Como anda o sindicalismo brasileiro?

Uma análise dos movimentos sociais brasileiros

Ódio elitista próximo a greves

Quanto mais próximos ficamos de uma greve geral, mais ouvimos críticas dos setores reacionários da sociedade. Os capitalistas e seus assíduos defensores afirmam que nós estamos em um processo de alienação de nossa realidade social, que estamos cegos e somos massa de manobra dos partidos ditos de esquerda e de grandes empresários. Somos taxados de ignorantes e manipulados, ao mesmo tempo em que nos chamam de selvagens e violentos. Nos chamam de vagabundos e preguiçosos, ao mesmo tempo em que nos acusam de gênios do mal que buscam a destruição da sociedade brasileira.

Quanto mais próximos ficamos de uma paralisação dos trabalhadores, mais comuns ficam as publicações de ódio aos sindicalistas, aos movimentos operários. Mais comuns tornam-se as decepções com amigos e parentes. Chega a véspera da paralisação e nos deparamos com publicações de cunho extremamente reacionário, escritas por pessoas que considerávamos boas, justas. Amigos mostram-se pessoas vis, egoístas. Ídolos revelam-se bonecos nas mãos do sistema capitalista. Muitas vezes chegam a, até, revelar-se como os próprios ventríloquos.

É comum dizerem que devemos protestar nos fins de semana. Eu lhes pergunto, então: como podemos parar a produção e a execução de serviços em escala nacional, de uma maneira eficiente, fazendo-o apenas no domingo? Os trabalhadores devem ter, em uma greve decente, o seguinte objetivo como o principal: parar a produção para gerar prejuízos aos lucros do patronato. É por isso que torna-se necessário aos patrões esse exército de defensores alheios à realidade social, para que tomem frente do conflito ideológico com exibições de seus ideais infames em mídias sociais.

Como a esquerda institucionalizada prejudica a luta operária

Quando uma greve se aproxima é comum, também, vermos grupos ditos socialistas cercando movimentos sociais. Tal fato seria compreensível, e extremamente lógico, se não fossem as lideranças sindicais pelegas que encontram-se em destaque no atual cenário político brasileiro. O aparelhamento estatal de movimentos populares deve ser considerado um dos principais fatores responsáveis pelo enfraquecimento da luta operária. O Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) são exemplos de partidos que enfraquecem a luta dos trabalhadores.

O Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) é um ícone da militância antipopular da chamada “esquerda brasileira”. Durante manifestação ocorrida no dia 13 de dezembro de 2016, na cidade de Fortaleza (CE), houve ações de truculência a militantes do bloco autonomista (anarquistas). Ativistas do MTST e de organizações da Frente Povo Sem Medo perseguiram e agrediram anarquistas, com direito a mastro de bandeira e pé de cabra. Esse ato odioso de canalhice foi incitado por militantes do Kizomba (coletivo estudantil de Fortaleza) e da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Logotipo do MTST

Movimentos ditos de esquerda unem-se a ícones contrários à luta revolucionária. Pare e pense: quantas vezes você já viu um petista que se autodenomina “revolucionário”, defendendo Kátia Abreu? Lembre-se, a dona Kátia é um símbolo dos latifúndios brasileiros. Representa o que há de pior no cenário da política de áreas rurais, a contramão na luta progressista pelos direitos dos trabalhadores do campo e dos cidadãos indígenas. Diga-me: como pode um partido dito de esquerda, apoiar uma pessoa que mantém dois terrenos improdutivos com cerca de 1.200 hectares de terra? 12 km² de terras que não estão sendo utilizados. Terras que foram, aliás, compradas de um trabalhador campesino. Lembre-se também de que nossa amiga Kátia Abreu é conhecida por seu posicionamento favorável a políticas de desmatamento.

Kátia Abreu e Carina Vitral,presidente da UNE ( à esquerda, na ponta). Foto postada pela senadora em seu Twitter, no dia 10 de agosto de 2015.

O ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva é considerado por parte da esquerda brasileira como sendo a principal liderança atual na luta contra a ascensão de forças reacionárias. Eu então lhes pergunto: como pode a principal liderança da esquerda ser um homem cujo método fundamental de avanço político é a tentativa de conciliar as classes sociais? A esquerda deve aceitar como principal liderança um homem que acredita em bandeira branca aos opressores da classe trabalhadora? Quando digo isso, o faço com bom senso. Reconheço os feitos de Lula em prol da classe operária. Reconheço e admiro sua capacidade de ter tirado o Brasil do Mapa da Fome da ONU. Reconheço e admiro sua capacidade de ter levado água aos sertanejos nordestinos, ao iniciar o projeto da transposição do Rio São Francisco.

Os ex presidentes Lula e Dilma em cerimônia de inauguração da transposição do Rio São Francisco.

O que falta a esquerdas brasileiras?

Porém o bom senso falta a grande parte das “militâncias” de esquerda no Brasil. A esquerda deve abandonar de vez esses delírios sociais-democratas e abraçar de volta o fervor revolucionário que reinava durante a luta popular contra a Ditadura Civil-Militar. O atual cenário político do Brasil é algo inédito na história brasileira pós-Vargas. Um presidente que põe em prática um programa de governo não eleito, que ceifa direitos trabalhistas com o ódio das elites internacionais. Um governo que retira a obrigatoriedade de, entre outras matérias, Filosofia e Sociologia no Ensino Médio. Esses exemplos unem-se à violência estatal contra cidadãos de periferias — negros, em sua maioria — e nos revelam que, embora vigore a Constituição Federal de 1988, o que nós vivemos é a absurda probabilidade do retorno de um regime autoritário. Digo “autoritário” referindo-me aos moldes gerais da Ditadura Civil-Militar e da ditadura do Estado Novo. Todo esse ataque aos direitos trabalhistas e ao sistema educacional já foi visto durante a Ditadura Civil-Militar. O fator de diferenciação entre nossos tempos ditatoriais e o presente momento, é a passividade vista nos setores de oposição ao governo. Na Ditadura Civil-Militar tínhamos, por exemplo, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). O MR-8 teve participação, em 1969, no sequestro do então Embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick. Esse ato foi responsável pela libertação de 13 presos políticos que foram ,então ,exilados no México. Tínhamos a Ação Libertadora Nacional (ALN), grupo de guerrilha urbana fundado por Carlos Marighella, principal símbolo da luta armada contra a Ditadura Civil-Militar. Arrisco dizer, sem medo de errar, que Marighella está entre as principais figuras revolucionárias da América Latina do século XX.

13 presos políticos trocados pelo embaixador Charles Elbrick. Foto tirada antes da viagem de exílio no México.

Um fantasma ronda o Brasil — o fantasma do fascismo. Quando chamo o atual cenário de “fascismo”, não faço qualquer alusão ao Fascismo Italiano. Não falo do Fascismo como uma doutrina, mas sim como um aspecto cultural. Não pense que não há comunistas sendo levados aos porões de delegacias como nas citadas ditaduras brasileiras. Isso ainda ocorre. As Polícias Militares, principalmente, são protagonistas em atos descabidos de torturas a cidadãos. Arrisco dizer que todos os métodos de tortura utilizados nos porões da Ditadura Civil-Militar são ainda utilizados contra aqueles considerados subversivos, os marginalizados pela sociedade.

Como devemos reconstruir o sindicalismo brasileiro?

Ainda vejo, frequentemente, dúvidas sobre como a esquerda brasileira deve promover o crescimento do sindicalismo revolucionário. Como apagar essas vergonhosas militâncias de quinta-coluna de dentro do movimento operário?

Ora, esse é justamente o primeiro passo. Devemos apagar essas ideias do movimento. Um forte trabalho de base por parte da esquerda, com o objetivo de conscientizar a classe operária como um todo. Devemos travar discussões em sindicatos, em fábricas, no campo. Discussões acerca do sindicalismo revolucionário. Devemos difundir os ideais socialistas em toda a sociedade brasileira. Devemos transcrever textos com esses ideais no maior número possível de páginas. Para criar consciência de classe no proletariado como um todo, não devemos ter medo de mostrar nossos pensamentos políticos. Para construir a base para o sindicalismo revolucionário, devemos estar mais à disposição.

Devemos repreender figuras políticas de traição à classe trabalhadora. Os movimentos de esquerda devem mostrar aos trabalhadores que, em suas lideranças, há canalhas que agem contra o progresso da luta operária e a favor dos interesses do patronato. Grupos como Força Sindical, Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) devem ser abandonados e deixados à beira da morte política, da mesma forma que fazem com o movimento operário.

Guilherme Boulos, principal liderança do MTST. Ícone do sindicalismo aparelhado pelo Estado.

Considerações finais

Me vejo otimista quanto ao futuro da esquerda brasileira. Vejo surgir, a cada dia, pequenos grupos políticos potencialmente revolucionários, criados por jovens. Criados em ambientes que alcançam os jovens. Paralelamente ao crescimento do autoritarismo, há um crescimento de ideais libertários entre os jovens. Digo “libertários” no sentido estrito da palavra, não no sentido reacionário que nossos inimigos tentam lhe designar. O Libertarianismo Revolucionário, o Anarquismo, o Socialismo Libertário. Não o UltraLiberalismo — erroneamente chamado de “AnarcoCapitalismo” — , o liberalismo econômico que seduz adolescentes mimados que estão impossibilitados de sair de sua bolha social. Adolescentes que têm uma falsa percepção da realidade social. Aderem ao termo “libertarianismo” porque o consideram sonoramente legal. Querem se sentir rebeldes, querem sentir que lutam por algo. Porém não querem largar seus privilégios de classe.

O Libertarianismo Revolucionário, como foi dito, tem crescido entre os jovens. Com o passar do tempo, grupos políticos alinhados ao Socialismo (e, devo destacar, ao Socialismo Libertário) têm sido criados. Em redes sociais, páginas políticas com textos de linguagem acessível são publicados todos os dias. Em escolas, grupos estudantis verdadeiramente combativos são construídos por jovens que enxergam a luz no fim do túnel.

E é por isso que eu digo: a esquerda não deve temer as cobras vis do capitalismo. Não devemos temer as forças reacionárias que tentam incapacitar nossa luta. Devemos seguir lutando na defesa da classe operária. Devemos seguir lutando para construir uma base revolucionária em movimentos sindicalistas. O processo revolucionário é árduo, porém seus feitos ecoarão pelo futuro de nossa sociedade.

Paz entre nós, guerra aos senhores. A luta continua!

Fontes:

Terras improdutivas de Kátia Abreu:

Agressões a anarquistas em Fortaleza: