O cadafalso que fizemos naquele verão

Foi naquele verão já longínquo que meu pai inventou de construir um cadafalso. Na época eu morava com minha mãe e passava os verões com ele, obviamente quando ela soube de pronto desaprovou, mas tudo bem, para ela, desaprovar era mais que uma obrigação, era um modo de vida. Nunca soube o porquê de papai ter construído aquilo, o que sei é que quando cheguei todo o projeto já estava desenhado e as tábuas enfileiradas no pátio. Pais são entidades insondáveis, o meu não poderia ser diferente. Da minha parte, eu parava e fingia estar interessado em aprender. Mesmo com sua habitual economia de palavras e longos silêncios. Para mim bastava estar ali.
Foram duas semanas de construção e sinceramente ficou uma beleza de cadafalso, quatro cordas, nem longas demais, nem curtas demais, alçapão na medida certa, altura ideal para espectadores. Muitos exibiam suas piscinas em casa, já nós, tínhamos o cadafalso no pátio.
Vi meu pai apenas no verão seguinte. O cadafalso continuava lá, limpo, em pé, a desafiar a todos com suas quatro cordas balançando ao vento, com a paciência que só os objetos têm.
Muitas piscinas já haviam sido abandonadas. O cadafalso continuava, insistente, orgulhoso e hirsuto.
As pessoas já não ficavam olhando para ele quando passavam, elas já estavam acostumadas. Basta o tempo para nossos olhos converterem tudo, por mais dissonante que seja, à banalidade.
Nunca fui muito próximo de meu pai sabe? Não me entendam mal, ele era uma ótima pessoa, mas era também um homem pouco comunicativo, alguém lacrado dentro de si mesmo. Um homem que aparentava um constante desconforto consigo mesmo e com o mundo.
Mas naqueles verões mudos, ensolarados, onde reparámos o cadafalso em silêncio, foram os dias que me senti mais próximo dele. Eram naqueles dias que absorto no martelar e reparar compreendi o que é grande e absoluto demais para ser ser dito em palavras. Trabalhar junto sentindo aquela suavidade plácida que chamam de amor, não a tempestade de cobranças e expectativas que tomamos como vida adulta.
Nunca senti algo nem remotamente parecido por ninguém fora daqueles dias.
Às vezes alguns vizinhos vinham, ficavam olhando o trabalho, com uma cerveja na mão, alguns se sentavam e discutiam brevidades, sempre olhando as cordas balançando, sem medo nem curiosidade, mas outra coisa, algo indefinível no olhar.
Era uma vizinhança pequena e boa. Mesmo com as coisas ficando difíceis, mesmo com a sensação onipresente de que mais cedo ou mais tarde a violência, a decadência e o que tornam as cidades, cidades, estariam à sua porta.
Foi pouco antes de ir embora naquele verão que em uma conversa ouvi o vizinho, olhando para as cordas, finalmente perguntar aquele algo que estava no ar, aquele gigantesco elefante não-dito:
- E então Borges, quando é que vai estrear essa forca?
Faz bastantes verões que eu não piso lá. Minha mãe se mudou para mais longe ainda, o que ela mais queria era ficar longe dele, como um erro que merece ser apagado. Arranjei emprego em outro estado, casei, separei.
Vi meu pai em diversas outras ocasiões, mas nunca mais revi a casa e o cadafalso.
Eu não vi a primeira execução, apenas soube que a ideia não veio de meu pai. Foi de um dos moradores, um ladrão apanhado no pátio da oficina, acho eu, que provavelmente seria linchado até que alguém se lembrou que havia um cadafalso estalando de novo a apenas quatro quadras dali.
Hoje pela primeira vez dirigi 1.757 Km sozinho, cheguei em pleno domingo, as execuções sempre acontecem de manhã, o almoço é logo depois.
Havia cadeiras, muitas, e conversa animada também, uma quermesse alegre e ensolarada, as execuções quinzenais eram a diversão da pequena comunidade.
A vila anda segura, dizem. Escassearam todos os bandidos, mas não falta matéria-prima, como me disse alguém: a civilidade está diminuindo, os incivilizados estão aumentando e sempre tem alguém digno de ser enforcado por aí. Se é que vocês me entendem.
Não sei se meu pai me viu, fiquei quieto vendo ele em ação. Os quatro homens amarrados, corda ao pescoço, toda comunidade presa em expectativa pelo grande truque, pelo presto! Pela dança final no ar. Meu pai checando as cordas, aquele homem calado e estranhamente sereno, que parecia sempre preso em algum lugar de si mesmo, aquele homem que nunca pareceu se sentir à vontade em lugar algum do mundo, mas puxa, olha ele ali agora. Meu pai, o pilar da comunidade.
A mão envelhecida proferindo as últimas sentenças, segurando a alavanca de madeira. Sua roupa estava mais alinhada. De fato nunca a vi tão bem cortada, os olhos vendados dos homens com corda no pescoço, suas bocas cheias de algodão.
Todos os olhos nele, uma contagem regressiva.
A corda estalou, e quatro homens não eram mais homens, eram coisas balançando no ar.
Vieram os aplausos e meu pai, qual um Vincent Price dos pampas se curvou reverente, bati palmas também, por aquele homem tão desconfortável consigo que finalmente achara uma vida que lhe caía bem.
Aquele homem portando o sorriso de um artesão orgulhoso.

