Estranho no Campus

Confesso que depois de morar em 7 cidades eu até gosto da sensação de não pertencer. Esse jeito de ver a cidade e experimentar a vida concorda muito comigo.

Quando chego numa cidade nova sempre me sinto exposto. É como se mesmo sentado bebendo um café eu pudesse dar pras pessoas em volta todas as pistas de que eu não sou dali. Com o tempo a camuflagem melhora, o sotaque vai esmaecendo. Mas a consciência de que a cidade não é “minha” não sai da cabeça por um minuto.

Em Belo Horizonte o começo não foi diferente. Eu pisei na cidade pela primeira vez quando fui fazer a seleção de mestrado. Naturalmente andava pelas ruas com uma certa deliberação em não parecer de fora e me sentindo literalmente nauseado com tantas curvas e morros. Definitivamente não estava sendo amor à primeira vista, até que eu cheguei no Campus Pampulha. *Romantic music plays in Background*

Era uma universidade com mais gente que a minha cidade natal. Uma área imensa coberta de árvores. Uma faculdade só pra Belas Artes, e outra só pra Música. Um labirinto/colmeia de Ciências Biológicas. Um prédio imenso de Ciências Exatas e um outro, talvez grande demais, pra Engenharia. Tinha tanta gente diferente que eu consegui me sentir seguro e camuflado mesmo tendo acabado de chegar.

Eu sentia que me encaixava no Campus tão bem que nunca parei pra pensar em como as pessoas que não eram “da UFMG” o viam. Daí um dia no 3503A (a linha de ônibus que corta BH no peito) passando em frente a portaria da av. Carlos Luz eu ouço duas senhoras conversando:

_Aqui é a federal também?
_É sim. É tudo a federal aqui.
_Será que pode entrar lá dentro?
_Não sei. Eu acho que pode.

Eu fiquei muito surpreso em ver duas belo-horizontinas olhando pro Campus como algo misterioso. Como é que eu, vindo de longe e morando aqui há menos de um ano podia estar mais à vontade com aquele espaço do que elas, que provavelmente nasceram aqui?

Isso aconteceu anos atrás e hoje eu entendo como a universidade é excludente. Como ela, apesar de toda a diversidade, ainda é um lugar pra privilegiados. Não devia ser assim.

Eu não espero que pra todo mundo o lugar preferido da cidade seja a universidade, mas acho que todo mundo devia ter a chance de não se sentir um intruso quando entra no Campus. Eu não prometo que você vai sentir a identificação que eu sinto com esse lugar, mas garanto que no mínimo vai gostar do pão de queijo daqui que no geral é muito bom.

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