4 de Maio de 2017 — Sorvete de flocos

Este artigo é parte da série “Como é tentar se matar e falhar”. Comece por ali, caso ainda não tenha lido.

Quinta, Dia D + 27–9 dias para a alta

Dormi mal. Como teria que fazer o exame de dosagem do lítio cedo, acabei não tomando o sonífero de elefante costumeiro. Passei boa parte da noite em claro e, quando dormia, sonhava maluquices. Mas foi num destes sonhos que vi meus filhos. Quando ainda eram pequenos. Meu caçula aparentava pouco mais de um ano. Nevava e eles estavam agasalhados como personagens de South Park. O sonho me fez levantar da cama, pegar o Moleskine e anotar os detalhes.

Minha mãe é dessas que adora fazer interpretação dos sonhos. Eu não. Mas adoraria ouvir o que ela e outros têm a dizer. Sobre este e o de ontem, do aquário, na minha casa do futuro. No sonho de hoje, acho que a neve tem a ver com o tempo em que eu, minha mulher e minha filha moramos na Alemanha. A cena era muito parecida com a da primeira casa em que ficamos.

Acordei às seis e meia da manhã. Fui avisado que sairíamos quinze para as sete. Fiquei bloqueado pela porta que separa as alas masculina e feminina. Lá pelas sete e pouco alguém me libertou e, depois de mais um tempo, finalmente saí, com outro paciente, para colher sangue. Deu tudo certo.

A palestra da manhã foi boa e o almoço também. Desde que cheguei, tento fazer amizade com as pessoas que eu vou com a cara. As meninas da cozinha são bacanas. Não diria que são todas uns amooooooores, porque eu conheço pessoas que são, e o patamar é mais elevado. No final de todos os almoços e jantares desde que cheguei aqui, eu sempre fui na janelinha da sobremesa e pedi “sorvete de flocos”. Todos os dias. E elas riam sempre, afinal era de fato uma piada. Nem sempre tem sobremesa e quando tem é uma coisinha de nada, uma fruta, uma gelatina daquelas que não valem a pena. Mesmo assim eu continuei com a piada.

Hoje, comi meu almoço como de costume, fui na janelinha fazer a piada e lá estava uma panelinha com, sem brincadeira nenhuma, menos da metade da metade de uma bola de sorvete de flocos. Era minha cota. Quase chorei de alegria. E pensei que era especial pra mim. Olhei para as meninas e agradeci com um sorriso largo. Elas deram de ombros (falei que não eram uns amores). O sorvete de flocos simplesmente aconteceu porque estava no cronograma acontecer. Ou alguém fez por mim e não estava ali pra se entregar, benevolente que é.

Com os muitos tempos de espera que tive hoje, resolvi começar uma lista. Não uma bucket list (que de bucket eu já tive minha cota), mas um repertório daquilo que deve ser transformado em mim, junto comigo, ou para mim. Afinal de contas, a ideia é sair daqui um outro Rodrigo, pronto para a segunda metade da vida — e uma que seja plena de sabedoria, força, inteligência e outras pencas de coisas. Vamos à lista.

  1. Nova Lime: o trabalho é o foco da minha existência há muito tempo. Vai deixar de ser. E vai ganhar outra dimensão. Ultimamente vinha me consumindo como nunca, ou eu estava bem menos preparado para o tanto que vinha me consumindo. Fato é que a Lime precisa e vai mudar. E pra muito melhor. Melhor para mim. Melhor para os clientes. Aliás, o suporte que eu recebi de clientes da Lime só não é mais surpreendente porque estes são frequentemente amigos.
  2. Novo Pandalux: sobre o Panda, não vou falar muito, pois tenho um irmão com quem divido o tema. Mas adianto, mesmo sem pedir bênção, que muita coisa nos últimos meses tem nos empurrado para um caminho deveras excelente (eu não falo assim, só escrevi pra tirar onda).
  3. Questões pessoais: muita coisa delicada para entrar aqui, pelo menos por enquanto. Mas o importante é que saio resoluto a riscar pendências.
  4. Novos hábitos de consumo: eu sou um bicho estranho quando o assunto é gastar dinheiro. Gosto do esporte. Muito. Gasto comigo. Gasto com os outros. Gasto precisando. Gasto sem precisar. Uma coisa que eu não faço quando gasto é pensar. Isso vai mudar. E, consequentemente, meus hábitos de consumo mudarão.
  5. Cuidar de mim (sem ajuda dos universitários): quem me conhece sabe que se tenho algum talento para artes, tecnologia e esses parangolês que eu trabalho, me faltam outros no departamento de todo o resto. Não sei dobrar minhas calças, não sei trocar lâmpada, não sei fritar um ovo, sou incapaz de lavar a louça, não sei usar uma furadeira. Gostaria de mudar isso. Quero cuidar da minha vida sozinho. Não será difícil. Só a parte da furadeira.

Amanhã eu coloco mais alguns itens. A lista já tem uns 30 e imagino que vá crescer infinitamente (nem sei se isso é bom). Mas vou atualizando aos poucos, pra não enjoar.

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Este foi meu melhor dia desde meu pior dia. Continuo lacrado onde não quero, mas com data pra sair. E ainda tomei sorvete de flocos. Metade da metade da metade de uma bola.


Amanhã tem mais. Eu criei uma lista de músicas que tenho ouvido enquanto estou internado. Para ouvir, assine minha playlist do Spotify “After Death”. Ela é colaborativa. Significa que, além de assinar, você pode contribuir com músicas que goste.

Se quiser falar comigo, escreva para rodrigo@bressane.com.

Seja gentil,
Rodrigo Bressane