28 de Abril de 2017 — Xeque-mate

Este artigo é parte da série “Como é tentar se matar e falhar”. Comece por ali, caso ainda não tenha lido.

Sexta-feira, Dia D + 21

Tomei café da manhã. Sucesso total. Maíra, a nutricionista, bonita e popular, não falou comigo. Não quer dizer nada (certo?).

Fiz minha primeira lavanderia . Teoricamente, eu tenho que levar um cesto de roupas sujas às segundas, quartas e sextas para um lugar mágico. Lá eu entrego o cesto numa mesa, como se fosse uma oferenda. Não tem ninguém por perto. Só a mesa, a oferenda e eu.

Da oferenda eu fui pra palestra do Dr. Juan. O tema continua sendo sexo, e parece interessar a todo mundo. Preciso confessar, entretanto, que nas atuais conjunturas da vida o assunto não me atrai. Nem falar, nem ouvir, nem fazer. No conjunto de temas do universo é só mais um tema. Não acho que seja sinal de envelhecimento. Sou um quarentão — aqui ninguém acredita (ou estão todos mentindo). Ou seja, teoricamente, ainda tenho idade pra coisa.

Acho que é mais um problema de desgosto. Ou preguiça. Ou as duas coisas juntas. Ou pela fase da minha vida. Ou as três coisas juntas. Ou porque não sei até hoje como a coisa funciona (por isso a palestra, seu burro!). Ou as quatro coisas juntas. Enfim, via de regra, quando o assunto é sexo, meu interesse é muito baixo, quase zero.

Logo depois da palestra, fui apresentado a um senhor, que anda com dificuldade, praticamente não fala, tem uma coleção de CD’s, um Walkman e carrega, por onde vai, um tabuleiro de xadrez. Aparentemente ele é muito bom na coisa. Me desafiou para uma partida. Até então, ninguém da clínica o havia vencido.

Eu fui lá, arrumei as peças, tentei lembrar minha última partida — provavelmente com meu pai, anos atrás. Avancei o peão, movimentei o cavalo, joguei daqui, joguei dali e, quase sem perceber, lá estava eu dando xeque-mate no campeão mundial de Alcatraz Land.

Me levantei, estendi a mão e disse, sorrindo: “Bom jogo”. Meu sorriso se desfez em migalhas quando vi a expressão de descontentamento do meu adversário. Puro ódio e desejo de vingança. Só não vou adicioná-lo à lista das possíveis pessoas que podem me exterminar aqui dentro porque ele me chama a cada 15 minutos para uma revanche desde então. Enxadrista se vinga no tabuleiro. Joguei algumas e felizmente perdi a maioria. Mas ele não me deixa mais em paz. Vivo em fuga.


Amanhã tem mais. Eu criei uma lista de músicas que tenho ouvido enquanto estou internado. Para ouvir, assine minha playlist do Spotify “After Death”. Ela é colaborativa. Significa que, além de assinar, você pode contribuir com músicas que goste.

Se quiser falar comigo, escreva para rodrigo@bressane.com.

Seja gentil,
Rodrigo Bressane