mais autêntico. Olhos de roedor. Depois de alguns instantes de silêncio mútuos, a jornalista pediu desculpas e se afastou dela.

Yanna não dormiu naquela noite. Esperava a inspeção sanitária arrebentar sua porta a qualquer momento, com um mandato de execução e incineradores nas mãos. Havia mais de 20 mensagens de Otto não respondidas em sua caixa de entrada. Sentia agulhadas pela pele, as menores luzes na escuridão do quarto explodindo como supernovas enquanto tentava se lembrar do que ela havia dito para arepórter. Talvez fosse uma súplica de Yanna, a verdadeira Yanna, antes de ter a consciência raptada pela mente perturbada do oduji. A Yanna que fazia desenhos e pintava, nostálgica lembrança de uma mulher que na verdade nunca existiu. Nunca foi inocente como insistia em se imaginar no passado. No fundo, ela sabia. Aquele vazio não vinha de dentro dela. Vinha de sua arte. Sua arte vendida, feita para agradar críticos e merecer atenção na mídia. Em nome do reconhecimento abandonou sua autenticidade e tornou-se um experimento corporativo com desculpas de arte. O grito de socorro era dele. O oduji era o prisioneiro, e não ela. Quem era o parasita de uma bela forma de vida era Yanna, que prendeu uma das mais poéticas criaturas do universo em uma jaula de fluido cefalorraquidiano.

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