Gorilas na parede

Todo mundo conhece a história: gorila se apaixona por garota. Gorila gigante foge. Gorila sobe Empire State. Gorila é derrubado por aviões. A bela matou a fera. Sobem os créditos. Fim.

A menos que você estivesse em Marte ou no Mundo Perdido de Conan Doyle, você conhece a história: saiu em todos os jornais, gerou três romances e três filmes, mesmo que você não estivesse lá — meu Deus, mesmo que você não estivesse no mundo — se nasceu depois de 1933, você. Conhece. A história. É algo já elevado à escala mítica, perdida na borrada fronteira entre a mera ficção e a crueza dos fatos.

O que você não conhece é o que houve depois com todos que tiveram suas vidas tocadas pelo gorila. Eu não costumava pensar muito sobre isso. Hoje penso cada vez mais. Um gorila não cai no nada. Haviam coisas sob ele. O que tinha logo abaixo do macaco que despencou? Quem estava logo abaixo do gorila?
O que é ter um cadáver de 15 metros se decompondo e obstruindo toda uma rua e a entrada de casas e lojas até a prefeitura decidir o que fazer com ele?
Coisas que ninguém pergunta. A história está nos detalhes.

O museu de ciências naturais reivindicou para si o corpo — mas óbvio, não quis arcar com todo o imbróglio legal que vinha junto, além dos custos de remoção — a NYU também, diabos, até o empresário reivindicou, ele queria empalhá-lo e fazer uma turnê cobrando ingresso pelo interior dele, ao que parece. Os fatos se misturam com as imagens. As manchetes de jornal, as imagens gravadas, o filme de Merian C. Cooper e a foto de Martin Munkacsi, claro. As imagens passam devagar. Erráticas. Capturas em preto e branco. As expressões do gorila recriadas em stop-motion. A diferença é gritante. Um tanto cômica às vezes, mas clássico é clássico.

Enquanto o debate sobre o que fazer seguia, o corpo ia ficando por lá, existe uma foto — incrível — de Martin Munkacsi, tirada de dentro de uma loja de penhores, a janela estraçalhada da loja emoldurando os olhos mortos do animal… o vazio daquele olhar, aquela tragédia anunciada.
O infinito desperdício de tudo aquilo.
Aquilo me faz pensar em meu avô.
Antigamente eu não pensava muito sobre isso.
Hoje penso cada vez mais.
Eu nunca entendi muito bem o mal do meu avô. Acho que era jovem demais para entender. Hoje sou mais velho — não necessariamente mais sábio — e às vezes quase entendo, não em palavras. Eu não saberia escrever, mas sempre quando penso no mal dele me lembro dos olhos do gorila.
Quando eu era muito pequeno, ele me levou uma vez ao topo do Empire State, ficou olhando a cidade com seus olhos opacos, cinzas como a alma dele, um homem que vestia cinza, um homem do mundo cinza, antes tínhamos ido ao MoMA, observado a foto gigante de Munkacsi, sendo tragados por aqueles olhos.
- Olhos de quem já teve tudo. — disse meu avô.
Ali no topo do edifício ele respirou fundo e falou — para si, hoje entendo, não para mim, que nem achava na época.
- Eu matei algo único.

A ilha de onde ele veio hoje é um ponto turístico. Ela mudou bastante desde aquela tarde em 1929. Em alguns flyers um gorila salta para o nada. O último de sua espécie. A vida segue. Como ela sempre faz.

Dado o tamanho do seu corpo, hoje se estima que ele demorou quase dois dias para morrer. Isso me dói no coração.

Ao longo dos anos, três pilotos que alvejaram o gorila, se mataram. Meu avô foi um deles.
Um sábado o homem cinza subiu pelo elevador cinza até o último andar, se debruçou beirada e voou sem avião.
Sua morte não foi muito noticiada.
Eu nunca soube o que ele viu naqueles olhos. Às vezes — cada vez mais — vou ao MoMA e fico olhando aquela fotografia, em busca daquele homem de alma estranha naquelas pupilas mortas, em busca de qualquer migalha de reconhecimento. Aquele algo que ele perdeu dentro dele mesmo ao acertar a fera, aquela divina fera. 
Mas nunca encontro nada.
Costumava não pensar muito sobre isso.
Mas hoje em dia penso cada vez mais.

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