26 de abril de 2017 — A Força

Este artigo é parte da série “Como é tentar se matar e falhar”. Comece por ali, caso ainda não tenha lido.

Quarta-feira, Dia D + 19

Perdi o café. Vou parar de falar sobre ele. Perco todos os dias e perdeu a graça. Não tô conseguindo acordar e, se quer saber, decidi que café-da-manhã em clínica psiquiátrica faz mal pro espírito humano de sobrevivência. Por que? Porque sim. Porque inventei. E porque não consigo acordar.

Hoje é dia de visita da vigilância sanitária (de alguma maneira a clínica sabe disso). Alguns pertences dos pacientes (coisas como chocolates, cigarros, refrigerantes) são levados pra alguma masmorra para que a vigilância não dê BO no lugar.

E a clínica, veja você, ganha um certo facelift. Sabe a parede que estava suja? Pintaram. Sabe a o dispenser de papel que estava vazio desde a chegada dos Bandeirantes em São Paulo? Tá cheia a danada.

Chove muito. Já havia chovido antes. Mas hoje a chuva é forte. É daquelas de parar pra assistir. Pra contemplar.

Não deu tempo de contemplar qualquer coisa. Fui chamado à sala do Dr. Juan, o argentino que é dono da clínica. Na sala dele estavam o coordenador da clínica, os três psicólogos e um outro cabra que eu nunca vi na vida, segurando uma prancheta.

Percebi na mesma hora que aquela não seria uma reunião feliz, para soltar balões, comer bolo de chocolate e quebrar uma piñata cheia de doces ao final. O clima estava tenso e o assunto era eu. Preciso confessar que, por dentro, me deu uma felicidade de leve. Lá estavam O Imperador, Darth Vader, três Storm Troopers e um cara de prancheta. Por minha causa.

O Dr. Juan começou a falar, dizendo de cara que a equipe estava preocupada com a minha participação nas atividades da clínica. E já partiu pra uma analogia. De futebol ainda por cima. “É como se você fosse um excelente jogador que não está dando o seu melhor no nosso time. Imagine o Messi jogando de qualquer jeito, seria expulso do time”, Teve mais, mas o resumo é este.

Eu, que ganhei de bandeja uma das piores analogias da história, dei aquela estralada de dedos e comecei minha fala. “Dr. Juan, antes de tudo, é importante lembrar que eu não sou o Messi. Eu sou o perna-de-pau que já nem deveria jogando nesse time. Mas a coisa é pior, Dr. Juan. Eu sou aquele jogador que não dá a mínima pra esse time, acha o time péssimo e não quer jogar no time nem que fosse o último da Terra”.

Neste instante, uma brisa fria do norte entrou no recinto fazendo arrepiar até os cabelinhos da nuca a última mariposa de toda a propriedade — é muita mariposa que tem aqui.

Este é um caso, Dr. Juan, que o mundo corporativo chamaria de mal, de péssimo atendimento. Estou insatisfeito, não gosto dessa clínica e gostaria de sair. E é isso.

Foi quando o coordenador (Darth Vader na nossa história), o mesmo que no dia anterior nem queria me atender, tomou a palavra, pediu desculpas em nome da clínica e me pediu uma segunda chance. Antes que eu pudesse responder, o Dr. Juan (Imperador na nossa história) pediu a sala só para ele e eu. Todos desapareceram mo mesmo tempo de troca de pneus de um carro de Fórmula 1.

E foi aí que ele, Dr. Juan, usou seu sotaque porteño para falar sobre coisas que, confesso, não consigo me lembrar. Esse momento à sós com o Dr. Juan não existe na minha mente. A Força é forte com ele, pensei. E saí da sala disposto a ligar para a minha família e conversar sobre essa tal segunda chance.


Amanhã tem mais. Eu criei uma lista de músicas que tenho ouvido enquanto estou internado. Para ouvir, assine minha playlist do Spotify “After Death”. Ela é colaborativa. Significa que, além de assinar, você pode contribuir com músicas que goste.

Se quiser falar comigo, escreva para rodrigo@bressane.com.

Seja gentil,
Rodrigo Bressane