O banco do porquê estou aqui

Aproxime-se.
Ouça com atenção o que eu vou lhe falar.
Há um banco pequeno em Berna, na Suíça, é fácil de achar, fica a pouco mais de duas quadras do Hotel Gloke. Errar é impossível, humanamente impossível. Ele não guarda cédulas, não emite cheques, suas caixas pretas se estendem por fileiras sem guardar joias ou antiguidades. Guardam materiais muito mais raros, de constituição infinitesimalmente delicada e perecível.
O banco guarda histórias.
Um dia você dará uma conta para seu filho lá.
- Este é o telefone — vai dizer o atendente a ele, com impessoalidade treinada apontado para o velho aparelho de disco — você insere o dedo aqui e gira. Imagino que não tenha visto muito destes. — Para efeitos dramáticos o dedo vai girar, um semicírculo completo.
- E a linha vai estar fechada, será só ouvir a perguntar e falar. Simples.
E seu filho vai concordar. O homem apontará para o outro aparelho arcaico ao lado dele.
- Estas são as fitas, a cada ano você volta aqui e grava uma história nelas — prosseguirá ele — uma história a cada ano. Está acompanhando? Um dia que justifique a seguinte pergunta…
Fará a pausa, preparada, há quantos anos ele repetia aquela preleção?
- … Porque estou aqui? Está me entendendo?
Seu filho concordará.
- No começo vai parecer uma bobagem, mas com o passar dos anos você vai se dar conta da importância. Esse é seu espaço, menino, seu relicário.
- Aqui vai estar a sua vida. E o motivo de você ainda estar aqui.
O homem vai respirar fundo. Olhos atentos a conferir se as palavras estão sendo compreendidas em todas suas implicações.
- Algum dia você vai partir e as fitas serão queimadas com você. Bastante simbólico e apropriado, espero que concorde.
Ele vai concordar, entendendo ou não, porque é isso que as pessoas fazem.
- Muito bem, vamos então falar novamente dos telefones…
As primeiras histórias serão trivialidades, pequenas banalidades que vão divertir o menino no futuro. Como inevitável, quanto mais o tempo avança, mais importantes se tornam aquelas fitas. A determinada altura, cada ano vai se resumir à busca da história que vale a pena ser registrada.
Algum dia seu filho será velho. Ele empurrará a cadeira com mais vagar no Banco, sentará com olhos frágeis e mãos levemente curvas. E então, só então, ele apanhará o telefone. Vai inserir um dedo no disco e girar, como disse o homem que há muito se foi. Neste momento ele será alguém que perdeu gradualmente os pedaços de quem foi. Como é típico da vida. Os anos vão se embaralhar. Cada momento vai parecer cada vez mais o mesmo.
Por isso, as caixas e as fitas.
Vai ouvir a pessoa que ele já foi, enquanto olha seu reflexo na mesa espelhada. Escutando não verdades, mas versões dela. Não importa. Ele vai ser lembrado pela voz. Não lembrando mais dos fatos, apenas da narrativa.
- Quem eu fui aos 12 anos? — vai dizer, com a voz mais sumida, o timbre alterado, e do outro lado da linha vai se ouvir um clique. E a fita falará.
A voz será difícil de escutar.
Enxugará os olhos fraquejantes e dirá de novo.
- Quem eu fui aos 26? Porque ainda estou aqui?
E as fitas dirão, em seu tom levemente alterado, gravado há muito, muito tempo.
As histórias invariavelmente tendem a ser curtas, como os momentos que guardamos, mas será o suficiente. Sempre é. Tem que ser.
E o velho, por breve momento será jovem, menino, um estranho tão familiar, um homem, pronto para resistir por mais um ano.
- Quem eu fui aos 30 anos?
E a fita segue. A fita segue.

