Três notas sobre Aula de Música, de Patrícia Lino

Fernanda Vivacqua
ADobra
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2 min readSep 3, 2022

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Por Bianca Mayer

I

Patrícia Lino, em “O prazer rigoroso e a leitura pós-verso” (2020, p. 147), explica-nos que a crescente complexidade da escrita acontece como resultado da exploração de movimentos perceptivos da linguagem — movimentos esses que acontecem na ultrapassagem do verbo em direção à imagem e ao som. Em Vibrant Hands (EUA, 2019), Patrícia expande 12 tisanas de Ana Hatherly ao estatuto de curta-metragem; em I Who Cannot Sing (2020), expande poemas de, entre outros(as), Paul Éluard, Sylvia Plath, Angélica Freitas, Luca Argel e Frank O’Hara ao estatuto de canção; em Ventiladora Fulô: variações sobre Galáxias de Haroldo de Campos, expande fragmentos verbais das galáxias de Haroldo de Campos ao estatuto de poesia verbivocovisual.

II

Em Aula de Música, porém, o passo dado por Patrícia Lino é ainda mais estreito. A concepção interdisciplinar da literatura acontece na variação de si mesma. Nesse seu mais recente livro, Patrícia provoca a expansão pluridimensional de um escrito seu que antes era unidimensional: seu poema “Aula de Música” é reinventado sob a ótica do verbo e do visual, sob a ótica do HQ.

Se o poema “Aula de música” reconta o pouco conhecido mito grego de Lino, o HQ Aula de música faz um movimento de recontagem tanto do poema que a si próprio deu origem quanto do mito que originou o poema. Ao que parece, o HQ Aula de Música opera ora no furto de uma poética já validada pela lógica colonial das universidades do hemisfério norte, ora no furto de um gênero textual ainda muito pouco discutido no contexto dos estudos literários: cabe, pois, ao(à) leitor(a) bem transitar entre o Grego Clássico e a Pop Art.

Por isso, com extrema delicadeza, Patrícia Lino mostra-nos, em Aula de Música, o que pode acontecer no espaço existente após o poema. Mostra-nos o que, na prática, pode chamar-se de uma leitura pós-verso. Em Aula de Música, não observamos meramente a aptidão de quem traz ilustrações ao seu poema; observamos a aptidão de quem traduz, substitui e, principalmente, expande os seus versos pela linguagem visual.

III

Se “não sempre perde a delicadeza para a força bruta?”, pergunta-nos Patrícia no HQ, posso responder-lhe: nem sempre. Nesse caso, ao ler e visualizar Aula de Música, a Grécia não chora.

Aula de Música, de Patrícia Lino, foi lançado em agosto desse ano, pela Capiranhas do Parahybuna. O livro pode ser adquirido na loja da editora.

Bianca Mayer é mestranda em Teoria Literária, Crítica e Comparatismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde também se graduou em Letras, com ênfase nas línguas portuguesa e inglesa. Cursou, além disso, parte de sua graduação em mobilidade acadêmica na Universidade do Porto. Atualmente, estuda a variação poética em Patrícia Lino.

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Fernanda Vivacqua
ADobra

Escrevo, pesquiso no doutorado em Letras (UFRGS), edito na Capiranhas do Parahybuna e na revista ADobra, reviso textos, escrevo de novo, e mais uma vez.