14 de Janeiro de 2017

Diário I: Sobre o Ócio

São Paulo,

Há exatos três dias atrás, tive uma visão privilegia sobre o que virá a ser minha Opus Magna — a Obra-mor que marcará minha eternidade. Trata-se de uma sequência de obras escritas, começando por uma antologia de crônicas e encerrando com um ensaio sobre o Mundo Comum e a Individualidade.

Ironicamente, nesta mesma visão, pude observar que o primeiro passo, necessário para a edificação desta obra (uma peça de romance escrito-literária), não se concretizará e nem a obra virá a ser concebida se eu o fizer através do meu corpo etérico. Tal propósito não seria alcançado, pois um romance em que cujo leitor não veste ou personifica em si a personagem protagonista não serve de nada: jamais conseguiria envolver seu o leitor e muito menos entregar-lhe sua mensagem.

Por este motivo, ainda ironicamente, faz-se necessário que eu abandone tal visão e imerja no mundo comum para de fato experimentá-lo, conhecê-lo e, por fim, alcançar as mentes que estão aprisionadas em suas não-tortuosas ilusões. Somente assim serei capaz de levá-las à luz da consciência. Para isso, precisarei também abdicar da minha consciência iluminada, a mesma que me possibilitou tal visão privilegiada, e ajudar os outros filhos de deus a também alcançá-la. Será para mim um enorme e obscuro experimento social e conceitual.

Desta forma, inicio o diário desta jornada. A fim de, como João e Maria, ou como Perseu, marcar meu caminho para achar a saída deste labirinto emaranhado de ideias e ilusões quando, e se, for necessário. Desta maneira, darei continuidade ao que carinhosamente batizei de Relatos Cotidianos: Sobre o Ócio de Anna.

Pretendo, outrora, repetir este hábito, o de compor diários baseados em relatos e experimentação, em futuras ocasiões e para futuras escritas.

As próximas páginas se referirão ao primeiro relato: escrito anteontem em papel guardanapo e transcrito hoje para este livro. Portanto, em alguns momentos, as referências temporais e ideias se farão confusas e até ambíguas, quando não antitesíacas.

Primeiro Relato

“Não há como conhecer a vida sem reconhecer que seu destino único e inquestionável é a morte, — e assim o fazem os românticos em suas declarações e poesias; ou que não há como conhecê-la sem vivê-la intensamente desde seu princípio, assim dizem os parnasianos. Mas para ambos os casos, há uma concordância: ignorando-se o início e o fim, ambos acordam que a vida é somente o ato de viver, e que o único meio de conhecer seus misteriosos caminhos é caminhando.

Aqui estou, caminhando?, talvez sim. Cá estou, pois, estudando o ócio de dentro para fora, vivendo-o, ou melhor, morrendo-o de seu fim até seu princípio (não posso negar minha natureza romanesca).

Ontem peguei com um amigo um bloco de folhas brancas com capa dura e preta, e este dedicarei ao registro do meu cotidiano e dos meus pensamentos enquanto estiver submerso em ócio.

Hoje, já em pouco tempo de imersão, senti os primeiros sintomas dele e do mundo comum. Sinto um temor imenso só de pensar em me render a este mundo, é um temor que sobe pela minha coluna, do cóxis à nuca. O impulso que essa sensação gera é tão forte que não exitei em cuspir para esse ‘veneno’ que estava me corroendo por dentro.

Meu incomodo começou com uma pergunta inocente, algo como ‘qual é o seu signo?’. Por deus!, acho que nunca antes eu havia feito essa pergunta tantas vezes quanto nos últimos 3 dias. Parece-me que de alguma forma os ociosos sentem-se confortáveis com signos. Aceitam-se e rotulam-se através deles.

Confesso que aderir aos signos foi o caminho mais rápido e menos torturoso para me aproximar desse mundo. Principalmente porque os ociosos, vulgo comuns, desconhecem, ou mesmo ignoram, suas vontades e a própria força de vontade. O que significa que são poucos os que conseguem se desenvolver além dos signos que lhes foram entregues quando nasceram. Eu poderia dizer até que são exatamente aquilo que nasceram e deles foi-se feito. Muitas das vezes seus signos dizem exatamente o que são.

Também confesso, não achei que minha encenação sobre os signos que agem sobre mim daria tão certo. Engraçado. Muito certo, diga-se de passagem: tão certo que não demorou muito para que a minha encenação tomasse também a minha vontade e invadisse minha consciência. Nesse pouco tempo, a sobrevivência nesse mundo mexeu com minha essência.

Não demorou muio mais para que essa atuação ridícula tomasse conta também do próprio ator que simula. Tão brevemente comecei a me preocupar com coisas materiais: o dinheiro começou a ser-me importante e a fazer-me falta. Agora rio, mas não ria quando recebi a notícia de que perderia meu vale-transporte ‘ilimitado’. Não só isso como também a aparência passou-me a ser relevante: andei preocupado sobre se a minha ausência de cabelo possuía ou não alguma espécie de charme masculino. Mas o pior de todos os sintomas foi, depois de ter sentido cansaço e preguiça, ter desejado que o tempo passasse rápido e logo. Desejei que o expediente se acabasse: senti como se o tempo fosse infinito, como se um dia a menos não fosse fazer falta.

Por horríveis que pareçam os sintomas acima, nenhum deles foi-me tão terrível quanto a sensação imunda e ridícula que senti de que poderia fazer justiça. Cheguei a achar que meu ponto de vista poderia ser tomado como ‘imparcial’ e fosse neutro a ponto de servir de juiz do mundo. — outra vez: são os olhos os vilões, são os primeiros a serem reféns do mundo comum.”


Neste sábado acordei atrasado. Perdi o nascer do sol e a noção de tempo. Diria até que perdi meu próprio tempo se não soubesse que as últimas horas que gastei assistindo séries, ontem à noite, fazem parte do meu experimento: da imersão no ócio e no mundo comum.

O curioso é que o mundo comum faz sentido. É subjetivo de tal forma que seus habitantes acreditam que são livres dentro dele. É feito de dualidades, de ordens-retóricas muito bem organizadas, feito de lados-ante-lados e coletivos que se confrontam; qualquer vertente, organizada, que se erga enquanto coletivo contra qualquer outro que já exista, ou contra qualquer lado que haja neste mundo, acaba por também tomar um lado, cria sua própria retórica e entra e looping.

Pode-se dizer que o Mundo Comum é perfeito: plenamente perfeito. Se não fosse pela minha imperfeição e atemporalidade, eu também estaria preso nele, como já estive um dia.


Diário I: Relatos Cotidianos Sobre o Ócio