Fotografar com filme na era digital
Considerações, frustrações e emoções em 35 milímetros
A fotografia analógica está morrendo?
Em Campinas, município situado a 90 quilômetros de São Paulo, das dezenas de lojas e laboratórios que faziam revelações, hoje restam apenas duas: Waldir Photo e Profcolor. Destas, apenas o Waldir Photo tem estrutura para revelação de negativos monocromáticos (E6), uma vez que a Profcolor só aceita bobinas do processo C41.
O desinteresse pela fotografia analógica levou à falência alguns comércios e à adpatção tantos outros. Não raramente nos deparamos com as famosas ‘foto e ótica’, que de foto só carregam mesmo o nome.
Encontrar filmes também não é fácil como antigamente. E não precisamos voltar muito no tempo: há oito ou dez anos era fácil localizar filmes em lojas de conveniência e até mesmo em farmácias. Hoje, os poucos à venda no Brasil custam caro e representam uma parcela risível da imensa variedade que um dia existiu por aqui — e que felizmente ainda existe fora.
A fotografia analógica está cara?
Em média paga-se R$ 20 por um filme profissional como Kodak Ektar, TX e Delta Pan, por exemplo. Se pensarmos em Ilford e Fujipan, os valores saltam para assustadores R$ 30/35, dependendo do câmbio do dia. Lembre-se que estamos comprando fora e acrescente o IOF de 6,38%.
É preciso considerar também o valor da revelação e digitalização, que não sai por menos de R$20. Num cálculo rápido, cada foto custa — com sorte — aproximadamente R$ 1,38. Assim, sabemos que um rolo de filme custará, ao final de todo o processo, R$ 49,68.
Se você for um fotógrafo apaixonado e utilizar pelo menos uma bobina de filme por final de semana, em um ano estará cerca de R$ 2.484,00 mais pobre. Este é o preço de uma excelente DSLR de entrada com uma lente razoável, uma bolsa para transporte e um cartão de memória com 16GB, o que lhe permitirá tirar mais de 2 mil fotos em excelente qualidade.
Ainda vale a pena comprar filme?
Esta é uma pergunta que respondo com frequência no Digiforum (maior fórum de fotografia da América Latina) e nas mensagens que recebo aqui. A resposta é tão simples quanto confusa: depende.
Particularmente considero impensável utilizar filme hoje em dia para a realização de serviços profissionais. De todos os colegas de profissão, desconheço quem ainda preste serviço com equipamentos analógicos. O fator decisivo foi discutido acima, e trata-se do custo.
Agora, se a intenção é buscar um resultado autoral a história é outra. Hoje fotografam com filme aqueles que privilegiam um resultado estético fino ante o processsamento digital incontrolável das máquinas. Vão a campo com uma câmera analógica aqueles que têm como prioridade o romantismo e não a ostentação de equipamentos caríssimos. Fotografam em preto & branco legítimo os que preferem grãos de prata ao invés de ruído digital. Escolhem películas coloridas aqueles que gostam mais dos tons vintage do filme do que aqueles emulados pelo Instagram e VSCO.
Ainda que o custo do filme, da revelação e da digitalização sejam caros, é evidente que a fotografia analógica vale a pena. Resultados semelhantes, às vezes superiores, podem ser conquistados com as modernas e acessíveis câmeras digitais. Mas isso é mesmo tudo?

