Os lumnos

Uma eternidade pode ser vivida em um milênio, ou em um segundo.


Stephens se foi há quatro dias. Diante das circunstâncias, isso foi fortuito. Artan sabia, mas não queria admitir. As reservas durariam mais assim. Conferiu as baterias de salto da nave. Ainda estavam nos níveis mínimos, e Artan já havia feito os cálculos. As baterias demorariam cerca de um mês para repor energia suficiente para um salto. Havia água suficiente, e, agora com Stephens morto, comida e oxigênio. Mas ele não duraria mais um dia. Se ele não tivesse se desesperado, talvez a nave pudesse saltar a tempo de levá-los para um sistema habitado, onde poderiam ter cuidados médicos. Mas quando Stephens começou a tossir sangue, ele usou boa parte da energia para enviar uma mensagem de socorro pelo ansível, na esperança de alguém na ultrópole recebê-la e investigar.

As chances eram baixas no entanto. Uma nau humana, fora da Barreira, essa história já foi contada antes: eles teriam sorte se fossem considerados meros contrabandistas e presos. Destinos diferentes já foram reportados com quem se desventurava além da Barreira de Bernhoff. Todo tipo de espécies alienígenas existiam depois dos 100 anos-luz da Terra, de seres estéreis saqueadores de códigos genéticos a colecionadores de raças exóticas. E os humanos eram uma presa desejável. Uma espécie recente, exploradora espacial, sem patronos poderosos, nunca antes vista na ultrópole. A febre pela humanidade foi tão aguda que o Sistema Solar teve que ser isolado, antes que fosse saqueado até a exaustão. Artan não era nascido na época, mas os mais velhos da tripulação lembravam que abduções eram comuns antigamente. Hoje, nenhum alienígena deveria passar por essa barreira de 100 anos-luz da capital Terra, sob as severas penas da ultrópole.

Mas isso não impediu os humanos de fugir da cerca imaginária erguida ao seu redor. As possibilidades de conhecimento além da muralha eram sedutoras. Foi o que atraiu a tripulação da Illuminata. Mas montar uma nave-salto com o embargo da ultrópole era uma tarefa difícil, cada componente precisou ser contrabandeado. Essa convivência com figuras esquivas de além da Barreira acabava por transformar muitos empreendimentos de exploração em pirataria. Mas isso não foi o que uniu Artan e seus companheiros. Todos queriam saber o que tinha além da última colônia. De posse de um motor trissar centenário, aventuraram-se para além de Impéria e saltaram para o desconhecido.

Foram dias felizes, catalogando espécies e planetas não mapeados, descobrindo eventos raros, montando um vasto banco de informações valiosas para a humanidade. A intenção era voltar para a Terra com as informações e negociar um motor de salto melhor ao fim de um ano solar. O ano chegou, e de posse dos dados marcaram o curso para Terra. Entre os saltos a caminho de casa, detectaram uma anomalia, uma assinatura energética discreta, porém crescente, e decidiram desviar do caminho para investigar.

No entanto, esse não era o plano do motor ancião, que após o salto, deu seu último suspiro e explodiu, levou metade da tripulação consigo e destroçou a estação médica. Os três engenheiros morreram nos dias seguintes, depois de repararem o motor e se exporem a radiações letais. O capitão Stephens, há quatro dias. Artan estava apenas esperando sua vez. Não havia nenhuma civilização próxima, e mesmo que alguém tenha recebido o sinal do ansível, o socorro iria chegar tarde demais. Apesar de pulsar com vida, o Universo era, na sua vasta imensidão, um lugar estéril.

A comida havia acabado há três ou quatro dias. Ou foi o capitão que morreu? Não conseguia mais se lembrar. Em breve seria ele. A nave saltaria automaticamente para casa, sem viva alma dentro, um mausoléu dedicado à exploração marginal, com um valioso banco de dados repleto de informações sobre o que havia além da Barreira. Os sistemas se desligariam, um a um, como órgãos num corpo definhante. Artan tentava dar sentido a seus últimos dias atualizando os diários de bordo, acompanhando os sistemas auxiliares e olhando para as estrelas lá fora. Como eram lindas. Ele confundiu o brilho com uma estrela variável a princípio, mas minutos depois percebeu que não era uma estrela. Era um objeto com um brilho intenso, e estava a menos de um megâmetro de distância da nave.

Os instrumentos haviam detectado antes. A assinatura energética crescente que os instigou a saltar para aquela maldita região. Esférica, a princípio, de poucos metros de diâmetro. Uma nave de resgate, pensou. Abriu a estação de comunicações e transmitiu a mensagem de socorro em amplo espectro, em todas as variações de línguas da ultrópole. Sem resposta. Talvez fosse uma sonda. Meia hora depois, sua forma se alterou de um círculo perfeito para um cone, com quase o dobro do tamanho. Seu brilho branco começou a alterar também, para matizes de azul e roxo, enquanto passava a adotar formas mais e mais complexas e crescia proporcionalmente. Um dodecaedro, depois um prisma octogonal, com pirâmides brotando simetricamente em seu eixo. A cada ciclo, dobrava o tamanho.

Quando o objeto estava praticamente do mesmo tamanho da Illuminata, o console começou a receber transmissões pelo rádio. Inicialmente, apenas em frequência baixa, mas rapidamente as mensagens passaram a ocupar praticamente todo o espectro possível. O computador da nave não tinha capacidade de interpretar os sinais, eram fluxos erráticos com quantidades imensas de informação, com durações de nanossegundos. Mas havia um padrão ali.

Artan estava fraco, sonolento e moribundo. Sua consciência ia e vinha, quando se dava conta, uma, duas horas haviam se passado, e o objeto se agigantava diante da nave. Suas forças eram suficientes apenas para retransmitir a mensagem de socorro, na esperança que o objeto a interpretasse no intervalo entre as transmissões e o crescimento do objeto. Sem resposta. O objeto era do tamanho de um campo de futebol quando os sistemas de bordo acusavam que a nave estava sendo analisada. Pequenos pontos de luz se aproximaram rapidamente, poucos a princípio, até Artan perceber que a Illuminata estava cercada por um enxame de vaga-lumes. O objeto expandiu novamente, pulsando e ocupando praticamente toda a visão da tela principal da cabine.

Os sistemas passaram a operar sozinhos. Os bancos de dados foram invadidos, de alguma forma. Artan não se preocupava mais em impedir que as informações que passou um ano coletando fossem roubadas. Era uma armadilha, concluiu. Na sua sede por conhecimento caíram nela sem titubear. Artan avaliou abrir todas as comportas da nave caso fossem abordados. Não queria ser um troféu no museu de algum taxidermista inumano.

Horas depois, o estranho objeto emitiu um novo jorro de informações. Dessa vez, em inter-6, a língua que humanos usam para se comunicar com a ultrópole. Uma enciclopédia maciça, com informações detalhadas sobre a misteriosa entidade luminosa de onde veio o fluxo de dados. O objeto estava imenso, grande como uma lua, uma formação tão intricada e complexa quanto um gigantesco fractal, quase tocando a illuminata. A vista das janelas era intimidante, Montanhas simétricas como pirâmides, altas como o Everest, vales esféricos de brilho multicor, a refletirem sua luz em todos os cantos da nave.

Não era uma sonda, nem uma lua. Era uma civilização. Criaturas feitas de fótons. Luz sensciente. Suas transmissões acompanhavam sua evolução, de um simples ponto de luz a uma sociedade de bilhões de indivíduos, que avançou em poucas horas o que os humanos demoraram milhares de anos para alcançar. Vivendo femtons ao invés de segundos, evoluíram diante dos olhos de Artan. E agora eles atingiram a massa crítica, e de posse do conhecimento da tecnologia da Illuminata, explodiram num grande salto, como uma supernova. A nave foi inundada pela mais pura luz que Artan viu, milhões de pequenos pontos de luz a perambularem pelas câmaras, a cercar a ponte de comando, a encarar Artan. Era uma luz tão intensa que Artan não conseguiu enxergar mais nada depois disso.

A cabine era escuridão e silêncio. Artan tossiu. Sentiu o gosto de sangue na boca. Foi surpreendido pelo sinal sonoro do computador, informando que as baterias de salto estavam prontas. Miraculosamente, faltavam segundos, e não semanas, para o salto para a Terra. Com dificuldade, fez o último registro no diário da Illuminata. "Quais são as chances", pensou, sorrindo. O motor estava com os bancos de carga cheios, e a nave fez seu salto, automaticamente e em segurança, para o Sistema Solar, onde por fim suas luzes apagaram.

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