27 de abril de 2017 — O Cabra

Este artigo é parte da série “Como é tentar se matar e falhar”. Comece por ali, caso ainda não tenha lido.

Quinta-feira, Dia D + 20

Este é o primeiro dia depois que reconsiderei ficar (por curta temporada) na clínica. Nem por isso deixei de ser acordado por Minha Pequena Eva e São Só Garotos. Por força da repetição diária, estas canções brasileiras — que, como já disse, não deveriam existir — são as duas coisas que eu mais odeio no momento. Espero que a Pequena Eva tenha hemorróidas infinitas e que os Garotos desenvolvam terríveis doenças venéreas em seus respectivos pintos.

Conversei com Darth Vader (o coordenador da clínica) sobre as minhas considerações de permanecer internado, mas avisei que gostaria de sair no dia 7 de maio. Ele disse que ia ver sobre isso, o que, no meu guia de coisas ditas, não é um “sim”. Isso me deixa apreensivo.

O Imperador (Dr. Juan) deu uma palestra bem interessante sobre Sexo e os efeitos da repressão sexual. Falou especialmente sobre o orgasmo e como ele pode ser simples ou pleno. O orgasmo pleno, segundo Dr. Juan, envolve etapas de conquista. Acho que é ele tá mais pra Don Juan que Dr. Juan. Só um pensamento.

Contou a história de um aluno adolescente que apaixonou-se perdidamente pela professora 20 anos mais velha. “Que estranho, você deve pensar”, disse o Dr. Juan. Eu, que me apaixonei por 78% das minhas professoras pensei sim, muito estranho. O Dr. Juan disse que, eventualmente, descobriram que o que o aluno gostava naquela professora eram suas mão, que lembravam as da avó.

Enquanto todo mundo na sala fazia cara de maravilhado com a beleza psicologia moderna eu pensava com meus botões moleque safado sempre quis pegar a avó. Enfim, o objetivo era ser uma história de amor de um neto pela avó e não um script de pornochanchada. E assim foi.

Terminada a palestra, por um encontro do acaso, eu e Dr. Juan nos vimos em sua sala, ele comendo uma maçã, começou a me contar sobre viagens pela Argentina que eu poderia fazer de moto. Me mostrou fotos de alguns lugares realmente espetaculares. Quer saber? Eu adoraria fazer o Tour do Imperador um dia. Quem sabe?

Mais tarde, no restaurante, a Maíra, nutricionista, bonita e popular, falou comigo. Assim, do nada. Sem a minha participação ativa. Fiquei feliz. Esse dia anda meio diferente.

Almocei com dois psicólogos e uma paciente. Falamos de tudo. Mas o mais importante foi o que um dos psicólogos me disse antes mesmo de começar a comer. “Tem visita pra você hoje, Bressane”, anunciou. “Um tal de Regis vem tem ver”.

Meu coração mudou de frame rate instantaneamente. Regis? Só pode ser um. O professor Wilson Regis, que mencionei no diário de 19 de Abril. Um dos meus mentores. O cabra que me fez chamar todo mundo de cabra. O Cabra dos cabras. Aparentemente chegou nele a notícia das minhas peripécias e ele deu seus pulos para descobrir onde eu estava. E hoje, meu amigo, o professor Regis, estava prestes a dar carteirada aqui na porta.

Não muito tempo depois do almoço recebi o aviso. “Bressane, sua visita chegou”. Corri para o parapeito do andar superior, onde eu estava, e o vi, no pátio, acompanhado por um ajudante.

Para que você entenda, o Professor Wilson Regis é um velhinho que não muda de aparência. Ele se parece exatamente com a memória que tenho dele quase duas décadas atrás, quando o vi pela última vez. Deve ter mais de 200 anos de idade. Aparenta uns 75. E é um gênio, desses que resolvem os mais importante problemas do mundo com uma folha de papel e uma caneta BIC azul falhando. Desses que comem uma banana, colocam a casaca no bolso só vão perceber quando a casca já se transmutou para outro vegetal.

O Professor Regis sempre me ensinou muitas coisas. Me ensinou a dar valor às palavras. Me ensinou muito sobre sabedoria, sobre humildade, sobre simplicidade e sobre as coisas que realmente tem valor nesta Terra. Também me ensinou a chamar todo mundo de cabra, que era como me chamava. Eu só aprendi essa última lição. Todo o resto ficou no esquecimento, ou fragmentado em meu cérebro de alguma forma.

O ajudante puxou duas cadeiras e conversamos por pouco mais de uma hora. Foi uma conversa boa. De amigos. Ainda me surpreendo pelo fato de ter um amigo como ele. Tão distante na idade, tão próximo na temática. Em certo momento ele disse “Rodrigo, eu estou conversando com você e você está lúcido. Você não está doente. Aquilo (a tentativa de suicídio) foi uma coisa, um acidente. Você está lúcido”. Eu concordei sem dizer que escrevo e falo sobre isso há quase um mês. De que o confinamento não é um tratamento para mim. Não me estendi.

Um assunto, entretanto, o professor evitou conversar. “Isso tem que ser pra outra hora, cabra”, esquivou-se. Quando nos conhecemos e na última vez que nos vimos, éramos bons amantes da Palavra, da Bíblia Sagrada. Fiéis escudeiros da Fé Cristã. Hoje nos apartamos neste assunto. Ou melhor, eu me apartei para o caminho da Ciência, sem espaços para Deus, embora ele se recuse a aceitar. “Você não é ateu coisa nenhuma, cabra”, disse batendo na minha cabeça. “Mas um dia a gente conversa sobre isso, porque vamos precisar de tempo”, finalizou enquanto eu pensava que, apesar da incrível longevidade do velho Regis, é muito provável que jamais tenhamos esta conversa.

Ele tirou um livro velho da bolsa (mais velha ainda) e me deu de presente. A autobiografia de Lee Iacocca. “Esse cara recuperou a Ford”, foi explicando. “Ele vai te ajudar”. Agradeci.

Quase na saída, o Dr. Juan apareceu e apresentei os dois. Quando disse que meu amigo Regis era professor de grego clássico, o Dr. Juan mandou um “mataiodoxía ton mataiodoxíes óla eínai mataiodoxía” (é lógico que eu googlei isso). O professor Regis, sem titubear, sem perder meio segundo, devolveu “vaidade das vaidades tudo é vaidade”. É um texto bíblico manjado, mas a cena me impressionou assim mesmo. Eu gosto de gente inteligente. E qualquer demonstração de inteligência na minha frente é sempre nem recebida.

O professor se foi e eu fui chamado pela psicóloga. Uma que eu gostei de cara, parei de gostar e agora estou completamente apaixonado. Com ela, consegui contar 40 anos da história da minha vida em 40 minutos. Nos 20 restantes ela me vez entender muita coisa que eu nunca tinha sequer chegado perto. Foi muito bom.

Depois dela, outro psicólogo. O good cop. Mais um papo incrível com uma série de descobertas e uma lição de casa para o próximo encontro. Fazer a leitura de um texto sobre perdas e as maneiras como lidamos com elas.

Ainda tive uma conversa com a minha irmã, Priscila, que mora na Holanda e tem a maior capacidade de interpretação da realidade na minha família. Nossa conversa foi ótima. Sinto muita saudade dela. Espero poder vê-la em breve. Na Holanda, claro.

Esse foi o melhor dia da minha vida desde o pior dia da minha vida.


Amanhã tem mais. Eu criei uma lista de músicas que tenho ouvido enquanto estou internado. Para ouvir, assine minha playlist do Spotify “After Death”. Ela é colaborativa. Significa que, além de assinar, você pode contribuir com músicas que goste.

Se quiser falar comigo, escreva para rodrigo@bressane.com.

Seja gentil,
Rodrigo Bressane