Humaitá - NUPEAS: Agroecologia e Resistência no Sul do Amazonas

Pela manhã, antes de seguir pra universidade, eu disse: Não enxergo muito bem à noite, por isso a gente não pode terminar muito tarde, mas você dirige né?. “-Vixe, também sou meio cegueta”, disse minha carona enquanto eu ainda fechava a porta do apartamento. Ainda assim, no mesmo dia entramos estrada adentro rumo ao aeroporto no fim do entardecer. Em duas horas de papos a 90 quilômetros por hora, parecia que a gente se conhecia. Na verdade só tinha visto Natália em uma única outra oportunidade, mas dá uma sensação que a gente se conhece.

A vinda de Natália para Humaitá era pra cumprir a missão de colocar a gente no trilho de uma sistematização. Essa palavra me trazia uma palpitação, só de ouvir. O que isto significa, de verdade? No mundo em que ninguém tem tempo para nada, o pragmatismo diário não deixa a tempo para respostas complexas. Mas realmente o que é se conhecer? A gente conhece tanta gente, a gente desconhece quem a gente convive por anos.

A tal sistematização nos faz ver uns aos outros, mostrando que é impossível fazer deste trabalho com a agroecologia de forma impessoal. Nós somos sim ligados num vínculo pessoal. O NUPEAS escolheu um aspecto do que sistematizar, do que escrever, analisar, observar. Mas para chegar no fio condutor disso, cheguei na percepção que o NUPEAS nasce e é conduzido devido a razões pessoais e que a continuidade do nosso trabalho se mantém porque um grupo de pessoas resolveu juntar essa bagagem, e carregar tudo coletivamente.

O que eu mais ouvi, nos dias da oficina de sistematização foram estudantes e professores falando de emoção e os vi se emocionar. O que mais eu fiz nestes dois dias é ficar tocado pelas histórias. A gente tem mesmo aqui a necessidade de colocar mais as nossas coisas de forma sistematizada, nos comunicar, mostrar o que a gente faz. A Ana Cláudia tinha uma preocupação sobre a nossa escolha dentre os NEAs, que talvez a gente ainda estivesse distante de conduzir as práticas efetivamente agroecológicas. E é verdade: estamos num outro nível de difusão de práticas agroecológicas: trabalhando com gente que vive a margem de rios e estradas nos ermos da Região Norte, na fronteira do desmatamento, na região em que muitas vezes o que está em jogo é a pura sobrevivência utilizando o pouco do recurso que lhe foi concedido, num ambiente de ausência estatal completa.

Nestes dois dias a gente percebeu que o que a gente faz pode fazer a diferença, não tão somente na vida dos agricultores que a gente vive e convive (e que se tornaram nossos amigos, como já havia dito, tudo é bem pessoal aqui), mas na formação, na construção de experiências na vida de estudantes, professores e técnicos. Nossa opção por sistematizar por meio da metodologia aplicada nos entrega neste viés: como este método tem funcionado?

Eu optei por deixar aqui minha percepção da sistematização de forma pessoal, assim como as coisas têm sido feitas por aqui. Trabalho com pessoas que me são “caras”, num ambiente em que os colegas honram esta responsabilidade de influenciar um a vida do outro. Os dias de sistematização foram de muito aprendizado, em que nossas questões foram expostas, destes seis anos ouvimos muitas histórias entrelaçadas entre o profissional e doméstico, de muita ciência, mas também muito sentimento, de muita leitura, mas também de muita conversa. Daí então me disseram que eu tinha que escrever logo sobre a sistematização para este BLOG (esperam que me perdoem porque este é o meu primeiríssimo LOG em um BLOG) e eu não tenho a menor pretensão de acurácia jornalística.

Vim dizer que a oficina de sistematização foi mesmo maravilhosa. Dizer também que agora após estes dois dias entendi porque tive essa sensação de conhecer a Natália: pra você conhecer alguém, você tem que se deixar conhecer. Pra se conhecer você tem que se expor, se colocar vulnerável e isso sempre é um risco, e é por isso que é difícil, porque é preciso coragem.

Está aí, eu acho, o segredo do excelência do trabalho da Natália. Essa oficina foi brilhante, só tenho a agradecer ao empenho dos colegas, principalmente à Francimara e à Ana Cláudia, às alunas e aos alunos, bolsistas, voluntários, técnicos administrativos e principalmente aos agricultores e agricultoras. Têm sido anos incríveis. Seguimos lutando!

André Bordinhan - Coordenador do Nupeas