In Transit: Navigating Between Two Worlds | Em trânsito: navegando entre dois mundos

By Bárbara Santiago, PC’17

Bárbara Cruvinel Santiago reflects on the challenges of embracing the habits of her American peers, while trying to remain connected to her Brazilian roots as she transitions into adulthood.

ORIGINAL

“Você mora aqui ou lá?”, me perguntou em português a atendente da companhia aérea ao ver meu passaporte brasileiro. Eu estava fazendo meu check-in no JFK, em Nova York, para o meu voo para São Paulo. Hesitei incialmente e respondi “aqui”; alguns segundos depois, corrigi para “quer dizer, meu endereço oficial é lá, eu acho”. A moça pareceu intrigada. Mal sabia ela que eu estava mais confusa ainda. Há muito tempo eu me pergunto o que é o conceito de casa para mim. Ouvir aquela pergunta só fez com que essas dúvidas se tornassem algo concreto.

Hoje, cada um dos meus documentos mostra um endereço diferente, referentes a lugares que nem no mesmo país não são. Onde é a minha casa? Será ela onde eu nasci e cresci ou onde eu passo a maior parte do tempo? Onde as pessoas falam a minha língua nativa ou o lugar cuja língua nativa eu falo 24 horas por dia? Onde minha família está ou onde estão as pessoas com quem eu convivo? Eu nasci e fui criada em um país por 18 anos. No entanto, os últimos três anos, na minha transição da adolescência para a vida adulta em um ambiente completamente diferente, parecem ter sido tão ou mais importantes que os 18 anos que os antecederam. A minha identidade foi, então, desconstruída e remodelada com retalhos de convicções, culturas e línguas absolutamente distintas.

Quando eu vim para Yale, havia somente mais um aluno vindo do Brasil no meu ano. Assim, eu passava todo o meu tempo com pessoas de todos os lugares possíveis, menos daquele de onde eu mesma vim. Naquela época, eu era sempre a brasileira do grupo. Hoje, eu já me misturei com as pessoas ao meu redor e sou só mais uma aluna de física e uma Yalie no meio dos meus amigos. Eu absorvi os costumes dos meus colegas e me sinto totalmente alienada perto de brasileiros da minha idade. Eu não sei quais são os últimos hits das rádios brasileiras, qual novela está passando na TV Globo ou quais são os memes mais populares das redes sociais no Brasil. Contudo, eu sei qual foi o último absurdo profanado pelo Donald Trump e quais são as razões de alguns dos meus amigos votarem na Hillary Clinton e outros, no Bernie Sanders. Quando eu estou no Brasil, eu sinto falta da naturalidade como conversas intelectuais surgem em Yale e de falar com alguém que entenda a bolha onde eu vivo. Algumas piadas que parecem tão corriqueiras sobre política, raça ou gênero no Brasil hoje me incomodam, e muita gente me acha esquisita por isso quando eu volto. É difícil explicar para a minha família o quão intensa é a vida universitária aqui, o que é a pressão, que eu não estou aqui a passeio numa viagem ao exterior por quatro anos, o que significa querer seguir a carreira que eu tenho em mente após me formar e o que eu realmente preciso fazer para chegar lá. Quando eu tento explicar o quanto eu mudei para uma pessoa que me conheceu antes de vir para cá, me sinto figurativa e literalmente “lost in translation”, porque tal como essa expressão, não consigo encontrar palavras que traduzam minhas experiências na sua devida proporção.

Ao mesmo tempo, eu ainda me refiro a tudo na primeira pessoa do plural quando converso sobre economia, política ou educação do Brasil, porque de certa forma ainda me sinto responsável por isso tudo. As referências culturais da minha infância ainda são puramente brasileiras. Eu não saí por aí falando “doces ou travessuras?” no Halloween, mas eu pulei carnaval na escola e dancei quadrilha na festa junina quando era criança. Hoje eu me sinto bastante confortável morando nos Estados Unidos, indo ao correio ou à farmácia, viajando ao redor ou declarando meu imposto de renda americano. Mas, quando eu estou aqui, ainda sinto saudades da cortesia brasileira no atendimento ao cliente, por exemplo. A minha realidade, as minhas convicções, a mentalidade que eu desenvolvi de acordo com as minhas experiências e a minha carreira estão aqui, mas eu tenho responsabilidades em relação à minha família e ao país onde eu nasci, e ambos estão a mais de 7000 km de distância.

Causa desconforto ter que navegar este espaço entre dois mundos, onde as pessoas pensam diferente e têm expectativas incompatíveis. É inevitável que eu abrace as angústias, as convicções e os hábitos de um aluno universitário tipicamente americano, apesar de a minha família me ver como uma aluna de faculdade nos moldes brasileiros. Ao mesmo tempo, é impossível traduzir para aqueles que me cercam o que é sentir-se responsável por um lugar em que você não consegue estar fisicamente. Eu não sou americana, mas também não me sinto plenamente confortável quando eu visito o Brasil tal como eu me sentia antes. No momento, o sentimento é de que eu pertenço a dois lugares e a lugar nenhum ao mesmo tempo, como se eu fosse jogada de um canto a outro a todo instante. Dessa forma, entre países, fusos horários, culturas, realidades, rotinas, línguas e opiniões díspares, existe um estado em que eu continuarei por um bom tempo: em trânsito.

TRANSLATION

“Do you live here or there?” the airline attendant asked me in Portuguese upon seeing my Brazilian passport. I was checking-in for my flight to São Paulo at JFK, in New York. I hesitated initially and answered “here”; a few seconds later, I corrected myself: “I mean, my official address is there, I think.” The attendant seemed puzzled. Little did she know that I was even more confused than she was. It had been a while since I started asking myself about the concept of home. Hearing that question just solidified my doubts.

Today, each one of my documents shows a different address, different places that are not even in the same country. Where is my home? Is it where I was born and raised, or where I spend most of my time? Where people speak my native language, or the place whose native language I speak 24 hours a day? Where my family is, or where the people I live with are? I grew up in Brazil for 18 years. However, the last three years, in which I transitioned from adolescence to adulthood in a completely different environment, seem to have been as important as or even more important than the 18 years that led up to them. My identity was deconstructed and rebuilt with pieces of very distinct convictions, cultures and languages.

When I came to Yale, there was only one other student coming from Brazil in my class year. So, I spent all of my time with people from all different kinds of backgrounds, except my own. At that point, I was always the Brazilian kid in the group. Today, I’ve blended with my classmates, and I’m just one more physics student and a Yalie among my friends. I absorbed my colleagues’ habits and I feel totally alienated around Brazilians my age. I don’t know the latest hits in Brazilian radios, which soap operas are being screened by Globo TV or what the most popular memes on Brazilian social media are. Nonetheless, I know what the latest absurdity said by Donald Trump was and what the reasons are for some of my friends to vote for Hillary Clinton and others, for Bernie Sanders. When I’m in Brazil, I miss how naturally intellectual conversations pop up at Yale, and speaking with someone who understands our college bubble. Some jokes about politics, race or gender in Brazil that seemed so ordinary bother me today, and a lot of people think I’m strange because of it when I go back. It’s hard to explain to my family how intense college life is here, what the pressure is like, that I’m not here just travelling abroad for touristic purposes for four years, what it means to follow the career I have in mind and what I need to do to get there. When I try to explain how much I have changed to people who met me before coming to the US, I find myself figuratively and literally “lost in translation.” I can’t translate such an expression to Portuguese, just as I can’t find the words that fully translate my experiences.

At the same time, I still refer to everything in the first person plural when I talk about Brazilian economy, politics or education, because I still feel responsible for all of it in one way or another. My childhood cultural references are still purely Brazilian. I didn’t go trick or treating on Halloween, but I celebrated carnival at school and danced at the June party when I was a child. Today I feel fairly comfortable living in the US, going to the post office or to the drugstore, travelling around or filing my American tax return. Yet I still miss things from Brazil like the politeness of Brazilian costumer service. My future, my convictions, the mindset I have developed due to my experiences and my career are all here, but I also have duties towards my family and my country, both of which are over 4000 miles away.

Navigating the gap between these two worlds, where people think differently and have incompatible expectations, causes me discomfort. It’s inevitable that I embrace the struggles and habits of a typical American college student, despite my family seeing me as a student who goes to a typical Brazilian university. On the other hand, it’s impossible to translate to my Yale friends what it is like to feel responsible for a place where I cannot be physically. I’m not American, but I also don’t feel as comfortable as I felt before when I visit Brazil. At the moment, I feel like I belong to two places and to nowhere at all at once, as if I was thrown from place to place all the time. In this way, between different countries, time zones, cultures, realities, routines, languages and opinions, I will remain in this condition for a while: in transit.

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