“Felicidadezinha”

Que é isso da felicidade?


Por Filipe Pinto Soares no Instagram e Facebook

Não foi tranquila a decisão de publicar este texto. Parte dele estava escrito há alguns meses, quando estive de férias em Agosto. Enquanto decidia, acompanhava-me um sentimento de familiaridade que me causou um desagradável conforto. Conforto por saber que o tema me tem ocupado tantas vezes as ideias, por me ser familiar, por imaginar que o mesmo se terá passado nalgum momento da vida de todas as mulheres e de todos os homens que alguma vez existiram. Alguns deles muito mais inteligentes, capazes e experientes, terão até dedicado boa parte, ou a totalidade, da sua vida a pensar, a produzir conhecimento e sabedoria sobre o assunto. O desagrado surgira por considerar, que perante tamanha magnitude das ideias já concebidas, por saber que não posso conhecer tudo o que já foi pensado, dito ou escrito, por verificar o falhanço assumido por todos as pessoas decentes na descoberta de uma solução universal, talvez por que não exista, independentemente do que eu pense ou escreva pouco ou nada mudará. É possível que tal não seja verdade, talvez possa mudar algo em mim ou em algumas das pessoas com quem contacto, talvez a solução esteja aí mesmo.

Nem mesmo esta ideia é original — a felicidade e os caminhos para a atingir são individuais e não universais.

Mas o que é isso de felicidade? Conforto-me na ideia de não saber responder e na presunção de que quem julga saber está enganado e engana.

“Também por estar de férias e sentir que para pôr em palavras o que tenho em ideias teria de trabalhar para que o resultado pudesse próximo do eu antevia, fazendo as referências devidas e ligando as ideias de forma clara.”

Escrevi o parágrafo acima em Agosto. Curioso como sinto vontade de voltar a este preciso texto meses mais tarde enquanto gozo novo período de férias. Noto, contudo, que já não sinto nem penso o mesmo. Precisei de quatro meses para digerir e aceitar que nunca escreverei algo que me deixe plenamente satisfeito e que nada de mal há nisso. O mesmo tempo serviu para perceber que o facto de não ter terminado este texto estava relacionado com a pretensão e uma ilusão de ser diferente daqueles que apregoam conhecer os caminhos para a felicidade e dos outros que juram saber que tal coisa não existe, quaisquer deles com a arrogância de conhecer o significado dessa palavra. Não sou diferente, sou apenas mais um a pensar sobre o tema. Mais um que partilhas as suas ideias do que pode significar ser feliz ou, pelo menos, partilha o que pensa sobre essa hipótese.

Não posso deixar de notar nas palavras que acabo de escrever e na forma como elas reflectem uma certa ambiguidade — “trabalhar” durante a férias, estar a “gozar” férias. Como se o trabalho e o prazer não pudessem estar associados. Claro que esta clivagem, que estava implícita nas minhas ideias e palavras, será inevitavelmente minha mas não posso deixar de pensar que não serei o único responsável, pois acredito que este é um dos males da contemporaneidade: a desintegração do prazer no trabalho; a separação do trabalho do resto da vida — a vida pessoal vs. a vida profissional.

Também foi para mim interessante perceber que tive vontade de voltar a este texto numa altura do ano em que chovem desejos e votos de felicidade sob as mais diversas formas e feitios. Também por aqui se passam a conhecer um pouco melhor as pessoas, pela forma como nos desejam felicidade e/ou como escolhem as formas mais comuns de a desejar:

  • Os adeptos de um estilo ditatorial: ”Sê feliz!”
  • Os que reclamam dívidas ou não se importam de se endividar OU que são fans do Raúl Solnado: ”Faz-me o favor de ser feliz”
  • Os “mãos-largas”: ”Tudo de bom para ti e para os teus”

Daria um texto interessante a análise dos votos de Boas Festas. Gostaria de ler algo que o Ricardo Araújo Pereira escrevesse sobre tema.
Agora que recomecei a pensar, a escrever e a pensar, apoderou-se de mim uma vontade para continuar. Vejo que há pelo menos duas razões que me fazem voltar a este assunto: a sua complexidade e também o prazer que tiro deste tipo de exercício, mesmo estando a “gozar” férias.

Não será inocente o facto de ter lido ou encontrado, mesmo sem os ter estudado a fundo, alguns textos e livros que abordam este tema de diversas perspectivas. Não são difíceis encontrar, refira-se.

É claro para mim que hoje, e talvez não seja exclusivo dos dias que correm, há uma preocupação e uma ocupação quase obsessivas com a busca da felicidade. De tal forma que, além da sua condição dolorosa, à infelicidade, à tristeza, à depressão acrescentam-se hoje o estigma a humilhação e a vergonha.
Talvez por vivermos na era da informação, de fácil acesso e proliferação que compete ferozmente pela nossa atenção levando-nos a estar presentes em diversos meios, esta observação seja hoje mais fácil de fazer. O principal problema com esta tendência, como sempre terá sido em relação a este assunto, é a definição do que é felicidade.

De diversos textos que tenho lido, cheguei a uma bruta e simplista espécie de categorização das formas de utilizar e de nos referirmos ao conceito de felicidade:

  • Ser vago, falar sobre outra coisa, utilizar outra palavra;
  • “Criar” uma definição que sirva, de forma utilitária, os propósitos do autor, normalmente para inventariar um conjunto de dicas ou uma receita (talvez a forma mais comum e por isso não coloco as demasiadas referências);
  • Remeter tudo para o físico, para o fisiológico e para o neurológico, recorrendo à moda das neurociências como explicação objectiva para tudo o que de subjectivo existe (sobre este assunto tenho em projecto outro texto para escrever);
  • Deixar a análise a um nível cultural, social, político e económico, dimensões importantes mas insuficientes quando não consideram a perspectiva individual;
  • Como não podia deixar de ser, como quase tudo nos dias de hoje, a felicidade tornou-se num negócio;
    - Há ainda os que advogam uma espécie de “anti-felicidade”, que apesar de todo o criticismo não conseguem evitar deixar uma série de receitas e soluções.

O que é comum nas modalidades acima descritas, e faltarão outras, é que não abraçam a complexidade e abrangência da questão. Esse é, quanto a mim, o problema em relação à felicidade e, provavelmente, a muitos outros conceitos. Está fraccionada, partida, desmembrada e a ser utilizada desta forma. Está é aliás uma crítica a uma facção da ciência, ligada de forma relativamente óbvia ao mundo organizacional e político em que apenas uma dimensão de fenómenos tangíveis, mensuráveis e replicáveis são considerados válidos.

“(…) a felicidade e a infelicidade são irmãs e até gémeas que, sempre em conjunto, ora crescem ou permanecem pequenas.” — Nietzsche

Agora entra um *cliché* ou uma “profundidadezinha”, como nos diz o filósofo Daniel Dennet (de referir o blogue Semiose onde encontrei a expressão “profundês”), esta é uma questão antiga que ocupa e preocupa os seres humanos desde sempre, como já tinha arriscado dizer. Claro que a forma como nos debruçamos sobre o tema tem mudado ao longo do tempo. Mudanças essas que não poucas vezes esquecem ou fazem mesmo por esquecer o que já foi dito, pensado e escrito antes. Como se a mudança implicasse um corte com o passado. Parece ser essa a moda hoje, desvalorizar o passado e dirigir todo o esforço a descobrir algo totalmente novo.

Talvez essa seja parte do desafio, encarar a mudança como algo inevitável, que deve integrar o passado e não o ignorar, procurando apenas construir um futuro. Nesta dança temporal, que paradoxalmente só pode acontecer no “aqui e agora”, esquecemo-nos do presente.

“Não, … estar infeliz não é humilhante. O sofrimento físico é por vezes humilhante, mas o sofrimento do ser não pode ser, é a vida.” — Camus

Acredito que é exactamente nos paradoxos, na ambivalência que residirá uma qualquer espécie do que se chama de felicidade. Da mesma forma que o crime é normal necessário e útil numa sociedade (Durkheim), que a doença faz parte da saúde (Canguilhem), também a tristeza e a felicidade não podem ser separáveis nem tampouco colocadas em extremos opostos.

Portanto, para 2014 desejo uma vida intensa rica e profunda, com doses iguais de felicidade e de infelicidade.

ACTUALIZAÇÃO: Acrescentei estas ligações para outra página deste website e outra publicação deste blogue. Pelos vistos penso e escrevo sobre este tema há mais tempo do que me lembrava.

_______________________

Original em joaosevilhano.com

Email me when Ideias Outras publishes stories