A segunda vinda

Sei que hoje é difícil explicar o que foi aquela época, é clichê dizer, mas você tinha que estar lá, respirar as coisas que estavam no ar, se misturar naquela eletricidade onipresente para poder entender.
Bom, a tecnologia estava à mão e ia acabar acontecendo mais cedo ou mais tarde. E se era para clonar alguém, porque não ele, certo? O sudário estava lá dando sopa mesmo…

Porque não começar logo pelo filho de Deus?

O mundo acompanhou de perto o nascimento de Joe Jesus, ou “segunda vinda” para alguns. Tenho que dizer: foi um puta evento, com direito a data do parto programada para coincidir com o surgimento da estrela de Belém e parto assistido por três presidentes. Foi bonito, um tanto cafona como esperado, mas inegavelmente bonito. É típico dos espetáculos, o tempo raramente faz bem a eles.

Joe Jesus, ou JJ, como chamavam, era bem mais bronzeado do que o esperado. A bem da verdade, um pouco mais feio, bruto e menos apolíneo do que convinha a um Cristo, e também — vamos ser sinceros — não era exatamente a mais brilhante das criaturas, mas o sorriso, o sorriso franco e honesto… Rapaz, você tinha que estar lá para ver. Esqueça as fotos, você não sabe o que é ver aquilo ao vivo.
Aquele sorriso, somado a uma equipe de redatores (que se autodenominavam “apóstolos”) e o céu foi o limite. Sem exageros.

Abençoou remédios que segundo alguns curaram aidéticos, fizeram cânceres regredirem e resfriados sumirem. Se foi milagre, ciência, marketing ou pensamento positivo, tudo isso já se perdeu na fronteira difusa da história e do mito. Muitos se incomodavam ainda por sua aparência simples, rude e campônia, que equipe de marketing alguma conseguia resolver, no fim os teólogos atribuíam isto ao fato de que aquele homem em especial deveria ser como cada um de nós, porque no fim das contas, todos somos filhos de Deus.
Um mundo cansado e esgotado optou por acreditar.
Além do mais, aquele sorriso…

Antes de qualquer coisa, entenda que a vida de JJ era um circo. Ninguém podia se aproximar dele antes de passar por 20 assessores e gerentes de não sei o que, eu era um deles, até hoje não sei ao certo como fui parar lá. Foi uma entrevista bem rápida. E existem empregos bem piores no fim das contas, mesmo que esse não pagasse muito. JJ nunca tentou superar seu papel preestabelecido. Apenas aceitava o que a vida lhe deu. E ajudava uma pessoa aqui e ali. Era alguém como nós. Empenhado em fazer o bem à sua maneira.
JJ era um cara legal, sabe? Gostava muito de Steely Dan e Mungo Jerry, essa era a única coisa que esconderam do público, não pegava muito bem o filho de Deus ser pego ouvindo estas coisas, podíamos ficar horas conversando embora não raro ele sempre escutasse muito mais que falava.
Clonaram outros depois dele, Einstein, Hawking, Galilei… Mas nenhum dos clones foi grande coisa, talvez porque os grandes homens sejam frutos do seu tempo, simples assim.

Ele fugiu apenas uma vez. Voltou duas semanas depois. Nunca disse o que se passou. Às vezes me lembro da vez que ele tentou andar sobre as águas com péssimos resultados. Ele levava tudo na boa. Tinha um humor amplo como seu coração. Bom sujeito sabe? Vá saber, talvez esse seja o aspecto realmente divino no homem. Não sei. Sei lá. Vivi e sei de pouca coisa.

No geral tínhamos muito assunto. Quase sempre sobre séries do Netflix. Joe morreu aos 33 anos de complicações pulmonares. A ironia é que ele não fumava, nenhum clone foi muito longe também. Não sei porque, não entendo muito dessas coisas, é fácil imaginar ele como um belo pássaro — ok, um relativamente belo pássaro — vivendo em uma gaiola dourada, mas ele foi gente, foi bem mais que isso. Acho que posso considerar ele um bom amigo também. Gostaria. E sabe que acho que ele, com aquela simplicidade e aquele sorriso, realmente deixou o mundo melhor por algum tempo?

Ele até não fez lá muitos milagres, mas fazia umas cadeiras lindas.
Tenho três até hoje.