Pati

Julia acordou com o corpo dolorido. Tinha dormido toda encolhida por conta do frio e do banco de madeira, que não era o suporte ideal para suas costas. Apoiar a cabeça na mochila também não tinha ajudado muito o pescoço, mas era melhor do que nada. Era noite e ventava muito. O vento encanava na estação de trem e fazia a sensação térmica despencar. Mas, outra vez: pouco abrigo era melhor do que nenhum. Na rua, fazia 8 ºC facilmente penetrados na jaqueta de moletom fina e puída que a cobria. Era sua roupa mais quente.

Não fazia ideia de que horas eram e tinha perdido completamente a noção de quanto tempo dormira. Lembrava apenas que tinha chegado à estação de madrugada, antes das cinco da manhã e praticamente desmaiara de exaustão no primeiro banco vago que encontrou. Achava que tinha dormido até a noite do mesmo dia, mas, no estado em que estava, podia muito bem ter apagado por mais de 24 horas. Não conseguia acreditar que a tinham deixado ficar ali por tanto tempo. Normalmente, um segurança a teria enxotado para fora. Se a deixaram em paz, devia estar com uma aparência tão ruim que dava pena.

Virou-se com cuidado, o corpo inteiro e não apenas o pescoço doído, de modo que conseguisse ver o grande relógio no centro da estação. Os ponteiros marcavam 7h45. Os restaurantes estavam abertos e ainda dava tempo de tentar conseguir comida. E era bom conseguir, avisou o ronco do estômago oco e ácido, vazio há sabe-se lá quanto tempo.

Em meio ao barulho dos trens partindo e da agitação de passageiros, que a faziam desviar constantemente de suas malas e sacolas apressadas, Julia dirigiu-se calmamente ao banheiro. Tirou da mochila jeans rota um tubo de pasta de dente quase vazio. Espremeu o tubo com força até que um pouquinho de pasta azul ficasse no seu dedo. Há tempos não tinha uma escova. Esfregou os dentes com o indicador, analisando sua imagem no espelho: parecia abatida, com o rosto pálido e emoldurado por olheiras. A magreza de seu corpo se perdia dentro do moletom e dos shorts que usava: estavam muito largos. Cobrindo suas pernas, uma meia calça preta, rasgada em vários lugares, fazia suas coxas parecerem tão finas que não era difícil adivinhar que a garota não tinha comido recentemente.

Antes de sair, abriu o bolsinho externo da mochila e pegou um batom vermelho gasto, que havia achado no chão uns dias antes. Mal acreditara na sua sorte quando o avistou. Nunca tivera maquiagem antes. Era desperdício comprar maquiagem em vez de comida ou cigarros. O batom estava bastante usado, mas ainda tinha o suficiente para ela usar muitas vezes se economizasse. Era a coisa mais nova e valiosa que possuía. Passou o batom nos lábios ressecados pelo frio e ficou feliz com o resultado: seu rosto já parecia menos doentio.

Mal colocou os pés na calçada e começou a bater o queixo. Enfiou as mãos no bolso da jaqueta, encolheu os ombros e encarou a rua, analisando as opções. O plano era achar um bar classe média e descolado e pedir para trabalhar limpando e lavando a louça em troca de um bom hambúrguer e um maço de cigarros. Não adiantava simplesmente pedir comida. Não à noite. De dia, quando estava fraca de fome, podia entrar em um restaurante de família e implorar por um prato para as senhoras simpáticas que reabasteciam os buffets e morriam de dó da menina esquelética com cara de abandonada. Mas quando o sol se punha e os lugares noturnos abriam, sua imagem de alguma forma se transformava na moleca possivelmente drogada que devia estar planejando furtar o caixa, apesar de que a única coisa que Julia roubava eram pacotes de absorvente quando ficava menstruada.

O tipo de restaurante era muito importante. Os lugares de gente rica simplesmente a enxotavam sem ouvir uma palavra do que dizia. Os botecos ordinários faziam o mesmo. Mas os donos dos barzinhos decorados com quadros de bandas e que serviam lanches “gourmet” de alguma forma sempre se solidarizavam com sua situação difícil. “Tô sem grana e preciso comer, mas não quero de graça, não. Trampo pra ti a noite toda e você me descola um rango e um maço”, repetia ela de cor. O uso das gírias era um detalhe empregado com cuidado. E a parte que dizia “não quero de graça” era o toque mágico que enchia seu estômago no final da madrugada.

Apesar do frio, Julia caminhou sem pressa até uma viela apinhada de gente e restaurantes. Deixou o cheiro de comida penetrar suas narinas e aspirou com vontade, imaginando que o aroma era sua recompensa final, em vez de se desesperar por conta da fome. Analisou as opções com calma, enquanto tragava um cigarro. Jogou a bituca no chão assim que se decidiu: Rock n’ Burguer era o escolhido.

Empurrou as portas de vidro do bar e foi conduzida pela familiar atmosfera de extroversão. Foi inundada pela descontração daquele mundo iluminado em meia luz. Ouviu os burburinhos de gente conversando, misturados ao barulho da sinuca ao fundo e do rock suave que embalava os clientes. Jimmy Hendrix e John Lennon a encararam serenamente da parede.

Estava a meio caminho do balcão e tinha acabado de identificar o funcionário com quem iria falar quando o garoto de uma das mesas acenou para ela com um tom de feliz surpresa:

— Pati!

Ela o olhou confusa e virou para todos os lados procurando a garota com quem ele devia estar falando, mas todas as outras pessoas estavam sentadas às suas mesas, concentradas nas conversas e nos amigos. Ele repetiu, acenando mais enfaticamente:

— Pati, aqui.

O menino e as três pessoas que o acompanhavam viraram para ela e sorriram, com uma expressão de reconhecimento no rosto. Uma das garotas se levantou, caminhou em sua direção e a abraçou com força, repetindo “eu não acredito, não acredito”.

Ela a conduziu para a mesa do grupo e a fez sentar numa cadeira vazia que puxou da mesa ao lado. Eles faziam muitas perguntas — Por onde você andou? Quando chegou? Por que não entrou em contato? — , mas aparentemente não esperavam respostas. Estavam eufóricos com sua presença e se revezavam para tocar sua mão ou seu ombro, dizendo “que bom que você está aqui” ou “que coincidência te encontrar assim”, enquanto Julia começava a dizer “Eu não sou…”, “Não sei quem…” sem achar uma brecha para terminar as frases.

Ainda que o tom de voz deles fosse amigável e que eles parecessem genuinamente felizes em reencontrar Pati, Julia sentiu-se sufocada e ansiosa. De repente, parecia fazer muito calor lá dentro e mesmo a luz fraca das luminárias passou a agredir seus olhos. Começou a ficar tonta e trêmula e um dos garotos percebeu que havia algo de errado com ela.

— Está passando mal? — Perguntou ele. 
 — Ela está mesmo muito pálida. Está com fome, Pati? — Indagou uma das meninas. 
 — Vou pedir alguma coisa para você comer. Garçom — chamou o segundo garoto, erguendo a mão no ar e virando-se em direção ao balcão. 
 — Não! — Disse Julia com firmeza, o que fez com que todos finalmente parassem de falar e a encarassem surpresos e um pouco ofendidos.

Ela se assustou com a intensidade dos olhares e levou um segundo antes de conseguir murmurar: 
— É que perdi minha carteira.

As expressões nos rostos dos quatro se descontraíram.

— Aaah, não tem problema — disse o menino, voltando a chamar o garçom.

Julia segurou o cardápio nas mãos e, por um segundo, não soube o que fazer com aquele objeto estranho. Raramente escolhia a própria comida. Os pratos que ganhava, tanto de graça como em troca de algumas horas de trabalho, vinham prontos e ela comia o que recebia sem reclamar. Então, esqueceu-se de que não era Pati ou como tinha parado naquela situação esquisita e apenas saboreou a oportunidade de pedir o que quisesse. Olhou para as opções, que pareciam infinitas, com atenção, lendo a descrição de cada prato e escolheu um hambúrguer clássico, duplo e com batatas fritas e refrigerante.

Fez o pedido para o garçom alheia à conversa dos outros e quando se voltou outra vez para a mesa, todos a encaravam, confusos.

— Hambúrguer de carne?! — Exclamou uma das garotas.

Houve um período de silêncio sufocante e, então, Julia arriscou, quase resmungando:

— Voltei a comer.

A menina pareceu razoavelmente satisfeita, mas continuou lançando olhares desconfiados para ela, mesmo depois que a conversa tinha sido retomada.

O prato foi servido e Julia segurou o hambúrguer com as mãos, comendo vorazmente, enfiando batatas fritas na boca antes de engolir o sanduíche e tomando grandes goles de refrigerante. Outra vez, notou que as pessoas na mesa a olhavam de relance, lançando pequenos olhares de curiosidade. Um dos garotos sorriu para ela divertido e ela retribuiu o sorriso um pouco sem graça. Diminuiu a velocidade, pegou um guardanapo e passou a mastigar com calma. Pretendia dar um desculpa para ir embora uns dez minutos depois de terminar a refeição. Não queria parecer rude nem chamar muita atenção para ela, portanto, decidiu agir discretamente.

Assim que terminou de comer, Julia achou que entrar um pouco na conversa parecia uma boa ideia. “Dar a impressão de que adorei o papo e cair fora”, pensou. Trocou meia dúzia de palavras vazias durante uma conversa rápida, mas que lhe pareceu interminável, e que girava em torno dos filmes em cartazes no cinema. Em algum momento, o debate se polarizou: o garoto que chamara o garçom, e que ela descobrira se chamar Miguel, estava muito empolgado com uma película de terror lado B, enquanto a garota chamada Lívia defendia que nada chegava aos pés da saga de super-heróis, cuja trama ela conhecia em detalhes. Miguel, ela notou, falava articuladamente e usava jargões cinematográficos complicados, o que a deixou irritada. Ele também parecia fumar e tomar cerveja com gestos calculados para impressionar. Lívia usava palavras simples, tinha um jeito mais contido, mas parecia mais inteligente.

Julia estava perdida em pensamentos, analisando o jeito de falar de Miguel e Lívia, quando percebeu que o outro garoto a olhava, curioso. Voltou a cabeça em direção a ele, que largou o copo em cima da mesa e puxou a cadeira para perto dela, sem desviar o olhar. Com os rostos quase colados, ele perguntou baixinho:

— Por que não está bebendo?

Ela quis dizer que estava, sim, mas voltou os olhos para a mesa e percebeu que nem mesmo tinha um copo. Na verdade, ela queria se manter sóbria enquanto não se desvencilhava do grupo, mas, pensando bem, seria bom para se fazer de enturmada.

— Não quis abusar do Miguel — disse. 
 — Você sabe que ele não vai se importar — retrucou o garoto.

Julia deu um sorriso amarelo e tentou pensar em um assunto para mudar o rumo da conversa, porém o menino continuava com o resto perto demais, com o olhar fixo demais… Sem saída, pediu discretamente um copo, que o garçom encheu antes de sair. Tomou um gole muito pequeno e sorriu como quem diz “satisfeito?”. O garoto sorriu de volta, ainda sem desviar os olhos dela.

— O engraçado é que mesmo se ele se importasse, você não deixaria de beber por causa disso — ele debochou e ela teve certeza de que tinha sido descoberta.

O tempo se dilatou e o mundo se reduziu, enquanto Julia gaguejava em busca do que dizer. Não lhe ocorria nenhuma resposta satisfatória e ela estava convencida de que começara a suar frio e que logo uma gota escorreria pela sua testa e a denunciaria de vez. Foi salva, no entanto, pela intervenção de Lívia, que pedia a atenção de todos para fazer um brinde a reencontrar os amigos. Julia sentiu o estômago dar voltas ao perceber que de novo era o centro das atenções e a ânsia de ir embora cresceu. Porém, não conseguiria escapar enquanto ela era o assunto, especialmente com aquele garoto reparando nela.

Depois do brinde, como Julia previra, Lívia voltou-se para ela e recomeçou a perguntar por onde tinha andado e o que tinha feito todo esse tempo. Surpreendentemente, o menino que continuava com o olhar fixo nela foi quem aliviou o interrogatório.

— Aaah, deixem ela em paz, seu chatos. Parecem os pais dela — disse ele em tom descontraído, mas com uma afetação que apenas Julia percebeu.

O grupo seguiu a deixa e voltou a falar de assuntos triviais. Julia olhou de relance para o garoto, que sorriu discretamente para ela.

A noite continuou até que os funcionários do bar começassem a recolher as cadeiras e acender as luzes. Julia comentou que achava melhor ir embora. Ela pretendia sair antes dos outros, então disse que estava com pressa e que era melhor cair fora logo. Levantou-se, começou a agradecer pelo hambúrguer, mas os outros se levantaram também e Lívia a puxou pelo braço, fazendo conversa fiada e a conduzindo para o caixa com o resto deles. A oportunidade de sair tinha passado. Agora que todos estavam tão perto de ir embora, não havia motivos para não irem juntos.

Os cinco saíram para o frio da madrugada e formaram uma roda na calçada. Julia voltou a tremer de frio e notou que os outros, mesmo vestindo roupas muito mais quentes, estavam com as mãos nos bolsos, encolhidos e movimentando-se no mesmo lugar para se aquecer. No entanto, o vento gelado no rosto foi revigorante depois de algumas horas sob tensão dentro do bar apinhado e morno.

— Vamos chamar um táxi — disse a moça cujo nome Julia ainda não sabia. Todos concordaram e Miguel tirou o celular do bolso para chamar um carro. — Onde você vai ficar, Pati? — Ele quis saber.

Julia tentou pensar em uma resposta razoável e vaga ao mesmo tempo.

— Tenho umas coisas para fazer por aí, não vou para casa agora — disse e todos a olharam sérios e desconfiados. — Mas vou para casa logo, gente — emendou.

Miguel deu uma risadinha desdenhosa e olhou para o lado, balançando a cabeça.

— O que isso quer dizer, Pati? “Ir para casa”? — Perguntou Lívia.

Julia não soube o que dizer. Apenas abriu a boca para falar, mas desistiu. O garoto que a encarara por tanto tempo dentro do bar voltou a olhá-la fixamente, com um leve ar de divertimento.

— Você vai para casa com a gente — sentenciou Lívia.

A ansiedade atingiu Julia em cheio. Uma necessidade muito grande de se afastar daquelas pessoas se apoderou dela e ela não se importava mais em parecer calma ou à vontade.

— Não! — Disse ela, mais alto do que pretendia e, em seguida, tentou retomar um tom de voz mais ameno: — Olha, é muito gentil, mas tenho que ir — acrescentou enquanto se afastava.

Lívia tomou seu braço mais uma vez, com firmeza.

— Você vai com a gente, Pati.

Ela soava determinada e Julia sentiu um tom maternal na sua voz. A garota não estava sendo agressiva, pelo contrário, parecia querer protegê-la.

Então, o táxi chegou e Julia foi conduzida para dentro do carro. Pensou em empurrar Lívia e sair correndo, mas desistiu no último segundo. Percebeu que não conseguiria ser agressiva com ela. Espremeu-se, então, entre as duas garotas e o menino sem nome no banco de trás, enquanto Miguel fazia conversa fiada com o motorista na frente. “Ok. Uma noite na casa dela, de manhã cedo eu saio de fininho. Ela não vai me fazer mal”, disse mentalmente, tentando se acalmar.

À medida que se afastavam do centro, os prédios davam lugar a casas cada vez maiores e mais caras. Chegaram, por fim, a uma rua residencial muito limpa, ladeada por árvores dos dois lados. Todas as casas tinham um quintal enorme e garagens com pelo menos duas vagas. O lugar era tão silencioso que chegava a ser sufocante. Ninguém ouvia música, nenhum cachorro latia, nenhuma TV parecia estar ligada. Os cinco seguiram em fila para dentro de uma casa amarelo claro em estilo francês. A entrada se abria para uma sala de estar enorme, com janelas de vidro que deixavam à mostra uma piscina em formato de lago. Julia nunca tinha visto uma sala tão grande nem móveis tão refinados.

Ao contrário do que esperava, os meninos e a garota sem nome não foram embora. Eles pareciam muito à vontade. Os garotos se dirigiram para o corredor que devia levar aos quartos e a menina foi até a cozinha procurar algo na geladeira. Lívia notou seu olhar curioso em direção a eles.

— Os meninos precisavam de um lugar para ficar, então, eu e a Sabrina os chamamos para passar um tempo aqui.

A garota voltou da cozinha com uma lata de refrigerante nas mãos e se estirou no sofá.

— Acho que a Pati não sabe sobre o pai e a mãe, Lívia — disse, enquanto procurava o controle da TV. 
 — Eles se separaram — contou Lívia. O pai voltou para a casa dos nossos avós e a mãe está dando um tempo nos Estados Unidos. 
 — Na real, eles nos abandonaram. Igual os seus pais. Mas tá tudo tranquilo. Eles deixaram grana o suficiente — falou Sabrina com desdém.

Lívia balançou a cabeça levemente, como se a irmã estivesse falando uma besteira tão grande que a envergonhava.

— Enfim — continuou Lívia — a gente nunca usa o quarto dos dois, e, como os meninos estão no quarto de hóspedes, você pode dormir comigo. Vou arrumar sua cama.

Sabrina esperou que ela saísse e sussurrou, por cima do ombro:

— Ela não quer admitir.

Voltou-se para a TV e rapidamente ficou absorta demais no jogo de basquete para prestar atenção em Julia.

Ela andou pela sala, prestando atenção na decoração e imaginando que nunca teve dinheiro suficiente nem para comprar uma das almofadas do sofá. Continuou passeando pelo aposento e se deteve em frente a um móvel perto do corredor, coberto de porta-retratos. A maioria das fotos mostrava Lívia e Sabrina crianças e só havia uma foto delas com os pais, segurando as duas, ainda bebês, no colo. Algumas das molduras tinham fotos mais recentes colocadas de modo descuidado por fora do vidro, cobrindo a imagem que ainda estava dentro do porta-retratos. As imagens mais novas mostravam os quatro atuais residentes da casa. Julia distraiu-se observando Miguel fazendo churrasco ao lado da piscina, empunhando uma espátula como se fosse um troféu, enquanto os outros três sorriam de dentro da piscina. Achou a imagem particularmente engraçada e chegou a soltar uma risadinha que ela nem percebeu quando saiu dos seus lábios.

Julia continuou passando os olhos pelas outras imagens até que viu a si mesma em uma fotografia. Assustada, chegou a pensar por um segundo que tinha sido perseguida, sua foto roubada e colocada em uma montagem. Devia ser uma brincadeira de mau gosto, talvez tortura psicológica. Então, entendeu: Pati. Pegou a foto com as mãos trêmulas. Os cincos estavam enfileirados em um salão de festas e ela, no meio, se destacava dos outros, usando um vestido longo de festa, verde esmeralda. A semelhança entre as duas era impressionante, embora Julia achasse que jamais tivesse parecido tão bonita ou feliz. Eles eram mais jovens, mas a foto não devia ter mais de dois anos. Ela continuou observando a foto, boquiaberta, prestando atenção nos detalhes daquele rosto tão parecido com o seu e se perguntando onde estaria a garota agora.

— Tem mais fotos da sua formatura em algum lugar no meu quarto. Amanhã eu procuro.

A voz de Lívia a trouxe de volta e ela percebeu que continuava apavorada. Mais uma vez, sentiu o ímpeto de simplesmente sair dali, correr até que estivesse muito longe.

— Eu trouxe um pijama para você e toalha, se quiser tomar um banho — continuou. — Eu já vou dormir. Você pode deitar a hora que quiser.

Lívia desejou boa noite e se virou, mas se deteve no limiar da porta.

— Você esteve bem esse tempo todo? — Perguntou sem olhá-la nos olhos. — — Sim — respondeu Julia o mais sinceramente que pode.

Ela assentiu, ainda sem lhe dirigir o olhar e entrou no quarto.

Julia entrou no banheiro e ficou maravilhada: o lugar era iluminado, grande e limpíssimo. A louça da pia parecia reluzir e, logo abaixo, uma cestinha guardava uma variedade exagerada de sabonetes finos. O papel higiênico, assim como a toalha que recebeu, era macio como algodão. E havia a banheira! Magnífica e convidativa. Em uma prateleirinha, Julia encontrou sais de banho e reprimiu um gritinho de felicidade. Ela não conseguia se lembrar da última vez que havia usado um chuveiro e agora tinha uma banheira. Aquela noite estava sendo incrível. Irreal e assustadora, mas incrível.

Ela não podia acreditar que estava tomando um banho de banheira. Usou muito mais sal de banho do que necessário e só se levantou depois que a pele das mãos e dos pés ficou enrugada. Passou o tempo simplesmente deitada, sem pensar em nada, aproveitando a sensação de calor e conforto que ela nunca antes havia sentido. Depois, lavou a cabeça no chuveiro e passou condicionador no cabelo. Condicionador! Quem diria?! Secou o cabelo com um secador, rindo, um pouco triste, das vezes em que precisou fazer o mesmo no soprador de mãos dos banheiros públicos. Por fim, encontrou escovas de dente ainda na embalagem e escovou os dentes com uma boa quantidade de pasta.

Lívia estava profundamente adormecida quando Julia entrou no quarto. Ao lado de sua cama, um colchão estava arrumado no chão. A cama improvisada era o lugar mais confortável e cheiroso em que Julia já deitara. Havia lençóis limpos, um travesseiro macio e um cobertor felpudo e quentinho. Julia não conseguia acreditar na sua sorte. Já nem pensava mais em quanta ansiedade sentira no bar e no pânico que se avolumou quando Lívia decidira trazê-la. Talvez, pensou, pudesse ficar aqui por mais uns dias.

Adormeceu rapidamente, relaxada após o banho e aconchegada na cama confortável. Sonhou que sua mãe estava ali, abrindo a porta do quarto e sorrindo para a filha. Ela se inclinou e deu um beijo na testa de Julia, mas quando se levantou, não era mais sua mãe. Era Pati, usando o vestido verde esmeralda e chorando, as lágrimas deixando rastros de maquiagem borrada por onde escorriam. “Você roubou meu lugar”, repetia ela, ficando mais exaltada a cada vez. “Você roubou meu lugar”, gritava. Julia murmurava baixinho que não, não tinha sido de propósito, mas a outra não dava sinais de que podia ouvi-la. Ela se levantou e caminhou com passos fortes em direção à porta, repetindo mais alto: “Você roubou meu lugar”. Por onde passava, o quarto se transformava do aposento iluminado e bonito em um lugar escuro, sujo, frio, sem janelas. E, então, Julia se viu deitada em cima de folhas de jornais, no chão imundo de cimento, como tantas vezes fizera. Pati cruzou o umbral e desapareceu, seus gritos ainda ecoando: “Você roubou meu lugar”. Julia tentou se levantar, queria segui-la, mas não conseguia se mexer. Então, percebeu que não estava sozinha. Com o canto do olho, viu um par de olhos enormes, amarelos, brilhantes, a encarando do quanto do quarto. E gritou.

Acordou assustada. Apalpou o colchão debaixo dela para ter certeza de que ainda estava ali. Olhou também para o canto onde estavam os olhos, virando a cabeça muito rápido, como quem precisa arrancar um curativo. Estava tão ofegante que teve receio de acordar Lívia com o barulho da respiração. Gotas de suor tinham molhado seus cabelos. Então, levantou-se com cuidado e saiu do quarto o mais silenciosamente que pode. Caminhou no escuro até a sala, onde Sabrina ainda assistia à TV.

— Pesadelo? — perguntou ela desinteressadamente depois de dar uma olhada no rosto pálido da hóspede.

Julia limitou-se a balançar a cabeça. Foi até a pia e bebeu dois copos cheios de água. Suas mãos tremiam. Sabrina notou e ficou um pouco mais curiosa.

— Minha nossa! Com o que foi que você sonhou?

Julia, distraída e ainda com as sensações do sonho na pele, quase respondeu: “Com a Pati”, mas sua boca mudou de ideia no último segundo e disse:

— Com minha mãe.
 — Explicado, então — replicou ela, voltando a agir com desinteresse.

Julia sentou-se ao lado de Sabrina e as duas assistiram à TV juntas, em silêncio a maior parte do tempo. Sabrina estava vendo um programa antigo de comédia e, apesar de reservada, era amigável e parecia não se importar em ter companhia.

— Lívia sentiu muito sua falta — disse ela de repente.

Julia se retesou. O alerta que havia soado em sua cabeça repetidas vezes aquela noite acendeu de novo e ela lembrou que não devia estar ali, apesar da cama cheirosa, do banheiro limpo e do sofá confortável. Seus sentidos voltaram a lhe dizer que era melhor ir embora antes que se enredasse demais. Sabrina notou sua agitação e emendou:

— Relaxa! Não vou perguntar nada. Só achei que você quisesse saber.

Julia voltou sua atenção para TV por alguns minutos e quando achou que já podia ir embora sem parecer que estava fugindo, desejou boa noite e levantou-se.

Dirigiu-se para o corredor escuro, totalmente protegido da luz da TV que se esparramava em outra direção na sala de estar, e precisou tatear a parede para procurar o quarto. Suas mãos deslizaram pela parede e tocaram uma maçaneta. “Segunda porta à direita”, lembrou. Seguiu em frente e, repentinamente, sentiu uma presença às costas. Virou-se lentamente, com as mãos ainda coladas na parede, paralisada demais para avançar, mas sem conseguir impedir-se de conferir o que vinha atrás. No entanto, antes que pudesse virar o corpo suficientemente, sentiu que um braço a agarrava e a puxava contra um corpo forte, ao mesmo tempo em que uma mão tapava sua boca. Sem necessidade. O pânico não teria deixado que gritasse.

Ela foi arrastada até o fim do corredor e jogada para dentro de um quarto enorme, banhado pela débil luz dos postes lá fora que se infiltrava pelas rendas das cortinas. Na penumbra, avistou um tecido escuro esvoaçando em um quanto do quarto, no lado oposto. O vulto se mexeu ao longo da parede, dançando à brisa leve que entrava pelas janelas abertas. Assistiu à cena hipnotizada, até que uma faixo de luz revelou a silhueta de uma mulher e o tom esverdeado do vestido que usava.

Julia pensou em correr, mas não conseguiu. Em vez disso, arrastou-se ao longo da parede em direção à porta, sem dar às costas para figura etérea que continuava a se aproximar com o mesmo movimento. Por um momento, o absurdo daquela cena a atingiu. Vislumbrou, como em um sonho, os dois vultos, o dela e o da mulher, banhados de luar, sincronizados em uma dança macabra e teve vontade de rir. Porém, quando seus dedos tocaram a maçaneta, a aura onírica se desfez e Julia notou que lágrimas de medo escorriam de seus olhos.

Enxugou o rosto e voltou para a sala. Queria ter certeza de que Sabrina ainda estava lá, de que não havia sonhado.

— Não ia dormir? — Perguntou a garota, olhando-a de relance, mal desviando o olhar da TV. 
 — Não consegui — disse ela com a voz mais firme possível. 
 — Mas você acabou de ir — constatou a outra, de novo com o ar de desinteresse.

E então, a pergunta escapou dos lábios de Julia sem que ela soubesse:

— Você pode ir comigo até a minha casa?

Confuso, seu cérebro cogitou a possibilidade de que sua boca quisesse dar uma voltinha no casebre sujo e mal mobiliado onde havia crescido, com sua mãe constantemente drogada até o dia em que ela simplesmente não voltou do trabalho. Mas Julia queria ver sua “nova antiga casa”: o lugar onde Pati morava. Imaginou que poderia encontrar alguma informação, talvez saber se a garota estava morta. Se tinha acabado de ver um fantasma.

Sabrina, pela primeira vez, voltou toda a atenção à hóspede. Girou o corpo, dando às costas para a TV. Olhou-a com intensidade, como se a visse pela primeira vez, e simplesmente perguntou, com genuína curiosidade:

— Por quê? Não tem ninguém lá.

E então, Julia compreendeu o motivo de tê-la escolhido, mesmo que inconscientemente: dentre as quatro pessoas da casa, ela era a única que não a julgaria, seja lá qual fosse o motivo pelo qual Pati tenha se afastado da família.

— Porque eu preciso — explicou com sinceridade. 
 — Ok. Amanhã a gente arruma uma desculpa para sair.

A manhã seguinte amanheceu ensolarada, mas fazia tanto frio quanto no dia anterior. Lívia emprestou roupas quentes e muito caras para Julia. Na verdade, deixou que ela vasculhasse seu guarda-roupa à vontade e pegasse o que mais gostava. Acabou escolhendo um casaco vermelho, com um cinto da mesma cor na cintura, e que lhe caía abaixo dos quadris. As duas se divertiram experimentando roupas e riram do contraste do casaco, novo e requintado, em comparação às botas velhas que Julia usava. Lívia queria emprestar-lhe um sapato também, mas elas calçavam números diferentes.

— Engraçado — ela comentou. — Jurava que usávamos o mesmo tamanho.

Julia foi até a cozinha e se surpreendeu com a mesa do café da manhã: pães, frutas e caixas de suco e diferentes tipos de leite estavam espalhadas pela mesa da cozinha, onde Sabrina e os garotos comiam. Acostumada a fazer uma refeição por dia — no máximo duas, com muita sorte — ela nem tinha cogitado a ideia de comer. Café da manhã era um conceito abstrato em sua cabeça e não pode evitar uma expressão de espanto.

— Chocada com comida, Pati? Até parece que já passou fome — disse o garoto intrometido, com ironia propositalmente exagerada.
— Cai fora, Mateus — defendeu Sabrina exasperada, enquanto abria a geladeira para pegar uma embalagem de iogurte.

Lívia apareceu e sugeriu que todos fossem ao cinema, já que havia muito tempo não passavam o dia reunidos, todos os cinco. Sabrina rapidamente disse que precisava da ajuda de Julia para comprar um presente para um amigo e que elas já haviam combinado de ir ao shopping. Puxou Julia pelo braço e saiu, sem dar brechas para que alguém fizesse perguntas. “Podiam ter me chamado”, gritou Lívia enquanto se dirigiam à porta.

Caminharam até o final da rua antes de chamarem um táxi. Não queriam esperar na frente da casa e dar a chance para que os outros se oferecessem para ir junto. Entraram no carro e Sabrina esperou que a outra indicasse o endereço ao motorista. Julia, que nem mesmo havia pensando sobre isso, ficou surpresa consigo mesma pela rapidez com que encontrou uma solução.

— Acho que não quero mais ir — disse ela.
— Rua Rio Claro, 830 — informou Sabrina. — Não vai desistir agora — completou.

A casa era grande e bonita, mas não tão sofisticada quanto a que estava hospedada. Um grande jardim a cercava e a deixava um pouco isolada das outras residências da rua. Entraram pelo portão alto e passaram por pinheiros e arbustos que enfeitavam o pequeno caminho de pedra até a porta da frente.

— Não tenho mais a chave — avisou Julia, tomando cuidado em acrescentar a palavra “mais”. 
 — Pega a do esconderijo, oras! — Falou Sabrina displicentemente. Então, notou a falta de reação da outra. — Você não sabe onde é o esconderijo, né? — E, pela primeira vez, lançou a Julia um olhar de desconfiança.

Ela levantou uma pequena e discreta pedra esverdeada perto um canteiro de flores, pegou a chave e entregou a Julia.

— Você primeiro.

Assim que abriram a porta, sentiram o leve cheiro de mofo de um lugar que ficara fechado por muito tempo. Apesar disso, a casa não parecia abandonada. Estava razoavelmente limpa e todos os objetos e móveis estavam no lugar, como se os moradores apenas tivessem se ausentado por algumas semanas.

— Alguém vem aqui? — perguntou Sabrina notando que a geladeira estava ligada na tomada e que havia comida na cozinha. 
 — Eu venho — disse uma voz às costas das duas.

Julia se virou e deu de cara com uma garota impressionantemente parecida com ela, mas um pouco mais alta. Não fosse por isso, seriam idênticas.

Sabrina, ao contrário do que Julia esperava, não reagiu de forma intensa. Não soltou nenhuma exclamação, nem abriu a boca dramaticamente. Parecia apenas fazer um esforço muito grande para encontrar uma explicação lógica. E aparentava estar achando a tarefa difícil.

— Quem é você afinal? — perguntou Pati.

Sabrina olhou para ela com curiosidade e silenciosamente deu a entender que a pergunta era muito boa. As duas a encaravam intensamente.

— Julia — informou baixinho.
— Como você veio parar aqui? Por que procurou essas pessoas?
— Não procurei. Foi por acaso. Entrei no bar para conseguir trabalho e acharam que eu era você.
— E por que não desmentiu?

Julia não sabia como responder. Podia dizer que se sentiu coagida, que teve medo de ir embora, de dizer quem realmente era, apesar de ter tentado no início. Pensou em contar como planejara ir embora da casa das irmãs assim que tivesse a chance, mas, ainda assim, não conseguiria explicar porque havia ficado. Nem tinha certeza do motivo.

— Eu não tinha para onde ir — disse ela por fim.
— E você? Como sabia sobre ela? — indagou Sabrina, agora olhando Pati nos olhos, como se a desafiasse.
— Eu fico de olho em vocês. Vi a garota no bar aquele dia. Vocês não me notaram, mas notaram nela — contou Pati, indignada — Não acreditei quando ela entrou no carro com vocês.

As três ficaram em silêncio, a cabeça baixa, cada uma uma juntando as informações do jeito que conseguia. Então, Pati recomeçou, como se contasse uma novidade trivial:

— Apareci para fazer uma visita. Queria te fazer cair fora — explicou para Julia. — Queria te deixar com medo.
— Visita? Que visita? E por que você está escondida? — Interpelou Sabrina, com uma nota de raiva na voz.
— Vocês estão sentindo esse cheiro? — Interrompeu Julia, mas foi ignorada.
— Porque sim. Porque eu precisava — explicou Pati, na defensiva.
— Vem daquele quarto. Está bem forte.

Julia se afastou das duas, que começaram a trocar acusações, erguendo cada vez mais a voz, e abriu a porta do cômodo. O cheiro de podridão inundou suas narinas e ela precisou se esforçar para não vomitar. No cômodo, tinha um jogo de cama antigo e muitas fotos de família na parede. Seria um quarto normal, não fosse por algo completamente fora do lugar: na parede dos fundos, ao lado da cama, havia um freezer. Julia avançou pelo quarto, segurando o nariz e respirando pela boca. Na sala, Pati notou sua ausência e gritou para que ela voltasse, mas agora Sabrina também estava interessada e a seguiu para dentro do quarto, respirado dentro da gola da blusa. Julia abriu a porta do freezer ao mesmo tempo que Sabrina cruzou a porta. O cheiro ficou insuportável e ela tossiu e fez ânsia de vômito antes de conseguir olhar dentro do freezer. Ela abriu a boca para gritar, mas a garganta não emitiu som.

Pati se aproximou, furiosa e fechou a tampa. Começou a empurrar Julia para fora do quarto violentamente. Sabrina aproveitou a brecha e levantou a tampa. O cheiro parecia ter se espalhado com mais força, mas a garota conseguiu encarar o conteúdo do freezer: havia pedaços esquartejados de dois corpos: quatro braços, quatro pernas, duas cabeças. Uma cabeça de homem e uma de mulher a encaravam, com olhos descarnados.

Desta vez, Julia não conseguiu impedir a onda violenta de vômito que seu estômago enviou. Sabrina ainda encarava os cadáveres, boquiaberta.

— Seus pais — balbuciou. — São seus pais — mas a outra não estava mais ali para ouvir.

Julia conseguiu parar de vomitar e puxou a amiga para fora do quarto. As duas respiraram, aliviadas, o ar mofado da sala de estar. E então, Pati voltou da cozinha empunhando uma faca. Sem aviso, acertou um soco na barriga de Sabrina, a empurrou para o lado e atacou Julia com a lâmina. Cortou-lhe a mão que ela havia espalmado para se defender. Sabrina tentou intervir na briga, mas era muito menor que as outras duas e acabou sendo jogada violentamente em cima da mesa de centro.

Julia foi imobilizada por Pati. A garota era surpreendentemente forte e Julia percebeu como foi arrastada para dentro do quarto dos pais de Lívia na mansão. Pati desferiu outro golpe, acertando o antebraço que Julia usou para proteger o alvo da atacante: o pescoço. Ela estava cansada e a outra era muito ágil. Então, estirada no chão e sangrando, Julia entendeu que morreria. Pati ergueu a arma acima da cabeça e estava pronta para golpeá-la mais uma vez. Julia fechou os olhos com força e esperou pela dor, que não chegou. Abriu os olhos e viu que Sabrina segurava o braço da garota, impedindo que ela continuasse usando a faca. Julia conseguiu rolar para o lado e se levantar e, juntas, ela e Sabrina imobilizaram a garota. E, então, foi Julia quem a golpeou, ágil e impulsivamente. O corte na garganta de Pati foi profundo e ela morreu rapidamente, agonizando no chão da sala, o cheiro de sangue e de mofo se misturando horrivelmente.

As duas estraram em pânico. Julia sentou no canto da sala, abraçando os joelhos e mordendo os lábios enquanto chorava baixinho. “Eu devia ter ido embora, eu devia ter ido embora” repetia mentalmente. Sabrina andava de um lado para o outro, passava a mãos pelos cabelos e murmurava palavrões. Ela perguntou para Julia, incontáveis vezes: “O que é que a gente vai fazer agora, cacete?” e Julia apenas balançava a cabeça e chorava mais, ainda segurando a faca que usara para matar a garota.

Sabrina sentou-se ao lado dela, de repente parecendo ter recuperado a calma. Removeu a arma de sua mão e perguntou serenamente:

— Por que você acha que ela nunca se livrou dos corpos?
— Não sei — disse Julia, trêmula.
— Não é óbvio? Porque alguém os encontraria — disse, como se explicasse algo difícil para uma criança. — Mas aqui, não…. — continuou, contemplativa. — Ninguém vem aqui. Todos acham que os pais dela estão na Europa, que a deixaram sozinha quando descobriram que ela era viciada em cocaína. É a história que ela conta para todo mundo, apesar de que a parte do vício é verdade — Explicou a garota. — Ninguém vem aqui.

Lívia e os garotos estavam sentados no sofá da sala, bebendo cerveja. O sol se punha lá fora e a temperatura tinha despencado de vez, fazendo os cortes na mão e no braço de Julia doerem mais. Ela usou uma bandagem improvisada com panos de prato para conseguir ajudar Sabrina a cuidar do corpo: arrastaram o cadáver até o banheiro e o jogaram dentro da banheira. Então, desmembraram Pati com os talheres da cozinha e enfiaram os pedaços dentro do freezer, junto com os restos dos pais da garota. Precisaram limpar o chão da sala, a banheira, a faca e as próprias roupas antes de irem embora. Fecharam tudo, incluindo as janelas, o melhor que puderam e juraram nunca mais pisar na casa. No caminho de volta, passaram em uma farmácia — um hospital exigiria documentos — para cuidar dos cortes e disseram ao farmacêutico que Julia estava cozinhando e bebendo vinho ao mesmo tempo. “Péssima ideia, né?”, Sabrina falou em tom de brincadeira.

Julia estava impressionada com a serenidade com que a amiga tinha tomado o controle da situação. Foi a garota que dissuadiu Julia de fugir e a convenceu de que tudo ficaria bem se ela continuasse se passando por Pati. Ninguém procuraria por uma pessoa que não está desaparecida. Então, as duas voltaram para a mansão e o clima acolhedor acalmou Julia. Havia um caixa de pizza quentinha na mesa de centro a frente deles. A lareira estava ligada e a sala, confortavelmente aquecida.

— Que bom que vocês voltaram. Temos pizza e vamos ver filmes — anunciou Lívia alegremente.
— Vocês parecem meio pálidas — notou Miguel. — Está tudo bem?
— Tudo certo — disse Sabrina, que sabia mentir muito bem. — A Pati vai ficar com a gente por um tempo — emendou.
— Que notícia boa! — Disse Lívia, com sinceridade.
— O que é isso na sua mão? — Perguntou Mateus, apontando para as bandagens na mão de Julia.
— Ela tropeçou na rua e tinha caco de vidro no chão. Foi bem engraçado, na verdade — mentiu Sabrina outra vez.

Os cinco foram dormir algumas horas depois. Julia deitou na cama improvisada no quarto de Lívia. Estava bem alimentada, limpa e confortável. Pensou sobre a dura vida nas ruas que tinha deixado para trás, pelo menos por enquanto. A que preço tinha conseguido isso! Ela sentiu o sono vir fácil, apesar do que acontecera. No entanto, sabia do pesadelo que a esperava: Pati. Sonhou que os pedaços dela saíam sozinhos de dentro do freezer e se juntavam, formando uma espécie de Frankenstein. Então, o monstro a esquartejava viva e era ela quem ia parar dentro do freezer. Acordou ofegante e molhada de suor. Sentiu que não estava sozinha e esperou ver os olhos amarelos com que sonhara antes a encarando do canto do quarto, mas eles não estavam lá. Em vez disso, veio a voz:

— Eu sei que você não é ela — sussurrou Mateus em seu ouvido antes de fechar cuidadosamente a porta do quarto atrás de si.