23 e 24 de Maio — Branda da Aveleira

Paisagem envolvente da Branda da Aveleira, no Domingo de manhã.

Estava um calor intenso quando saímos de Gaia, por volta das 15h30, rumo à Branda da Aveleira. Eu e o Carlos seguimos de imediato rumo a Monção, onde o Carlos queria fazer uma paragem rápida para se abastecer de “comes e bebes”. Já começa a ser uma tradição parar naquele Pingo Doce. O Nuno e a Diana demoraram um pouco mais. Foram buscar o telescópio da Diana a casa, para a sua estreia absoluta no céu da Branda. A ideia era encontrar-nos todos em Monção e seguir juntos a partir daí. No entanto, o Nuno e a Diana seguiram por um percurso alternativo, guiados pelo GPS. O Carlos e eu, na mesma onda, seguimos as instruções do GPS com a opção “caminho mais curto”. O resto da viagem foi, como hei-de dizê-lo … pitoresca. Atravessamos caminhos de cabras, quase em corta mato, e duas pontes romanas tão estreitas que os carros mal passaram. Finalmente, no final da etapa, entrámos em estradas normais, por entre povoações e a serra, num zig-zag contínuo até chegarmos à Branda. Passava um pouco das 18 horas quando parámos no novo restaurante — “O Brandense” — para falar com os donos da casa. Fomos informados que a chave já estava na porta e que a iluminação pública — 4 lâmpadas na proximidade da casa — estava desligada desde a nossa última visita. Pouco depois chegavaram o Nuno e a Diana.

Estava um vento frio, e os mil metros de altitude do local pediram de imediato um agasalho. O céu, esse estava limpíssimo, e a Lua, a 2 dias do quarto crescente, estava suspensa naquela imensidão de azul eléctrico. Arrumámos a roupa e a comida e começamos de imediato a montar o equipamento. O Nuno e o Carlos ficaram no largo junto ao portão da casa. Eu e a Diana fomos para um caminho mais elevado com os nossos telescópios dobsonianos. A altitude e este frenesim de actividade despertaram em nós o apetite. Comemos, bebemos e relaxámos enquanto a noite não chegava. Ainda antes de escurecer, chegou o Henrique, depositado na Branda pela esposa e pela cunhada, e ainda abalado pela jornada em terras de Castro Laboreiro. A tradicional garrafinha de Alvarinho não faltou…

No início da noite, a Diana e eu aproveitamos para colimar os telescópios e depois dar alguma rodagem ao dobsoniano de 8" dela. Observámos vários objectos: Lua, Júpiter, Vénus, M13, M57, galáxias na constelação da Virgem, M51, etc. Quando finalmente a Lua estava prestes a pôr-se, o céu ficou mais escuro e dediquei-me a caçar galáxias, com o meu dobsoniano de 10", nas constelações do Boieiro, dos Cães de Caça e da Coroa Boreal. Mais para o fim da noite, ainda espreitei algumas galáxias nas constelações do Pégaso (o “Grupo de Deer Lick” e o “Quinteto de Stephan”) e do Cefeu (NGC 6946). Esteve uma noite agradável, apesar do vento frio no crepúsculo que desapareceu pouco depois de escurecer para voltar mais tarde. A transparência manteve-se excelente mas a estabilidade atmosférica deixou muito a desejar na maior parte da noite. Durante a noite, obtive várias medidas da qualidade do céu que apontavam para 21.1 mag/segundo-arco^2, típico de um bom céu rural.

O pessoal da astrofotografia também esteve entretido a noite toda. O Carlos e o Nuno com os seus APOs e câmaras CCD fizeram imagens de céu profundo, retratando objectos como o grupo de galáxias NGC 5981–5982–5985 no Dragão, Messier 51 nos Cães de Caça e Messier 16 na Serpente. O Carlos e o Henrique fizeram ainda fotografias de grandes campos da Via Láctea do Verão com resultados espectaculares que podem ver em seguida.

A Via Láctea na constelação do Cisne. Carlos Soares.
A nebulosidade entre Antares e a zeta do Ofíuco. Carlos Soares.
A Via Láctea de Sagitário até Perseu. Carlos Soares.
A Via Láctea na constelação do Cisne. Henrique Alves.
A Via Láctea nas constelações do Sagitário e do Escudo. Henrique Alves.
O trio de galáxias NGC5985, 5982 e 5981, na constelação do Dragão. Carlos Soares.
O trio de galáxias NGC5985, 5982 e 5981, na constelação do Dragão. Nuno Pina Cabral.
A nebulosa da Águia ou Messier 16, na constelação da Serpente, fotografada em H-alfa. Nuno Pina Cabral.

Quando começou a alvorada, a Diana e eu guardámos o equipamento. A Diana deitou-se mais cedo, estava cansada. Eu fiquei ainda a ajudar (mais ou menos) o pessoal a arrumar o equipamento de astrofotografia, uma tarefa morosa. Depois de completada a tarefa, havia já muita claridade, comemos e bebemos alguma coisa e fomos dormir para recuperar forças. Acordei era quase meio dia e, enquanto os outros ainda dormiam, saboreei o sossego daquelas paragens. Só se ouviam o vento, os pássaros, os insectos e a água que brotava da rocha mesmo ao lado da casa.

Depois de todos acordados, tomámos o pequeno almoço e sentamo-nos um pouco a ver as imagens obtidas na noite anterior. Eram já umas 14h30m quando, depois de arrumar o equipamento nos carros, deixámos para trás a casa. Passamos no restaurante para pagar a estadia e pusemo-nos a caminho, de volta a casa.