8 de abril de 2017 — O dia seguinte

Este artigo é parte da série “Como é tentar se matar e falhar”. Comece por ali, caso ainda não tenha lido.

Sábado

Este é um dia que praticamente não existiu na minha mente. O que conto aqui, portanto, é uma salada de vagas lembranças.

O mais difícil de escrever sobre ele é tentar recobrar minhas emoções na data e garantir que elas não sejam influenciadas pelo que sinto agora. Tarefa árdua que, certamente, não será executada com perfeição. Mas vamos tentar.

Acordei mais louco que o Batman. Andando devagar e me comunicando com certa dificuldade, fui informado de que meu amigo e irmão, Agê Barros, estava prestes a chegar pra o almoço, acompanhando de sua mulher, minha amiga Cris Bartis, a filha Tatá e o Snoopy, um mini-cachorro que anda rebolando a bundinha para o lado que bate o vento

O almoço, uma bela feijoada, ficou pronto quase duas da tarde. Meus amigos chegaram e foram logo me perguntando um monte de coisas importantíssimas. Lembro de nada.

Em algum momento veio o tema de como eu me sentia depois de ter feito o que fiz. “Não sentia”, foi minha resposta. Nem arrependimento, nem medo, nada. Talvez fosse efeito de todos os remédios. Mas as gavetas de emoções estavam completamente vazias.

Foi quando baixou um silêncio e a Cris Bartis, conhecida internacionalmente por sua delicadeza verbal, mandou na lata: “Mas você quer morrer?”

Levei alguns segundos para elaborar. Além de drogado, gosto de uma pausa dramática pra assuntos dessa natureza. “Quero”, respondi com a sutileza de um mico leão dourado. Mas não parei aí. Tentei explicar que, o desejo pela morte, pra quem quer morrer, é muito mais uma porta de saída, um escape, que um ímpeto.

Entenda o seguinte. A depressão te deixa sem vontade, sem sentido pras coisas. E não adianta dizer, “olha seus filhos”, “veja as cores dessa flor”, “que bela bunda tem essa tanajura”. Nada muda o fato de que o depressivo encontra-se num estado em que absolutamente nada faz qualquer diferença. Tudo é ruim. Qualquer estado é ruim. Fica ou sair. Levantar ou sentar. Falar ou calar-se. A única coisa que fica, latente e espernente, é o intenso sentimento de angústia. Uma dor no peito que parece impossível de se arrancar. A não ser que se entre pela única porta que parece aberta. A porta da despedida.


Amanhã tem mais. Eu criei uma lista de músicas que tenho ouvido enquanto estou internado. Para ouvir, assine minha playlist do Spotify “After Death”.

Se quiser falar comigo, escreva para rodrigo@bressane.com.

Seja gentil,
Rodrigo Bressane