De Psicóloga a Designer no Facebook/Dublin — Entrevista com Inis Leahy

No artigo de hoje vamos contar sobre o papo que tivemos com nossa aluna do bootcamp Master Interface Design (MID), Inis Leahy. Uma psicóloga que decidiu mudar de área e foi para UX/UI. Atualmente trabalha no Facebook em Dublin.


Caso você prefira assistir essa entrevista no Youtube:


Olá, Inis. Pra começar, nos conte um pouco sobre você e principalmente de onde você veio, já que não era da área de Design.

Eu sou formada em psicologia, cheguei atuar na área por um tempo, mas não era exatamente o que eu queria. Então, decidi mudar completamente e fui para a área de Design.

Eu tinha um conhecimento básico que aprendi sozinha, como mexer no Photoshop, por exemplo. Mas nenhum conhecimento técnico.

Então, em 2014, decidi prestar o vestibular para Design e logo no primeiro semestre levei um choque, do tipo “não é isso, não vai funcionar” (risos). Percebi que os professores eram desatualizados e que se estudasse sozinha pela internet, iria aprender muito mais.

Percebi que a faculdade não era para mim e comecei a estudar pela internet. Foi aí que achei o Master Interface Design (MID) e fui fazendo cursos onlines. Fiz meu portfólio, fui aplicando para as vagas e consegui meu primeiro trabalho como Designer gráfico. Era uma vaga em uma Startup, e acabei tendo muito contato com o UI/UX, que eu nem sabia o que era na época. Foi então que me interessei e comecei a estudar sobre o assunto.

Sou de Salvador — BA e acho que lá é ainda mais atrasado essa questão de tecnologia. Não há muitas grandes empresas e as menores não contratam Designers. Não sei como está agora, porque já faz 2 anos que mudei, mas na época ninguém sabia o que era Web Designer por lá.

Você trabalhou com psicologia antes. Como foi para você essa troca de profissão?

Psicologicamente foi complicado. Eu trabalhava com pesquisa na parte de comportamento humano e cognição e eu já estava inserida no mercado de trabalho. Mas, para mim, ainda faltava alguma coisa. Principalmente ver a aplicação da sua pesquisa, já que na área acadêmica o máximo que você pode fazer é publicar artigo.

Foi um período de indecisão na minha vida, até que decidi mudar mesmo.

Já na parte do mercado de trabalho, foi complicado no Brasil. Principalmente no currículo, muitas vezes, eu não colocava que era formada em psicologia. Já que em algumas entrevistas as pessoas achavam estranho eu estar vindo de uma área "tão diferente".

O que na verdade, depois fui entender em outras experiências, que meu background não importava tanto assim, e que aliás, no mercado externo, um conhecimento em psicologia é muito valioso.

Wikipedia — Projeto nível 2 MID da aluna Inis

Conte como foi a mudança para Dublin. Você já foi com a intenção de trabalhar como Designer?

Meu marido e eu estávamos cansados de Salvador. Ele é programador, então para gente não fazia mais sentido ficar na cidade. Começamos a pesquisar para onde iríamos, e o fato de já termos a cidadania europeia facilitou a decisão.

Como é o mercado de trabalho para tecnologia em Dublin? Mais especificamente para a área de Web Designer.

Realmente tem muita vaga. As maiores empresas do mundo estão aqui, como o Facebook e Google. Então, se você for no Linkedin e pesquisar por “Web Designer — Dublin”, aparece muitos resultados.

O problema é que há muitos profissionais, também. Então, eu senti que as empresas não dão muita oportunidade para quem tem pouca experiência. Eles sabem que vão encontrar profissionais que já trabalharam em outras grandes empresas.

Passei por situações em que eu tinha todos os pré-requisitos, mas o recrutador se apegou em um detalhe. Houve uma situação específica, que um recrutador me perguntou se eu tinha experiência em metodologia Agile, eu falei que não, mas que eu sabia o que era, e que era algo que poderia aprender facilmente. Mas não servia para eles e fui descartada. É um mercado bem exigente.

Você chegou a trabalhar em Dublin mesmo fora da área de Design UX/UI?

Sim. Eu comecei a trabalhar como Designer gráfico em uma agência. E diferentemente de Salvador, aqui eles têm uma pegada mais tecnológica.
A gente fazia muito trabalho de UI/UX, principalmente voltado para site.

Apesar de eles não seguirem certinho o processo, voltado para o produto, tínhamos que testar, mandar para o cliente. Chegamos a fazer workshops para sites maiores. Então, tinha um envolvimento com UX, mesmo que mais simples.

O curso MID me ajudou muito, porque, ainda em Salvador, quando eu pesquisava para vagas, reparei que muitas pediam cursos nessa área. Foi assim que decidi realmente fazer o Bootcamp.

Logo no meu primeiro dia de trabalho, eles me mandaram um wireframe para fazer no Adobe XD. Ainda bem que eu tinha aprendido no MID. E acho que se não soubesse mexer, eu não voltava mais para a agência (risos).

Wireframe projeto Wikipedia da aluna Inis

Você passou um tempo pesquisando vaga e a gente te ajudando a quebrar essa barreira cultural local. Por fim, você chegou logo de cara no Facebook. Nos conte sobre sua experiência lá.

Eu apliquei para uma vaga, que não dizia que era o Facebook, era para Visual Designer. Inicialmente, a vaga parecia esquisita, já que não explicava direito sobre o que era, mas resolvi aplicar mesmo assim.

Foi só na primeira entrevista que eles me disseram que selecionaram alguns portfólios e que seria para trabalhar alocado no Facebook. Perguntaram se tínhamos interesse mesmo, queriam saber um pouco mais sobre nossa experiência e aplicaram um teste. Era para montar uma landing page e mandar o código para eles. Eles forneceram apenas o conteúdo, os blocos e as informações necessárias.

Depois de umas duas semanas, eu fui chamada para uma segunda entrevista. Já no prédio do Facebook, com o pessoal do time que eu trabalharia. Fiz a entrevista e estava muito nervosa e acabei não passando. Eles me mandaram um e-mail dizendo que tinham gostado de mim, mas que procuravam alguém com mais experiência.

Dois meses depois eu recebi outro e-mail do pessoal do Facebook falando que tinha outra vaga para a mesma função. Fiz outra entrevista e passei.

Desk da aluna Inis no Facebook

Como foi sua primeira semana no Facebook?

No meu primeiro dia fui para uma salinha com outras pessoas que estavam começando também. É uma média de 30 novas pessoas por semana lá. Recebemos um notebook e eles ensinaram como configurar tudo. É muita informação! Depois, a gerente faz um tour e mostra algumas partes da empresa.

Na sua opinião, qual a diferença de ser um contractor e um funcionário lá no Facebook?

Eu acho que a maior diferença é pela duração do contrato, que no caso do contractor é por um tempo determinado.

No caso do Facebook, nós temos algumas restrições em comparação a quem é efetivado. Coisas como plano de saúde e acesso restrito a informações. Mas nunca aconteceu de eu precisar acessar algo e ser restrito. Fora isso, eu não acho que há diferença.

E você sente que a exigência em cima do contractor é maior? 
Para outras vagas sim, mas no Facebook não. Eu sinto que lá eles preferem contratar com um tempo limitado quando querem lançar algum projeto novo. Ao invés de efetivar 20 pessoas para algo incerto, eles contratam um grupo com tempo determinado para ver se vai dar certo.

E como é seu trabalho em si lá?

Há muitas coisas que não posso falar (risos), por ser um produto novo, e o contrato de confiabilidade também.

Eu trabalho com uma equipe de Marketing que é do Facebook Game. Acho que muitas pessoas não conhecem. É voltado para a parte stream do game e é algo que eles querem validar com o Youtube, coisas do tipo.

Então, passa por todos os sites que eles têm e pelas pessoas que estão envolvidas com os games para terem acesso às informações. Tem muitos outros projetos inseridos nisso. E basicamente eu estou nessa parte dos sites. Tanto na parte de UI/UX, quanto na parte de manutenção do site. Eles têm o próprio CMS deles e a gente faz o código deste site dentro dele, que é bem restrito.

Está sendo um desafio bem grande, porque temos que fazer algo que funcione, mas tem várias restrições. É um processo bem lento.

Como é a dinâmica entre a equipe que você trabalha?

A equipe é composta por 3 Designers. No momento, estamos ainda analisando qual será a melhor forma de trabalhar, pois a equipe era menor. Mas, geralmente, a gente faz uma reunião e divide o trabalho de cada um por projetos.

Como é a questão de sign off? Há uma hierarquia para a aprovação?

Depende do projeto. Se forem projetos menores, é aprovado dentro da minha equipe mesmo.

É diferente — lembra uma Startup — só que você tem acesso a coisas absurdas. Quando eu estou com dúvida se posso fazer algo, ou não, minha gerente fala “ah, liga para tal pessoa lá no EUA e pergunta” (risos). Então, você marca uma reunião com a pessoa, ela recebe a notificação e você simplesmente conversa com a "fulaninha" que é simplesmente a chefe do departamento X de São Francisco/EUA. Não tem muito uma hierarquia rígida, é bem flat, você tem acesso para falar com, basicamente, todo mundo.

Prototipo nível 2 do MID da aluna Inis

Agora que você está no Facebook, outras empresas ficam te “paparicando”. Como está sendo isso para você?

Eu acho que tem muito a ver com o nome do Facebook. Acho que eles pensam que se você entrou em uma empresa desse porte, você tem as habilidades que eles precisam.

É como se fosse um certificado de “esse profissional é bom”. Eu percebo que tem muito mais pessoas entrando em contato comigo, querendo marcar entrevista. Coisa que não acontecia antes.

Você pretende continuar como contractor ou pretende aplicar para uma vaga permanente?

Eu gostaria de mudar para algo permanente. Por isso, deixei meu Linkedin aberto para novas oportunidades.

O seu LinkedIn está gerando grandes oportunidades para você como Designer? Leia nosso artigo Linkedin para Designers ou escute nosso podcast e tenha dicas essenciais para otimizar seu perfil.

Quanto ao MID, como você aplica as coisas vistas no curso e como você acha que te ajudou?

O que me fez decidir cursar o MID foi ver nas minhas pesquisas a quantidade de vagas para essa área de UI/UX. Então, vi que tinha a ver com psicologia e resolvi apostar no curso.

Era a primeira turma, e no começo eu não sabia nada. Comecei do zero e me ajudou muito. Desde a parte de software, a atitude de pensar no usuário, o que você está fazendo e porque está fazendo. Foi o que me salvou em Dublin. Acho que sem isso, eu não teria conseguido nem a primeira oportunidade.

Quais dicas você tem para dar para quem quer entrar na carreira de UI/UX?

Uma dica é exatamente esse pensamento estratégico de pensar no usuário. Acho que é o falta em alguns Designers gráficos. Muita gente quer fazer a parte só UI sem pensar no UX. Querem fazer algo muito bonito sem pensar se isso funciona ou não, qual o propósito.

Acho que esse é o pulo do gato. Você pensar no usuário, no marketing e na parte estratégica.

De uma forma geral, o que eu diria para mim mesmo, é a parte de confiança em você. Por mais que você não tenha muita experiência na área, você sabe o que está fazendo e que estudou. Acho que é isso que você tem que fazer: passar confiança naquilo que está fazendo.


Se você quiser conhecer outras histórias de alunos do MID que vieram de diferentes backgrounds e hoje estão atuando no merdado de UX/UI Design veja nosso canal no Youtube: http://bit.ly/entrevistas-alunos-mid